Mundo ficciónIniciar sesiónSusan envenenou o próprio marido para fugir de anos de abuso. Ela só não esperava que ele sobrevivesse. Enquanto o homem permanece em coma em um hospital distante, Susan apaga a própria identidade e se transforma em Rose — uma mulher sem passado, sem sobrenome e sem ninguém que possa reconhecê-la. Escondida no sul do país, ela consegue emprego como babá da pequena Sofia, filha de Luther, um homem rico, fechado e cercado por rumores. Desde a morte misteriosa da esposa, ele vive isolado em uma mansão silenciosa, onde os empregados falam baixo demais e certas portas parecem esconder mais do que simples lembranças. Para Sofia, ela é apenas Tia Rose. Para Luther, porém, ela se torna uma distração perigosa. Quanto mais tempo permanece naquela casa, mais Rose percebe que há algo profundamente errado naquele homem. Na forma como ele observa. No controle que exerce sobre todos ao redor. Na raiva fria escondida sob sua aparente calma. E ainda assim, a atração entre os dois cresce de maneira inevitável. Mas enquanto tenta sobreviver aos próprios sentimentos e aos segredos daquela mansão, Rose recebe uma notícia capaz de destruir tudo: Seu marido pode acordar. Agora, o passado que ela tentou enterrar está voltando. E talvez ela tenha fugido de um pesadelo apenas para cair em outro ainda pior.
Leer másMeu marido tentou me destruir. Mas fui eu quem decidiu DESTRUÍ-LO primeiro.
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O tapa veio tão forte que meu corpo foi lançado contra as cadeiras de madeira.
Por um segundo, tudo girou.
Minha bochecha queimava. O gosto de sangue invadiu minha boca.
Mas a dor já não era novidade.
Não depois de todos aqueles anos apanhando.— Você é um cretino, George — cuspi, encarando-o.
Ele avançou, segurando meu queixo com força, me obrigando a levantar o rosto.
— Você pertence a mim, Susan. A mim. Tá ouvindo?
Meu coração batia rápido.
Mas não de medo.
Não mais.
— Eu nunca fui sua — sustentei o olhar — e nunca vou ser.
Cuspi na cara dele.
— Vagabunda — ele me deu outro bofetão.
— Você vai arder no inferno, George.
— Vou arder, é? Se eu for, Susan… te levo comigo.
Como se nada tivesse acontecido, ele voltou para a mesa.
O prato já estava remexido. Ele tinha comido bastante.
Observei o jeito como mastigava a carne, a gordura sujando os cantos da boca.
Tudo nele era asqueroso.
Quinze anos.
Quinze anos aguentando aquilo em silêncio.
Que mulher suportaria?
Que mulher não faria o que eu fiz?
Oh, Deus… espero que me perdoe.
Acuada no canto, como um animal, esperei.
George comia.
Comia.
E nada acontecia.
Até que, de repente, seus movimentos desaceleraram.
A gola da camisa pareceu apertar. Ele começou a suar.
Mas não estava calor.
O silêncio que veio depois foi pesado.
George fechou os olhos, respirando fundo, como um animal tentando se controlar antes de atacar.
— Você… fez alguma coisa, Susan? — a voz saiu rouca.
— Eu? — fingi confusão. — Do que você está falando?
Ele jogou o prato longe. A louça se espatifou no chão.
Eu dei um grito.
— Você vai se arrepender disso…
Ao se levantar, derrubou o restante da mesa.
Se apoiou na toalha para não cair.
Meu coração acelerou.
Finalmente.
Aos poucos, algo crescia dentro de mim.
Meu marido violento… estava tendo o que merecia.
Me levantei.
Ainda doía. Por fora… e por dentro.
Anos de violência não desaparecem de repente.
— Vou? — sorri, sentindo algo sombrio tomar conta de mim — tem certeza?
Ele franziu a testa, confuso.
— O que… o que está acontecendo?
Inclinei levemente a cabeça.
— Não sei… o que será?
As lágrimas ainda escorriam pelo meu rosto.
Eu não queria ser aquilo.
Mas foi ele quem me transformou.
E, naquele momento… eu não sentia culpa.
— Eu… tô ficando fraco… — ele tentou se aproximar.
Dei um passo para trás.
— Fraco? — murmurei — você parecia tão forte até agora…
Os olhos dele se arregalaram.
— O que você colocou na comida?
Eu ri baixo.
— Eu?
Olhei para a mesa destruída.
Depois, para ele.
— Talvez eu tenha exagerado no tempero… meu amor.
Ele levou a mão à garganta, desesperado.
Agora parecia um peixe fora d’água.
Fraco.
Patético.
— Sua… va… ga…
— Eu o quê? — levei a mão ao ouvido — fala direito, George.
— Su… Susan… você… não vai… sair impune…
— Tá difícil falar, né? — sussurrei, me aproximando — meu doce marido.
Qualquer pessoa desejaria ver seu algoz cair.
E ele caiu.
Aquele homem enorme… agora estava no chão.
Indefeso.
Ofegando.
Apagando.
Ajoelhei ao lado dele.
— Eu não vou te matar, George.
Me inclinei até seu ouvido.
— Quero que você viva o suficiente para sofrer.
Os olhos dele estavam quase se fechando.
Perfeito.
Exatamente como eu queria.
— Mas se você morrer… espero que o diabo frite sua cabeça em óleo quente.
Então desabei em lágrimas.
Mas não havia tempo para culpa.
Eu precisava fugir.
A qualquer momento, algum capanga dele apareceria.
E então… eu estaria morta.
Me levantei sem olhar para trás.
Corri até o quarto.
A mala já estava pronta — documentos falsos, dinheiro, uma nova identidade.
Eu tinha planejado tudo.
Cada detalhe.
Eu não seria mais Susan.
A partir de agora… eu era Rose.
Um novo nome.
Uma nova vida.
Um novo destino.
Já tinha até conseguido um emprego do outro lado do país.
Babá da filha de um homem muito rico.
Sem violência.
Sem medo.
Sem George.
Saí pelos fundos.
Cada segundo contava.
Eu só precisava alcançar a estrada.
O motorista já devia estar me esperando.
— Chefe… — ouvi gritos vindos da casa — o que fizeram com ele?!
Meu corpo inteiro gelou.
Apertei o passo.
— Ei! — alguém gritou — Susan! Foi você?!
Comecei a correr.
Meu pulmão queimava.
“Corra, filha… apenas corra…”
A voz da minha mãe ecoou na minha mente.
“Eles vão me pegar…” pensei, desesperada.
“Não vão. Deus está com você.”
Aquilo me deu força.
Corri.
Atravessei o mato, os arbustos.
Ouvi passos atrás de mim.
Homens.
E então…
Os latidos. Eram cãe. George tinha muitos cãe.
Meu coração quase parou ao ouvir o som se aproximar.
— Volta, Susan! — gritaram — a gente vai te pegar!
Tropecei em uma cerca caida no chão. Senti um corte arder no tornozelo.
Mas levantei e contineui rumo ao asfalto.
Eu não ia parar.
Mesmo que morresse…
ia ser tentando.
Os latidos dos cães ficavam cada vez mais próximos. Mais ferozes.
Eu já previa eles me apanhando e eu sendo morta.
Parecia que a estrada nunca chegaria, que a Luz do poste se distanciava ao inves de se aproximar.
Até que, de repente, meus pés tocaram o asfalto. A floersta ficou para trás.
Eu tinha chegado.
Olhei rapidamente para o lado e vi o carro, parado com o pisca-alerta ligado.
— Aqui! — gritei, acenando desesperada — por favor!
Eles estavam muito perto de me alcançar.
Perto demais.
Corri o mais rápido que consegui em direção ao veículo.
Um dos cães avançou e quase alcançou minha perna. Soltei um grito, mas não parei.
Não podia parar.
O carro deu ré e freou bruscamente ao meu lado. O pneu cantou e soltou fumaça.
Abri a porta com dificuldade e praticamente me joguei para dentro.
— Merda — o motorista reclamou — você não disse que era uma fuga!
— Por favor — implorei, ofegante — só dirige! Pra bem longe. VAI!!!
Os homens já estavam quase alcançando o carro.
O motorista hesitou.
Por um segundo. Ele processava os desfechos. E meu destino estava nas mãos dele.
Um único segundo que pareceu uma eternidade.
Então me puxou com força, fechou a porta do carro e arrancou em alta velocidade.
Um dos capangas de George bateu no vidro. Outro apontou a arma.
Os disparos ecoaram dorte. Iiluminou o carro. Mas nenhum atingiu o veículo.
Olhei para trás, com o coração disparado, e vi os homens e os cães ficando cada vez mais distantes.
Apesar de ainda correrem, não nos alcancariam mais.
Foram ficando pequenos, pequebnos… Até desaparecerem.
Eu consegui.
— Meu Deus, obrigada… Obrigada, Meu Deus!!! – chorava.
Um alívio quase doloroso invadiu meu peito.
Eu estava livre.
Livre da violência.
Livre do meu marido abusador.
Fechei os olhos por um instante e respirei fundo, tentando acalmar o corpo ainda tremendo.
A partir de agora… eu seria outra pessoa.
Mas, no fundo…
eu sabia.
Sairia daquela vida para ser babá de uma linda menininha. Sentia que seria um novo recomeço, ao lado de um serzinho que precisaria de mim.
Mas eu não deveria contar vantagem antes da hora.
Homens como George não morrem tão fácil.
E, mesmo quando morrem…
sempre dão um jeito de voltar.
George não deixaria barato. Disso eu deveria estar certa.
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NOTA DA AUTORA: Só quem já sofreu um relacionamento abusivo sabe a dor da Susan. O que acham?
De repente, George voltou na minha mente.Como um soco no estômago, daqueles que fazem você perder o ar.Eu já esperava George me dando um murro bem daqueles.E me arrastando para fora daquela linda mansão. Pelos cabelos.George estava ali, não estava? Escondido atrás de algum móvel, pronto para aparecer e acabar com tudo.Meu corpo ficou em estado de alerta.Senhor Luther tinha percebido meu olhar ao redor, preocupada.Claro que tinha.Virei-me lentamente, tentando parecer normal, mas meus olhos ainda percorriam o ambiente, inquietos.— Não foi bem uma mentira… — respondeu ele sobre o ter mentido no anúncio.— Como não? — meu tom se elevou um pouco — lá estava escrito: CASAL.— Deixa eu te explicar — a calma do senhor Luther me irritou.— Explique-se. Ou eu vou embora.O olhar dele como de alguém controlado olhando para uma maluca.Mas dane-se o que aquele cara rico e prepotente pensaria.Eu não seria enganada. Não mesmo.— Quando fiz o anúncio, a gerente da plataforma colocou errado
Merda, merda, merda.Tinha que ser aquela coincidência terrível?O mesmo cara do dia anterior?Eu queria era sair correndo dali. Mas não podia.O que faria sem aquele emprego?Era coincidência demais aquele homem ser o mesmo do dia anterior. Luther… esse era o nome dele, não era? Meu coração disparou com a possibilidade mais absurda de todas.E se ele fosse ligado ao George?E se, a qualquer momento, meu ex-marido surgisse atrás dele, sorrindo daquele jeito doentio?Fiquei parada, travada, encarando o homem alto e imponente à minha frente.— Está tudo bem com você? — ele perguntou, observando cada detalhe meu.— É… está.— Veio por causa do carro?— N-não… eu vim… — engoli em seco — vim para a entrevista.Os olhos dele permaneceram fixos em mim, atentos demais, como se estivessem tentando me desmontar camada por camada.Me controlei para não olhar por cima do ombro dele, procurando alguém escondido.— Ah, claro… — ele abriu espaço — entre, senhorita Rose. Que coincidência…Mas meu c
— Senhorita Rose, está presa por falsidade ideológica!O policial me algemava. Eu chorava, aterroizada.Quando olhei para o homem, eu reconheci o bigode loiro acima dos labios.O sorriso amarelo, de tirundo.— George??????? — Ah, achou que ia mesmo conseguir fugir de mim?— Não, não, não — eu arregalei os olhos — Não.NÃOOOOOOOO.Então escutei o barulho da campainha do quarto.Abri os olhos e me dei conta de que era um pesadelo apenas. Estava no motel.— Ei, senhorita. Está tudo bem? — perguntou uma voz de homem.— Sim — gritei de volta — apenas estava… estava… cantando.Demorou a responder.— Ok. Se eprecisar de algo.— Obrigada. Tá tudo bem.Ouvi os passos se afastarem e me sentei na cama.Havia sido apenas um pesadelo, mas nada que não pudesse se tornar real.George não estava morto.Não estava preso.E eu não podia cometer erros.— Por que eu não terminei o serviço… — murmurei para mim mesma.Passei o restante da noite organizando minhas coisas e ensaiando mentalmente a entrevist
Uma semana depois de envenenar meu marido… eu ainda estava fugindo.Agora precisava apenas fingir ser Rose, minha nova identidade.E era com essa identidade que assumiria a vaga de babá de uma menininha chamada Sofia.No anúncio que vi na internet, dizia apenas que era a família de um empresário muito rico.Não dizia que ramo empresarial. Nem havia foto do casal.Ou seja, não fazia ideia de como eram.Mas isso pouco importava. O salário era bom. Bem acima da média para uma babá sem experiência como eu.Um sorriso invadiu meu rosto. Parecia que tudo ia funcionar.Contudo, por um momento, meu coração gelou. Os documentos falsos.Desacelerei o carro no meio da rodovia. A luz laranja do entardecer se estabilizou no horizonte.Abri o porta-luvas e dei uma vasculhada.A pastinha estava lá. Meu RG falso com a foto virada para mim.— Graças a Deus… — murmurei, sentindo um pequeno alívio.Ia dar certo. Tinha que dar. George era passado. Apesar de não ter morrido, eu soube que estava em coma, e





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