Mundo de ficçãoIniciar sessãoKyara Miller sempre soube que Julyan Fort era intocável o braço direito do pai dela, o homem que construiu o império ao lado de André. Mas quando uma viagem de negócios os força a dividir o mesmo quarto em uma cidade isolada, as máscaras caem. Ele a observa há anos com um desejo que queima em silêncio. Ela o provoca porque odeia ser ignorada. Um toque acidental vira beijo roubado. Um beijo vira obsessão. Mas se André descobrir, não perde só a carreira — perde a família que Julyan considera sua. No escritório, eles são profissionais. No escuro, são perigosos. E ninguém pode saber que ela é dele... até que seja tarde demais.
Ler maisO vidro temperado das janelas do 42º andar da Miller Corp. era a única coisa que me separava do céu cinzento de Chicago, mas, às vezes, eu sentia que ele servia apenas para me manter presa em um aquário de luxo.
Ajustei a saia lápis de couro preto e verifiquei meu reflexo na tela desligada do tablet. Eu parecia uma Miller. Cabelos perfeitamente alinhados, uma postura que gritava herança e olhos que escondiam o fato de que eu passei a noite anterior relendo relatórios financeiros só para não gaguejar diante dele. Não do meu pai. Mas do homem que, para todos os efeitos, era o dono invisível daquela empresa. — Ele já está lá dentro? — perguntei a Bianca, a secretária que trabalhava para o meu pai há mais tempo do que eu estava viva. — Há vinte minutos, querida. O Sr. Fort e seu pai estão revisando os termos da fusão com o grupo espanhol. "Sr. Fort". O nome ecoava como um acorde grave de violoncelo na minha mente. Respirei fundo, empurrei as portas duplas de carvalho e entrei. O ar condicionado estava em uma temperatura polar, mas o calor que emanava do centro da sala era palpável. Meu pai, André Miller, estava de pé junto à janela, falando ao celular. E sentado à mesa de conferência, com uma caneta de ouro entre os dedos longos e ágeis, estava Julyan Fort. Ele não levantou os olhos. Julyan nunca me dava o benefício de um reconhecimento imediato. Ele era o braço direito do meu pai, o estrategista frio que transformou uma empresa familiar em um império global. Ele tinha trinta e cinco anos, dez a mais que eu, e uma aura de perigo contido que me fazia querer gritar apenas para ver se ele perderia a compostura. — Você está atrasada, Kyara — meu pai disse, desligando o telefone e me lançando um olhar de desaprovação que já não me machucava mais. Era apenas o protocolo. — O trânsito na Michigan Avenue não respeita o sobrenome Miller, pai — respondi, caminhando até a mesa. Escolhi o lugar exatamente em frente a Julyan. Se ele ia me ignorar, teria que fazer isso com a minha presença queimando em sua linha de visão. Finalmente, ele ergueu a cabeça. Os olhos de Julyan eram de um cinza tempestuoso, cercados por cílios escuros que davam a ele uma aparência quase predatória. Ele estava impecável em um terno sob medida azul-marinho, a camisa branca tão engomada que parecia uma armadura. — Srta. Miller — sua voz era um barítono baixo, profissional e completamente desprovido de emoção. — Se terminou de analisar o trânsito, talvez possamos focar no fato de que os espanhóis estão pedindo uma cláusula de saída que pode nos custar setecentos milhões de dólares. Senti meu rosto esquentar. Ele sempre fazia isso. Reduzia minha existência a uma distração trivial. — Eu li o pré-contrato, Julyan. E se você tivesse passado da página dez, veria que a cláusula de saída é mútua. Se eles desistirem, a multa cobre nossa exposição de risco. Pela primeira vez em meses, vi um lampejo de algo nos olhos dele. Não era respeito — era curiosidade. Um desafio silencioso. Ele inclinou o corpo para frente, apoiando os cotovelos na mesa de mogno. O movimento fez o tecido do terno tensionar nos ombros largos. — A exposição de risco não é apenas financeira, Kyara. É reputacional — ele disse, omitindo o "Srta." pela primeira vez. — Mas fico feliz que tenha aberto o documento. É um começo. — Um começo? Eu trabalho nesta empresa há dois anos — retruquei, a voz subindo um oitava. — Kyara, chega — meu pai interveio, caminhando até nós. — Julyan tem razão. Precisamos de foco total. A viagem para a sede da vinícola em Rosewood é amanhã. Quero vocês dois lá para fechar os detalhes finais com os proprietários locais antes dos espanhóis chegarem. Meu coração falhou uma batida. Rosewood era uma cidade pequena, isolada por colinas e vinhedos, a seis horas de distância. — "Vocês dois"? — perguntei, tentando soar indiferente. — Você não vai? — Tenho uma reunião com o conselho aqui em Chicago. Julyan está no comando da operação. Você vai como minha representante, mas a palavra final é dele. Olhei para Julyan. Ele estava voltando a anotar algo no papel, a expressão novamente ilegível. Ele parecia perfeitamente satisfeito com a ideia de me levar para um lugar onde ninguém poderia nos interromper, apenas para continuar me tratando como uma estagiária irritante. Ou talvez ele estivesse tão ansioso quanto eu, e aquela máscara de gelo fosse a única coisa impedindo que ele avançasse sobre a mesa. Não. Julyan Fort era feito de números e estratégias. Ele não tinha sentimentos. Ele era o homem que meu pai confiava mais do que em mim. Ele era o muro que eu não conseguia escalar. — Algum problema com isso, Kyara? — Julyan perguntou, sem tirar os olhos do papel. — Nenhum — respondi, fechando meu tablet com força excessiva. — Só espero que Rosewood tenha um bom bar. Vou precisar de algo forte para aguentar seis horas de viagem com o "homem de gelo". Ele parou de escrever. A caneta parou no meio de uma palavra. Por um segundo, o silêncio na sala foi tão denso que eu podia ouvir o tic-tac do relógio de parede de dez mil dólares. Julyan lentamente guardou a caneta no bolso interno do paletó e se levantou. Ele era alto, muito mais alto do que eu quando eu não estava de saltos, e sua presença parecia consumir todo o oxigênio do ambiente. Ele caminhou até mim, parando a centímetros de distância. O cheiro dele — sândalo, couro e algo puramente masculino — me atingiu como um soco no estômago. — O carro passa às seis da manhã na sua cobertura — ele sussurrou, perto o suficiente para que apenas eu ouvisse, enquanto meu pai guardava alguns documentos do outro lado da sala. — Tente não se atrasar, Kyara. Eu detesto fazer as pessoas esperarem. Especialmente quando elas têm tanto a aprender. Ele me lançou um último olhar — um olhar que desceu pelos meus lábios e subiu de volta para os meus olhos com uma intensidade que me fez tremer — e saiu da sala sem dizer mais nada. Eu fiquei ali, com as mãos trêmulas escondidas atrás das costas. O jogo estava armado. E em Rosewood, longe dos olhos do meu pai e das paredes de vidro da Miller Corp., eu ia descobrir exatamente o que se escondia atrás daquela máscara de profissionalismo. Mesmo que isso significasse queimar o império inteiro para descobrir.Robert Fort acordava às cinco da manhã todos os dias. Kyara descobriu isso na terceira manhã na comunidade, quando desceu para buscar água e encontrou o velho já sentado no banco de madeira em frente ao igarapé, com uma xícara de café nas mãos e os olhos no rio como se estivesse lendo alguma coisa que só ele sabia decifrar.Ela hesitou na soleira.Robert virou o rosto sem pressa.— Café está no fogão — disse ele, como se ela fosse uma visita esperada.E
A comunidade de Robert dormia cedo. Às nove da noite, as janelas das casas de palha já estavam apagadas, e o único som era o do igarapé correndo e a floresta respirando no escuro.Sia havia arrumado para eles dois quartos separados uma cortesia que Kyara agradeceu e ignorou.Ela bateu na porta de Julyan meia hora depois que todos tinham se recolhido. Ele abriu sem surpresa, como se estivesse esperando. Provavelmente estava.O quarto era pequeno e honesto: cama de madeira com colchão fino, mosquiteiro branco caindo do teto como um véu, uma janela aberta para o igarapé. Uma vela acesa na mesinha improvisada. Nada do mármore de Positano nem do vidro fumê de Chicago. Apenas o essencial.Julyan ainda segurava uma das cartas do pai. Dobrou-a devagar e colocou sobre a mesa quando ela entrou.— Você não precisava bater — ele disse.— Queria — ela respondeu.Ficou parada perto da porta por um momento, olhando para ele. Ele estava sem camisa, as marcas do ombro ferido visíveis na penumbra da ve
O cargueiro Santa Marta levou onze dias para cruzar o Atlântico. Onze dias de identidades falsas, cabines abafadas e o cheiro constante de óleo de máquina e café barato. Julyan passava as madrugadas decriptando o conteúdo da cápsula de Sia coordenadas, fragmentos de áudio, fotos antigas — enquanto Kyara aprecia a proa sozinha, olhando para o oceano como se tentasse apagar o Mediterrâneo da memória.Quando o Brasil apareceu no horizonte, era uma parede verde-escura que parecia engolir o céu.Manaus os recebeu com calor úmido e o barulho caótico de uma cidade que vivia entre dois mundos — o moderno e o selvagem. O aeroporto, o mercado flutuante, as ruas com cheiro de borracha e peixe frito. Tudo ao mesmo tempo, sem pedir licença.Sia os encontrou num hostel discreto no centro histórico. Ela estava mais calma agora, sem o rifle, usando calça cargo e expressão de quem dormira pouco mas pensara demais.— As coordenadas apontam para o Rio Negro acima, perto de Santa Isabel — ela disse, espa
Kyara MillerO balanço da lancha de Sia era hipnótico, mas meu coração ainda batia no ritmo frenético do salto no Mediterrâneo. Eu estava sentada na cabine luxuosa e funcional, envolta em um roupão grosso que Sia me entregara. O cheiro de sal ainda impregnava meu cabelo, e meus lábios ainda queimavam com o toque de Julyan na gruta.Olhei para ele. Julyan estava sentado à mesa de navegação, com o torso nu enquanto Sia limpava o corte em seu ombro com uma eficiência brutal. Ele não reclamava, mas seus olhos buscavam os meus a cada movimento da lancha.— Vocês têm sorte de Lorenzo ser um arrogante — Sia disse, jogando uma compressa ensanguentada em uma bandeja de metal. — Ele achou que o mar faria o trabalho sujo por ele. Ele não esperava que eu estivesse monitorando a frequência dos rádios da Villa há três dias.— Por que nos ajudar, Sia? — perguntei, aproximando-me e sentando-me ao lado de Julyan. Coloquei minha mão sobre a dele, sentindo seus dedos se entrelaçarem aos meus instantanea










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