3 - KAEL

Acordei às cinco e vinte e dois minutos, como acordo todos os dias, com o tipo de precisão que já não precisa de alarme. O corpo aprende o ritmo quando o ritmo nunca muda.

Durante um segundo, fiquei imóvel a olhar para o tecto do quarto de hotel e fiz o que faço sempre antes de me mover: inventário. Temperatura. Sons. O estado da divisão ao redor.

E o corpo ao meu lado.

Íris Calloway estava deitada de costas com aquela respiração de alguém que finalmente cedeu ao sono depois de resistir muito. Tinha resistido, eu notei, durante a noite, o momento exacto em que parou de estar alerta e simplesmente... ficou. Não foi gradual. Foi como uma decisão tomada, o tipo que o corpo toma quando a mente já não consegue manter o controlo.

Olhei para ela por mais tempo do que era estritamente necessário.

Era uma mulher que havia chegado àquele evento com um plano. Isso era evidente desde o momento em que cruzou a porta do salão, a forma como o sorriso estava calibrado, como os olhos verificavam o espaço antes de permitir que o rosto se ajustasse a ele. Era o comportamento de alguém que havia ensaiado. Não de forma amadora, de forma competente, que é exactamente o que torna esse tipo de comportamento difícil de detectar para a maioria das pessoas.

Não sou a maioria das pessoas.

Havia algo mais que notei, e que me havia ocupado durante a noite nos intervalos de outras coisas: não sabia o que queria de mim. Sabia que queria algo, isso estava claro porque toda a noite se focou nos meus movimentos. Mas o vector não estava. E essa era a variável que me interessava.

Às cinco e quarenta e seis, ela acordou.

Não de forma gradual, acordou com a brusquidão de alguém que passa directamente do sono para o estado de alerta sem a fase intermédia que a maioria das pessoas precisa. Ficou imóvel por três segundos exactos. Depois começou a mover-se com a eficiência de quem já fez isto antes em condições que exigiam silêncio.

Fiquei em silêncio a observar. Era informação.

Encontrou o vestido, o sutiã, os sapatos. Verificou o telemóvel. Caminhou até à porta.

— Vais tomar o pequeno-almoço ou preferes sair antes de o hotel acordar?

Parou. O som dos passos dela interrompeu-se de forma completa. Virou-se. E pela primeira vez desde que havia acordado, havia algo no rosto dela que não estava completamente sob controlo, uma fracção de segundo de genuína surpresa antes de a compostura regressar.

Fiquei imóvel, olhos abertos para o tecto, e esperei.

— Preciso de ir — disse.

— Às cinco e quarenta e nove da manhã.

— Tenho compromissos cedo.

— Num domingo.

Ela olhou para mim. Eu continuei a olhar para o tecto, o que era, reconheço, ligeiramente cruel da minha parte. Mas havia algo que eu queria ver, e era exatamente isso: como ela reagia quando as regras da situação mudavam sem aviso.

— Trabalho muito.

— Eu também. — Sentei-me. — Mas não às cinco e quarenta e nove de um domingo. Há limites.

A resposta foi reveladora. Não entrou em colapso nem se tornou defensiva. Ficou parada, avaliou, e depois disse: — Estavas acordado.

— Quase sempre estou. — Franzi a testa. — Levanto-me às seis. Mas não tinhas de ir embora só porque acordei.

— Não ia embora por causa de ti.

— Sei. — Ia embora por causa dela mesma. Isso era evidente. — Vais embora por causa de ti.

A conversa que se seguiu foi interessante. Ela ficou. Não muito tempo, pouco mais de meia hora, mas ficou, e isso dizia mais do que qualquer coisa que poderia ter dito deliberadamente. Pessoas com planos rígidos não ficam quando o plano diz para ir. Ficam quando algo lhes chama mais a atenção do que o plano.

Tomámos café à beira da janela, com o amanhecer de Londres a abrir-se lá fora, aquela luz cinzenta que a cidade tem de manhã cedo, antes de decidir se vai ser um dia nublado ou apenas moderadamente mau. Ela falou pouco. Eu também. O silêncio foi do tipo que não precisava de ser preenchido.

Observei-a enquanto bebia o café. As mãos em volta da chávena. A forma como os olhos saíam pela janela mas regressavam sempre ao interior da divisão, ao espaço, às saídas. Era um hábito. Não era ansiedade, claramente era algum tipo de treino.

Isso adicionou outra camada à questão de quem era Íris Calloway.

Quando finalmente se levantou para ir, não a acompanhei até à porta. Fiquei na cadeira junto à janela, taça na mão, a olhar para a cidade. Mas quando ela abriu a porta, disse, sem me virar:

— Íris.

Ela parou.

— Quando quiseres ter aquela conversa que as duas — ela e a versão de si mesma que está sempre a planear — estão a evitar ter, sabes onde me encontrar.

Saiu sem responder.

Fiquei sozinho no quarto por um momento depois de a ouvir ir. Depois levei as chávenas ao balcão da casa de banho, peguei no casaco e fui para a reunião que tinha às sete, que era a razão real pela qual estava em Mayfair em vez de em casa.

No elevador, pensei no seguinte: havia duas possibilidades. A primeira, ela era exactamente o que parecia, uma advogada corporativa com um contrato de consultoria pendente com Marcus Gentile, que havia chegado a um evento de gala e que tinha algo em mim que não estava nos seus planos originais. A segunda, não era exactamente o que parecia.

A primeira possibilidade era mais simples.

Raramente dou crédito à possibilidade mais simples.

Ciro ligou enquanto eu atravessava o átrio do hotel. — Como correu o evento?

— Bem. — Pausa. — Tenho uma tarefa para ti.

— Que tipo de tarefa?

— Íris Calloway . Advogada corporativa. Verifica tudo.

Houve um silêncio de dois segundos. Ciro conhece-me há dez anos e sabe o que esse tipo de pedido significa, e o que não significa. — Até quando?

— Amanhã de manhã.

— Entendido.

Saí para a rua. Londres estava a começar a acordar, o trânsito a construir-se em camadas sobre o asfalto molhado. Subi o carro que Ciro havia deixado à minha espera e fui para a reunião com os advogados sobre a questão do porto em Tilbury que havia estado suspensa há três semanas.

Durante a reunião, que durou duas horas e meia e resolveu exactamente metade do que precisava de ser resolvido, não pensei em Íris Calloway.

Pensei nela exactamente uma vez, quando um dos advogados usou a expressão "due diligence" e eu me lembrei da forma como ela havia ficado imóvel no elevador quando disse que sabia que ela estava naquele andar.

A maioria das pessoas teria negado. Ela perguntou como.

Era uma distinção que importava.

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