5 - ÍRIS

O Scott's era exactamente o tipo de restaurante que eu esperava de Kael Ashford: discreto por fora, impecável por dentro, o tipo de lugar onde os empregados sabem os nomes dos clientes habituais e onde nenhuma mesa fica perto demais da outra. A reserva estava no meu nome — descobri isso quando cheguei e o maître me reconheceu pelo nome antes que eu dissesse qualquer coisa.

Ele havia feito a reserva no meu nome. O que significava que havia verificado o meu nome completo antes de telefonar. O que significava que o telemóvel com o número não guardado provavelmente não era o número que usava habitualmente.

Cheguei três minutos antes das oito. Ashford já estava à mesa quando cheguei, o que era definitivamente incomum, na maioria dos jantares que havia tido com homens em contextos semelhantes, eles chegavam depois. Era uma questão de dinâmica de poder: quem esperava quem.

Ashford havia chegado antes. Decidi que ainda não sabia o que pensar disso.

Levantou-se quando me aproximei, um gesto tão antiquado que quase tropecei de surpresa, e esperou eu sentar antes de se sentar.

— Usaste-os — disse, os olhos nos brincos por um segundo.

— Eram bonitos.

— São.

O jantar começou com a formalidade de dois países que ainda não assinaram o tratado de paz mas que concordaram em partilhar o mesmo espaço por algumas horas. O menu era extenso e ele conhecia-o de cor; não sugeriu pratos para mim, apenas respondeu quando perguntei, o que anotei mentalmente como diferente da maioria.

— Como foi a tua terça? — perguntou, quando o vinho chegou.

— Trabalho. E a tua?

— Reuniões. — Uma pausa. — Passei por Belgravia às três.

— Eu sei.

Ergueu levemente uma sobrancelha, a primeira expressão francamente legível que lhe havia visto.

— Viste-me? — perguntou.

— Não. Mas a mensagem da suculenta foi às 14h23. O meu apartamento fica em Belgravia. — Olhei para ele. — Passaste logo depois de enviar a mensagem. Querias ver se ia à janela.

O silêncio que se seguiu tinha uma qualidade diferente dos silêncios anteriores entre nós. Mais aquecido, de alguma forma, como se tivéssemos chegado a algum lugar que nenhum dos dois havia ainda nomeado.

— Prestas muito mais atenção do que a maioria das pessoas — disse ele.

— Tu também.

— Sim. — Bebeu o vinho. — É por isso que esta conversa é interessante.

— Que conversa?

— Esta. — Um gesto leve com o copo, abrangendo os dois. — Duas pessoas muito atentas a tentar descobrir o que a outra sabe sem revelar o que sabem.

Senti algo contrair e depois soltar-se no peito. Era a sensação de ter sido lida com precisão demais.

— Estás a dizer que sabes que estou a fazer isso? — perguntei directamente.

— Estou a dizer que eu também estou a fazê-lo. — Olhou para mim. — A diferença é que eu admito.

— E o que queres descobrir?

— O que queres de mim. — Uma pausa. — Não do meu dinheiro, não dos meus contactos, não da minha influência. O que queres especificamente de mim.

Olhei para ele por um longo momento.

— Ainda não sei — Pus o copo na mesa com mais cuidado do que o necessário, como se o gesto pudesse conter o peso do que tinha dito. Foi a coisa mais verdadeira que havia dito desde que o conheci, e disse-a para as próprias mãos antes de levantar os olhos.

A janela que existiu naquele momento foi pequena, ele olhou para mim com algo que não consegui classificar completamente, algo entre reconhecimento e algo mais suave, mais inesperado, que desapareceu antes que eu pudesse identificá-lo com certeza.

— Honestidade inesperada — disse.

— Acontece.

— Com que frequência?

— Raramente. Aproveita.

Desta vez, o canto da boca moveu-se o suficiente para constituir um sorriso de verdade. Pequeno, contido, mas presente.

Decidi que era o sorriso mais perigoso que havia visto em muito tempo.

O jantar durou duas horas e meia. Falámos sobre livros — menti sobre alguns favoritos e disse a verdade sobre outros, e ele reparou na diferença sem dizer nada.

— Crime e Castigo — disse ele, quando chegámos aos russos. — É genuíno ou é o que se diz quando se quer parecer sério?

Olhei para ele. — Por que haveria de ser uma coisa ou outra?

— Porque toda a gente diz que gosta de Dostoiévski e metade nunca passou do terceiro capítulo.

— E a outra metade?

— A outra metade ficou obcecada com Raskólnikov e nunca admite porquê. — Bebeu vinho. — Qual és tu?

Fiz uma pausa. Era uma pergunta simples sobre livros. Não era uma pergunta simples sobre livros.

— A segunda. — Disse, por fim. — E não vou explicar porquê.

— Não esperava que explicasses. — O canto da boca moveu-se. — Mas já sei mais do que sabia há um minuto.

— O que sabes?

— Que te identificas com alguém que faz a coisa errada pelos motivos que considera certos e passa o resto do livro a tentar perceber se consegue viver com isso.

O silêncio entre nós foi de um tipo que não é desconfortável mas que pesa.

— É uma leitura — disse.

— É a única leitura possível. — Voltou para o menu. — O linguado é muito bom aqui, se quiseres uma sugestão menos psicanalítica.

Falámos também sobre a cidade, sobre arquitectura, sobre um incêndio num armazém no East End que havia saído nas notícias naquela semana. Em nenhum momento mencionou negócios, dinheiro, ou qualquer coisa que eu pudesse usar.

O homem era disciplinado. Profundamente irritante.

Quando o jantar terminou, acompanhou-me até ao carro. Na rua, antes de eu entrar, virou-se para mim.

— Íris.

— Mm.

— Quem te mandou?

O ar saiu-me dos pulmões de forma controlada. Olhei para ele. Não desviei.

— Ninguém me mandou.

Kael olhou para mim por um longo momento. Depois disse: — Tudo bem.

E esperou eu entrar no carro, fechou a porta, e ficou no passeio enquanto eu saía.

No espelho retrovisor, ficou cada vez menor até desaparecer na esquina.

Fiquei com as mãos no volante por um quarteirão inteiro, e só então reparei que estavam ligeiramente a tremer.

Não de medo.

De alguma coisa muito pior.

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