Mundo ficciónIniciar sesiónKyara Miller
O ronco baixo do motor do SUV era o único som que preenchia o interior do carro, além do clique ocasional das teclas do laptop de Julyan. Estávamos na estrada há três horas. Chicago agora era apenas uma lembrança cinzenta no retrovisor, substituída por campos abertos e o início das colinas cobertas de névoa que anunciavam a proximidade de Rosewood. Eu tentava focar no meu livro, mas as palavras dançavam na página sem fazer sentido. Como eu poderia me concentrar quando o homem ao meu lado exalava uma energia que parecia carregar o próprio ar de eletricidade estática? Olhei de soslaio para ele. Julyan estava com a mandíbula cerrada, os olhos fixos na tela, mas notei que ele não mudava de aba no navegador há pelo menos quinze minutos. Ele estava fingindo. A percepção me deu um golpe de audácia. — Você vai quebrar o teclado se continuar apertando as teclas com essa força — eu disse, quebrando o silêncio. Julyan não se mexeu imediatamente. Ele terminou de digitar algo, fechou o laptop com um movimento preciso e finalmente virou o rosto para mim. — É apenas eficiência, Kyara. Algo que você deveria tentar praticar em vez de monitorar meus movimentos. — É difícil não monitorar quando você ocupa metade do espaço do carro com esse seu ego — retruquei, fechando meu livro com um estalo. — Por que você me odeia tanto, Julyan? O que eu fiz para você, além de nascer com o sobrenome do homem que paga seu bônus anual? Vi o músculo em sua bochecha saltar. Ele se inclinou ligeiramente em minha direção, diminuindo a distância segura entre nós. O cheiro de seu perfume, agora misturado ao café que ele tomara antes de sair, era inebriante. — Eu não odeio você, Kyara. Você é apenas... uma complicação que eu não pedi. — Uma complicação? — rir sem humor. — Eu sou a herdeira desta empresa. No papel, eu sou sua futura chefe. — No papel — ele repetiu, a voz baixando para um tom perigosamente suave. — Mas aqui, neste carro, e em Rosewood, você é apenas uma mulher que não tem ideia do fogo com o qual está brincando. Antes que eu pudesse responder, o carro reduziu a velocidade. Marcus, o motorista, pigarreou, quebrando o feitiço. — Sr. Fort, Srta. Miller... chegamos a Rosewood. O hotel fica logo após aquela curva. Olhei pela janela. Rosewood parecia saída de um filme de época, se esse filme fosse um suspense romântico. Ruas de pedra, construções de madeira escura e vinhedos que se estendiam até onde a vista alcançava, mergulhados em um tom de verde quase negro sob o céu nublado. O carro parou em frente ao The Obsidian Inn, um hotel boutique que era o ápice do luxo rústico. Assim que descemos, o ar frio da montanha me atingiu, fazendo-me encolher dentro do casaco. Julyan estava ao meu lado em um segundo. Ele não me tocou, mas sua proximidade agia como um escudo contra o vento. Entramos no saguão, que cheirava a lenha queimada e lavanda. Julyan caminhou até a recepção com a confiança de quem é dono do mundo. — Reserva para Julyan Fort e Kyara Miller — disse ele à recepcionista, uma mulher jovem que parecia subitamente incapaz de formar frases coerentes diante da beleza austera dele. — Ah, sim... Sr. Fort. — Ela digitou algo rapidamente, sua expressão mudando de admiração para nervosismo. — Houve uma mensagem enviada para o seu escritório hoje cedo. Parece que tivemos um problema sério com o sistema de aquecimento na ala oeste. Senti um calafrio que não tinha nada a ver com o clima lá fora. Julyan estreitou os olhos. — O que isso significa exatamente? — Significa que perdemos dez quartos, incluindo um dos seus. Devido ao Festival da Colheita, a cidade está completamente lotada. Não há uma cama vaga em sessenta quilômetros. — Você está me dizendo — comecei, minha voz falhando ligeiramente — que só temos um quarto? A recepcionista assentiu, parecendo que queria desaparecer. — É a Suíte Imperial. Ela é enorme, Srta. Miller. Tem dois ambientes, mas... apenas uma cama king-size. O sofá é de couro italiano, muito confortável, mas — ela olhou para Julyan, que parecia uma estátua de gelo — temo que seja nossa única opção. Virei-me para Julyan, esperando que ele explodisse, que exigisse que comprassem o hotel ou que ligasse para o meu pai. Mas ele permaneceu em silêncio. Ele olhou para a chave magnética sobre o balcão e depois para mim. Havia algo em seu olhar que eu nunca tinha visto antes. Não era raiva. Era uma aceitação sombria, quase como se ele já soubesse que isso aconteceria. — Pegue as malas, Marcus — Julyan ordenou, sua voz soando como um comando de execução. — Ficaremos com a suíte. — Julyan, você não pode estar falando sério — sussurrei enquanto subíamos o elevador de grades de ferro fundido. — Nós dois? No mesmo quarto? Meu pai vai te matar se souber disso. — Seu pai quer o negócio fechado, Kyara. E eu não vou dormir no carro no meio de uma tempestade que está prestes a desabar — ele respondeu, sem olhar para mim. — Além disso, você não confia em si mesma perto de mim? — Eu não confio em você! — sibilou. O elevador parou. Ele abriu a porta de ferro e me encarou de cima. — Ótimo. Você está começando a aprender. Nunca confie em um homem que não tem nada a perder. Ele caminhou pelo corredor, deixando-me para trás com o coração batendo contra as costelas como um pássaro enjaulado. Quando ele abriu a porta da suíte, meu fôlego parou. Era magnífica, com janelas do chão ao teto voltadas para os vinhedos, uma lareira de pedra já acesa e, no centro do quarto, a cama. Grande, imponente, com lençóis de seda branca que pareciam um convite ao pecado. Marcus deixou as malas e saiu rapidamente, sentindo a tensão que poderia ser cortada com uma faca. Julyan tirou o paletó e o jogou sobre uma poltrona, desabotoando os punhos da camisa branca. Ele caminhou até o bar e serviu dois copos de um vinho tinto profundo, provavelmente da própria reserva da vinícola que viemos comprar. Ele estendeu um copo para mim. — Beba, Kyara. Vai ser uma noite longa. E nós ainda nem começamos a trabalhar. Peguei o copo, meus dedos roçando os dele. Desta vez, ele não recuou. Seus olhos cinzas estavam fixos nos meus, e eu percebi, com um terror delicioso, que as máscaras não cairiam apenas em Rosewood. Elas já estavam em pedaços no chão daquele quarto.






