4 - ÍRIS

A mensagem chegou numa terça-feira, às 14h23, quando estava no meio de uma reunião com um cliente real sobre um caso tributário completamente mundano.

O telemóvel vibrou uma vez sobre a mesa de vidro. Olhei de relance — o reflexo automático de quem verifica mensagens sem interromper o fluxo da conversa.

Era um número que não tinha guardado.

A mensagem dizia apenas: *A vossa suculenta na janela do escritório está a inclinar para a esquerda. Precisa de mais luz.*

Pus o telemóvel de volta sobre a mesa com a mesma calma com que o havia levantado.

— Pode continuar — disse ao cliente, que havia pausado confuso.

Terminei a reunião. Despedi o cliente. Fechei a porta do escritório. Fiquei parada no centro da sala por trinta segundos, que para mim é uma eternidade de imobilidade.

Depois liguei para o número.

Ashford atendeu ao segundo toque.

— Como sabes que tenho uma suculenta? — perguntei, sem preâmbulo.

— Vi-a da rua.

— Do décimo primeiro andar.

— A perspectiva da rua inclui o décimo primeiro andar se souberes onde olhar.

Fui até à janela do escritório e olhei para baixo, não sei de onde veio o pensamento de que ele poderia estar cá. A rua estava movimentada, trânsito normal de tarde de terça, nada fora do padrão. Nenhum homem misterioso a olhar para cima com binóculos, o que seria pelo menos mais honesto. — Foste ao meu edifício.

— Passei pelo teu edifício. É uma diferença importante.

— Kael. — Pausei. — O que estás a fazer?

— A entrar em contacto. — Uma pausa. — Achei que preferias uma mensagem a uma chamada. Chamadas não solicitadas são intrusivas.

Fechei os olhos por meio segundo. A lógica torta e completamente consistente daquilo seria quase cômica se não fosse pela implicação óbvia: ele havia descoberto onde eu trabalhava, havia passado pelo meu edifício, e havia escolhido uma referência específica, a planta, para deixar claro que havia olhado com atenção suficiente para reparar em detalhes.

Era um aviso. Disfarçado de preocupação com horticultura doméstica, mas um aviso.

— O que queres? — Fui até à mesa, pus a mão espalmada na superfície de vidro. Precisava de algo sólido enquanto fazia a pergunta. Certeza que seria uma bomba.

— Jantar. Quinta-feira.

— Jantar.

— É uma refeição que ocorre geralmente entre as sete e as dez da noite, envolve comida e ocasionalmente conversa. — O tom era completamente sério. — Conheces o Scott's, em Mayfair?

— Conheço.

— Às oito.

— Não concordei em ir.

— Ainda não. — Uma pausa tão breve que quase não existiu. — Mas vais.

A chamada encerrou.

Fiquei a olhar para o telemóvel na mão por um momento. Depois fui ao frigorífico do escritório, tirei uma garrafa de água gelada, bebi metade de pé mesmo junto ao frigorífico aberto como uma pessoa perfeitamente composta que não acabou de receber uma chamada desconcertante.

Havia dois cenários possíveis. O primeiro: Kael Ashford era o tipo de homem que fazia isto com mulheres que lhe interessavam, uma assertividade calculada, o jogo de poder que homens com dinheiro e influência confundem com charme. Nesse caso, era previsível, manipulável, e eu sabia exactamente como me mover.

O segundo cenário: ele sabia algo. Não tudo, se soubesse tudo, o jantar seria o menor dos meus problemas. Mas algo. E o jantar era uma forma de medir o que eu sabia que ele sabia.

Precisava de ir de qualquer forma. A missão exigia aproximação. Ashford a facilitar essa aproximação era um presente que não havia esperado e do qual devia desconfiar profundamente.

Liguei para Serena.

— Ele convidou-me para jantar.

— Rápido. — O tom de Serena era de aprovação cautelosa. — Muito rápido.

— Estou ciente disso.

— Vais usar o dispositivo?

O dispositivo era um gravador miniaturizado que cabia num par de brincos. Já o havia usado três vezes antes, em situações controladas, com briefings completos e equipa de suporte disponível. — Vou avaliar na altura.

— Íris. A janela para conseguir acesso ao servidor fecha-se em menos de seis semanas. Precisamos de algo concreto.

— Sei o prazo, Serena.

— Então usa o jantar. És boa nisso. É o que fazes.

Desliguei sem responder.

Fiquei à janela do escritório a olhar para a rua lá baixo e a pensar, não pela primeira vez, que havia uma diferença enorme entre saber que eras boa em alguma coisa e querer continuar a sê-lo.

* * *

Na quarta-feira à tarde, uma caixa chegou ao escritório. Sem remetente identificado. Dentro, entre papel de seda branco, havia um par de brincos: pequenos, delicados, três pontos de diamante em ouro amarelo.

E um cartão.

*Para quinta-feira. Não precisas de usar os teus velhos.*

Fiquei a olhar para os brincos por um tempo que prefiro não cronometrar.

Depois voltei a colocá-los na caixa, fechei a tampa, e passei a tarde inteira sem conseguir decidir se os usaria ou não.

Usei.

Claro que usei. Sou profissional. Os brincos eram exactamente o tipo de acessório certo para aquele contexto e recusá-los teria sido um desperdício de um sinal útil. Não tinha nada a ver com o facto de serem genuinamente bonitos. Absolutamente nada.

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