Herdeira Proibida: Um Amor Que Pode Destruir Tudo
Herdeira Proibida: Um Amor Que Pode Destruir Tudo
Por: Thais de Souza Costa Amorim
Capítulo 1: Redoma de Vidro

​O vidro temperado das janelas do 42º andar da Miller Corp. era a única coisa que me separava do céu cinzento de Chicago, mas, às vezes, eu sentia que ele servia apenas para me manter presa em um aquário de luxo.

​Ajustei a saia lápis de couro preto e verifiquei meu reflexo na tela desligada do tablet. Eu parecia uma Miller. Cabelos perfeitamente alinhados, uma postura que gritava herança e olhos que escondiam o fato de que eu passei a noite anterior relendo relatórios financeiros só para não gaguejar diante dele.

​Não do meu pai. Mas do homem que, para todos os efeitos, era o dono invisível daquela empresa.

​— Ele já está lá dentro? — perguntei a Bianca, a secretária que trabalhava para o meu pai há mais tempo do que eu estava viva.

​— Há vinte minutos, querida. O Sr. Fort e seu pai estão revisando os termos da fusão com o grupo espanhol.

​"Sr. Fort". O nome ecoava como um acorde grave de violoncelo na minha mente.

​Respirei fundo, empurrei as portas duplas de carvalho e entrei. O ar condicionado estava em uma temperatura polar, mas o calor que emanava do centro da sala era palpável. Meu pai, André Miller, estava de pé junto à janela, falando ao celular. E sentado à mesa de conferência, com uma caneta de ouro entre os dedos longos e ágeis, estava Julyan Fort.

​Ele não levantou os olhos. Julyan nunca me dava o benefício de um reconhecimento imediato. Ele era o braço direito do meu pai, o estrategista frio que transformou uma empresa familiar em um império global. Ele tinha trinta e cinco anos, dez a mais que eu, e uma aura de perigo contido que me fazia querer gritar apenas para ver se ele perderia a compostura.

​— Você está atrasada, Kyara — meu pai disse, desligando o telefone e me lançando um olhar de desaprovação que já não me machucava mais. Era apenas o protocolo.

​— O trânsito na Michigan Avenue não respeita o sobrenome Miller, pai — respondi, caminhando até a mesa.

​Escolhi o lugar exatamente em frente a Julyan. Se ele ia me ignorar, teria que fazer isso com a minha presença queimando em sua linha de visão.

​Finalmente, ele ergueu a cabeça.

​Os olhos de Julyan eram de um cinza tempestuoso, cercados por cílios escuros que davam a ele uma aparência quase predatória. Ele estava impecável em um terno sob medida azul-marinho, a camisa branca tão engomada que parecia uma armadura.

​— Srta. Miller — sua voz era um barítono baixo, profissional e completamente desprovido de emoção. — Se terminou de analisar o trânsito, talvez possamos focar no fato de que os espanhóis estão pedindo uma cláusula de saída que pode nos custar setecentos milhões de dólares.

​Senti meu rosto esquentar. Ele sempre fazia isso. Reduzia minha existência a uma distração trivial.

​— Eu li o pré-contrato, Julyan. E se você tivesse passado da página dez, veria que a cláusula de saída é mútua. Se eles desistirem, a multa cobre nossa exposição de risco.

​Pela primeira vez em meses, vi um lampejo de algo nos olhos dele. Não era respeito — era curiosidade. Um desafio silencioso. Ele inclinou o corpo para frente, apoiando os cotovelos na mesa de mogno. O movimento fez o tecido do terno tensionar nos ombros largos.

​— A exposição de risco não é apenas financeira, Kyara. É reputacional — ele disse, omitindo o "Srta." pela primeira vez. — Mas fico feliz que tenha aberto o documento. É um começo.

​— Um começo? Eu trabalho nesta empresa há dois anos — retruquei, a voz subindo um oitava.

​— Kyara, chega — meu pai interveio, caminhando até nós. — Julyan tem razão. Precisamos de foco total. A viagem para a sede da vinícola em Rosewood é amanhã. Quero vocês dois lá para fechar os detalhes finais com os proprietários locais antes dos espanhóis chegarem.

​Meu coração falhou uma batida. Rosewood era uma cidade pequena, isolada por colinas e vinhedos, a seis horas de distância.

​— "Vocês dois"? — perguntei, tentando soar indiferente. — Você não vai?

​— Tenho uma reunião com o conselho aqui em Chicago. Julyan está no comando da operação. Você vai como minha representante, mas a palavra final é dele.

​Olhei para Julyan. Ele estava voltando a anotar algo no papel, a expressão novamente ilegível. Ele parecia perfeitamente satisfeito com a ideia de me levar para um lugar onde ninguém poderia nos interromper, apenas para continuar me tratando como uma estagiária irritante.

​Ou talvez ele estivesse tão ansioso quanto eu, e aquela máscara de gelo fosse a única coisa impedindo que ele avançasse sobre a mesa.

​Não. Julyan Fort era feito de números e estratégias. Ele não tinha sentimentos. Ele era o homem que meu pai confiava mais do que em mim. Ele era o muro que eu não conseguia escalar.

​— Algum problema com isso, Kyara? — Julyan perguntou, sem tirar os olhos do papel.

​— Nenhum — respondi, fechando meu tablet com força excessiva. — Só espero que Rosewood tenha um bom bar. Vou precisar de algo forte para aguentar seis horas de viagem com o "homem de gelo".

​Ele parou de escrever. A caneta parou no meio de uma palavra. Por um segundo, o silêncio na sala foi tão denso que eu podia ouvir o tic-tac do relógio de parede de dez mil dólares.

​Julyan lentamente guardou a caneta no bolso interno do paletó e se levantou. Ele era alto, muito mais alto do que eu quando eu não estava de saltos, e sua presença parecia consumir todo o oxigênio do ambiente.

​Ele caminhou até mim, parando a centímetros de distância. O cheiro dele — sândalo, couro e algo puramente masculino — me atingiu como um soco no estômago.

​— O carro passa às seis da manhã na sua cobertura — ele sussurrou, perto o suficiente para que apenas eu ouvisse, enquanto meu pai guardava alguns documentos do outro lado da sala. — Tente não se atrasar, Kyara. Eu detesto fazer as pessoas esperarem. Especialmente quando elas têm tanto a aprender.

​Ele me lançou um último olhar — um olhar que desceu pelos meus lábios e subiu de volta para os meus olhos com uma intensidade que me fez tremer — e saiu da sala sem dizer mais nada.

​Eu fiquei ali, com as mãos trêmulas escondidas atrás das costas.

​O jogo estava armado. E em Rosewood, longe dos olhos do meu pai e das paredes de vidro da Miller Corp., eu ia descobrir exatamente o que se escondia atrás daquela máscara de profissionalismo. Mesmo que isso significasse queimar o império inteiro para descobrir.

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