Mundo de ficçãoIniciar sessãoKyara Miller
A luz da manhã em Rosewood não era suave. Ela entrou pelas frestas das cortinas pesadas como lâminas de cristal, cortando a penumbra e me forçando a abrir os olhos. Por um segundo, o silêncio do quarto me enganou, fazendo-me acreditar que tudo o que aconteceu — o toque de Julyan, o calor da lareira, a entrega desesperada sob o som do trovão — tinha sido um delírio provocado pelo vinho.
Mas então eu me virei na cama e vi o lado vazio.
Os lençóis de seda branca estavam revirados, ainda guardando o calor de um corpo que não estava mais ali. Sentei-me bruscamente, puxando o edredom contra o peito. A realidade me atingiu como um soco: eu tinha cruzado a linha. E não apenas qualquer linha, mas a fronteira que mantinha minha vida organizada e o império do meu pai seguro.
Ouvi o som de água correndo. O chuveiro.
Levantei-me, meus pés descalços tocando o chão frio. Minhas roupas da noite anterior estavam espalhadas pelo tapete, um rastro de evidências da minha rendição. Peguei meu roupão de cetim e o vesti apressadamente, amarrando o nó com dedos trêmulos. Eu precisava de café. Eu precisava de ar. Mas, acima de tudo, eu precisava saber se o homem que me beijou com aquela fúria ainda existia, ou se o "Ciborgue" tinha voltado com o nascer do sol.
A porta do banheiro se abriu.
Julyan saiu envolto em uma névoa de vapor. Ele estava apenas de calça social, o cinto ainda frouxo, e o tronco nu exibia uma musculatura que eu agora conhecia pelo tato. Gotas de água escorriam pelo seu peito e desapareciam no cós da calça. Ele parou ao me ver, e por um milésimo de segundo, vi uma sombra de vulnerabilidade em seus olhos cinzas.
Mas ela desapareceu antes que eu pudesse nomeá-la.
— Bom dia — ele disse. Sua voz era gélida, desprovida de qualquer traço do calor que ele usara para sussurrar meu nome no escuro. — O serviço de quarto deixou o café na mesa da sala. Sugiro que se apresse. Temos reunião com os proprietários da vinícola em quarenta minutos.
— "Bom dia"? — repeti, sentindo uma pontada de indignação. — É só isso que você tem a dizer depois de ontem à noite?
Julyan caminhou até a mesa onde seu laptop já estava aberto. Ele pegou uma camisa branca impecavelmente passada — como se ele estivesse pronto para uma batalha — e começou a vesti-la sem olhar para mim.
— Ontem à noite foi um erro de julgamento, Kyara. Um subproduto do isolamento e da tempestade. Nós somos adultos e profissionais. Vamos tratar isso como uma anomalia estatística e seguir em frente.
— Uma anomalia estatística? — caminhei até ele, a raiva fervendo sob a pele. — Você me beijou como se o mundo estivesse acabando, Julyan. Você disse que eu era a única coisa que você nunca poderia ter. Isso não soa como estatística para mim.
Ele parou de abotoar a camisa e finalmente me encarou. A frieza em seus olhos era absoluta, mas notei que suas mãos estavam cerradas em punhos ao lado do corpo.
— O que você quer que eu diga? — ele disparou, a voz subindo de tom pela primeira vez. — Que eu estou apaixonado? Que vamos fugir e deixar seu pai destruir minha carreira e a sua herança? Acorde, Kyara. Se André Miller descobrir que eu toquei em você, ele não vai apenas me demitir. Ele vai garantir que eu nunca mais consiga um emprego neste hemisfério. E você... você vai perder o respeito do homem que você passou a vida tentando impressionar. Vale a pena? Um momento de prazer vale a ruína de tudo o que construímos?
O silêncio que se seguiu foi pesado. Eu queria dizer que sim. Queria dizer que o toque dele valia mais do que qualquer prédio de vidro em Chicago. Mas as palavras morreram na minha garganta porque eu sabia que ele estava sendo o pragmático que meu pai o ensinou a ser.
— Você é um covarde — sussurrei.
— Eu sou um sobrevivente — ele retrucou, terminando de abotoar a camisa e pegando sua gravata. — Agora, por favor, vista-se. Os proprietários da vinícola, os Srs. Bianchi, são conservadores e observadores. Se eles sentirem um pingo dessa... tensão... entre nós, o negócio vai por água abaixo.
Saí do quarto sem responder, batendo a porta da suíte com força.
Vinte minutos depois, eu estava pronta. Usei um vestido de lã bordô, saltos altos e uma maquiagem pesada o suficiente para esconder a falta de sono. Eu parecia a herdeira perfeita. Intocável. Fria.
Descemos para o café da manhã no restaurante do hotel. Julyan estava sentado à nossa mesa reservada, lendo o The Wall Street Journal como se nada tivesse acontecido. Quando me sentei à sua frente, ele nem levantou os olhos.
— Os Bianchi chegam em cinco minutos — ele disse, enquanto eu servia meu café. — Eles querem vender, mas estão preocupados com a preservação do legado da família. Deixe que eu fale sobre os números. Você foca na parte de responsabilidade social e preservação cultural. É o que eles querem ouvir de uma Miller.
— Entendido, "Sr. Fort" — respondi, o sarcasmo pingando em cada sílaba.
Nesse momento, um casal de idosos elegantes entrou no restaurante. Julyan se levantou instantaneamente, o sorriso profissional surgindo em seu rosto como se ele tivesse um interruptor para emoções.
— Sr. e Sra. Bianchi, que prazer vê-los. Permitam-me apresentar Kyara Miller.
A reunião começou. Por duas horas, assisti Julyan ser o mestre da manipulação. Ele era encantador, inteligente e implacável. Mas, por baixo da mesa, em um momento em que a Sra. Bianchi falava sobre as tradições da colheita, o pé de Julyan roçou acidentalmente no meu.
Ele não se afastou imediatamente.
Aquele toque, por mais breve que fosse, desmentia tudo o que ele tinha dito no quarto. A máscara de gelo estava lá, protegendo-o do mundo, mas o fogo ainda estava queimando por baixo da superfície.
O problema era que, em um império construído sobre vidro, o fogo é a coisa mais perigosa que existe. E nós estávamos prestes a incendiar a casa inteira.







