Mundo ficciónIniciar sesiónSusan envenenou o próprio marido para fugir de anos de abuso. Ela só não esperava que ele sobrevivesse. Enquanto o homem permanece em coma em um hospital distante, Susan apaga a própria identidade e se transforma em Rose — uma mulher sem passado, sem sobrenome e sem ninguém que possa reconhecê-la. Escondida no sul do país, ela consegue emprego como babá da pequena Sofia, filha de Luther, um homem rico, fechado e cercado por rumores. Desde a morte misteriosa da esposa, ele vive isolado em uma mansão silenciosa, onde os empregados falam baixo demais e certas portas parecem esconder mais do que simples lembranças. Para Sofia, ela é apenas Tia Rose. Para Luther, porém, ela se torna uma distração perigosa. Quanto mais tempo permanece naquela casa, mais Rose percebe que há algo profundamente errado naquele homem. Na forma como ele observa. No controle que exerce sobre todos ao redor. Na raiva fria escondida sob sua aparente calma. E ainda assim, a atração entre os dois cresce de maneira inevitável. Mas enquanto tenta sobreviver aos próprios sentimentos e aos segredos daquela mansão, Rose recebe uma notícia capaz de destruir tudo: Seu marido pode acordar. Agora, o passado que ela tentou enterrar está voltando. E talvez ela tenha fugido de um pesadelo apenas para cair em outro ainda pior.
Leer másPROLOGO
Meu marido tentou me destruir. Mas fui eu quem decidiu destruí-lo primeiro. ****** O tapa veio forte. Fui arremessada contra as cadeiras de madeira. Por um segundo, tudo girou. Minha bochecha queimava. O gosto de sangue na boca. Mas a dor já não era novidade. Não depois de tantos anos apanhando. — Você não sente culpa, George? Ele avançou calmamente.z Inclinou-se e pegou meu queixo. Eu o encarava. — Você pertence a mim, Susan. A mim. Está ouvindo? Meu coração disparado. Mas não de medo. Não mais. Por que eu sabia o que estava por vir. Só não contava que demoraria tanto. — Eu nunca fui sua — sustentei seu olhar. — E nunca vou ser. Cuspi em sua cara. — Vagabunda! Senti a palma da mão dele no meu rosto de novo. — Você vai arder no inferno, George. — Vou arder? Se eu for, Susan… levo você comigo. Como se nada tivesse acontecido, ele voltou para a mesa. O prato já estava quase vazio. Observei enquanto mastigava a carne, a gordura escorrendo pelos cantos da boca. Tudo nele me causava nojo. Quinze anos. Quinze anos suportando aquilo. Que mulher não faria o que eu fiz? Meu Deus… espero que me perdoe. Me perdoe pelo que vai acontecer. * Acuada em um canto, esperei. George continuou comendo. Uma garfada. Outra. E mais uma. Por um instante, achei que nada aconteceria. Então ele afrouxou o colarinho. Passou a mão pelo pescoço. Franziu a testa. O garfo caiu de seus dedos. George respirou fundo. Depois outra vez. E outra. Como se o ar tivesse ficado pesado demais. Pequenas gotas de suor surgiram em sua testa. O silêncio que tomou conta da sala foi sufocante. — Você… fez alguma coisa, Susan? — perguntou, rouco. — Eu? — fingi surpresa. — Do que está falando? Ele tentou se levantar. Cambaleou. A cadeira tombou para trás. Então arremessou o prato contra a parede. A louça explodiu em pedaços. — A comida… — ele arregalou os olhos. Meu Deus, ele descobriu! — O que tem… a comida? — me encolhi. Antes de responder, ele tentou avançar. — Você vai se arrepender disso… Ao dar um passo, suas pernas falharam. George se agarrou à mesa para não cair. — George? Meu coração acelerou. Esperançoso. — Você colocou algo… Na… Na… Finalmente. Meu marido violento estava recebendo o que merecia. Levantei-me devagar. Mais corajosa agora. — Vou me arrepender? — sorri. — Tem certeza? Ele piscou várias vezes, tentando focar em mim. Parecia confuso. Desorientado. — O que… está acontecendo? Inclinei a cabeça. — Não sei. O que será, George? As lágrimas continuavam escorrendo pelo meu rosto. Eu nunca quis me tornar aquela pessoa. Mas foi meu marido quem me empurrou até ali. — Eu… estou ficando fraco… Me ajuda, Susan. George tentou caminhar até mim. Dei um passo para trás. — Fraco? Que estranho. Você parecia tão forte há alguns minutos. Os olhos dele se arregalaram. Finalmente entendeu. — Foi veneno, não foi? Soltei uma risada baixa. — Será? Olhei para a mesa destruída. Depois para ele. — Talvez eu tenha exagerado no tempero, meu amor. Ele levou a mão à garganta. Tentava respirar. Tentava falar. — Sua… va… — Eu o quê? George cambaleou mais uma vez. Então caiu de joelhos. — Susan… você não vai sair impune… — Está difícil falar, não é? Aproximei-me lentamente. — Meu doce marido. Qualquer pessoa desejaria ver seu algoz cair. E ele caiu. Aquele homem enorme agora estava no chão. Indefeso. Ofegante. Apagando aos poucos. Ajoelhei-me ao seu lado. — Eu não quero que você morra rápido, George. Aproximei minha boca de seu ouvido. — Quero que sofra. Os olhos dele já estavam quase se fechando. Perfeito. Exatamente como eu havia planejado. — Mas, se morrer… espero que o diabo frite sua cabeça em óleo quente. Após o calor do momento, do sabor da vingança. Então desabei em lágrimas. Mas não havia tempo para culpa. Eu precisava fugir. **** Corri para o quarto. A mala já estava pronta. Documentos falsos. Dinheiro. Uma nova identidade. Eu havia planejado tudo. Cada detalhe. Eu não seria mais Susan. A partir daquele momento, eu era Rose. Um novo nome. Uma nova vida. Um novo destino. Já tinha até conseguido emprego do outro lado do país. Babá da filha de um homem rico. Sem violência. Sem medo. Sem George. Saí pelos fundos da casa. Precisava chegar à estrada. Só isso. Mais alguns minutos e estaria livre. Então ouvi os gritos. — Chefe! — Meu Deus! — O que aconteceu com ele? Meu corpo gelou. Acelerei o passo. — Susan! Parei de andar. Comecei a correr. — Foi ela! O pânico explodiu dentro de mim. Meu pulmão queimava. “Corra, filha. Apenas corra.” A voz da minha mãe ecoou em minha memória. Atravessei o mato. Galhos arranhavam meus braços. Espinhos prendiam minhas roupas. Atrás de mim, ouvi homens correndo. Depois vieram os latidos. Meu sangue congelou. Os cães. George tinha muitos cães. — Volta, Susan! — gritaram. — Nós vamos pegar você! Tropecei em uma cerca caída. Um corte abriu meu tornozelo. A dor foi aguda. Mas continuei correndo. Mesmo que morresse… Morreria tentando. Os latidos estavam cada vez mais próximos. Perto demais. Eu já conseguia ouvir a respiração dos animais. Então avistei a estrada. A luz de um poste brilhou entre as árvores. Mais alguns metros. Só mais alguns. Quando meus pés tocaram o asfalto, quase chorei de alívio. Olhei para os lados. Lá estava o carro. Pisca-alerta ligado. Esperando por mim. — Aqui! — gritei. — Por favor! Corri em direção ao veículo. Um dos cães avançou. Suas presas passaram tão perto da minha perna que senti o vento do ataque. Mas não parei. Não podia. O carro deu ré e freou ao meu lado. Abri a porta e praticamente me joguei para dentro. — Merda! — o motorista resmungou. — Você não disse que era uma fuga! — Só dirige! — implorei. — Pelo amor de Deus, dirige! Os homens já estavam chegando. O motorista hesitou. Um segundo. Apenas um segundo. Mas pareceu uma eternidade. Então ele fechou a porta e acelerou. O carro arrancou. Um dos capangas bateu no vidro. Outro ergueu uma arma. Os disparos ecoaram na noite. Clarões iluminaram a estrada. Mas nenhum tiro nos atingiu. Olhei para trás. Os homens ficaram para trás. Os cães também. Cada vez menores. Até desaparecerem na escuridão. Eu consegui. — Meu Deus… obrigada. Obrigada! O alívio foi tão intenso que chegou a doer. Eu estava livre. Livre da violência. Livre do meu marido abusador. Fechei os olhos por um instante e respirei fundo. A partir dali, eu seria outra pessoa. Uma babá. Uma mulher comum. Alguém capaz de recomeçar. Mas, no fundo, eu sabia. Homens como George não morrem facilmente. O pesadelo não tinha terminado. Estava apenas começando ----------------------------------- NOTA DA AUTORA: Só quem já sofreu um relacionamento abusivo sabe a dor da Susan. O que acham?POV ROSEEu suspirei. Meu corpo congelou. E nem fazia frio.“Susan.”Eu escutava a voz do senhor Luther se repetindo.Não ouvia meu nome verdadeiro havia meses.— Não vai dizer nada? — ele quebrou o silêncio.Eu estava de costas.Vagarosamente, me virei.Não conseguia encará-lo.— O que quer que eu diga?— A verdade. Apenas isso.Eu não trabalhava mais para o senhor Luther.Mas, dentro da minha mente, eu ainda estava errada.Como se devesse satisfações.— Acho que isso não importa mais, senhor Luther.Segurei o choro.— Importa. — Ele se aproximou. — Eu quero saber quem você é.— Pra quê? — elevei o tom.— Bem… — o senhor Luther espremeu os lábios. Ia dizer alguma coisa, mas pareceu desistir. — Sofia…— O que tem a menina?— Ela gosta de você. Então preciso saber quem você é.Ele não ia dizer só isso.Mas acho que foi a melhor resposta que encontrou.— Como se você se importasse com ela.— Claro que me importo com a minha filha.— Ah, senhor Luther… Conta outra.— Não estamos aqui dis
POV ROSEAo perceber que não poderia medir forças, me mantive em silêncio.Braços cruzados. Rosto virado para a janela.O silêncio era incômodo.Não para mim, mas para o senhor Luther.Ele se ajeitava no banco. Limpava a garganta.— Tá tudo bem?Não respondi. Bocejei de maneira forçada.— Estou falando com você, senhorita Rose.Eu me encolhi ainda mais.Fechei os olhos e encostei a testa no vidro da janela.— Tá bem, tá bem. Pode ficar em silêncio. — Ele fungou e continuou dirigindo.O senhor Luther podia controlar todo mundo.Mas meus pensamentos e minhas vontades eram meus.E eu não estava com vontade nenhuma de participar daquele circo.⸻POV SENHOR LUTHERMerda. Exagerei. Não devia tê-la forçado.Esses pensamentos iam e vinham na minha mente.Aos poucos, percebia o quanto tinha me equivocado.Mas já era tarde.Ela estava ali, no banco do carona.Olhei de relance.Braços cruzados. Encolhida.Parecia dormir com a testa encostada no vidro.Aumentei a temperatura do carro ao perceber
POV ROSENão era possível que aquele homem viesse tirar minha paz.Respirei fundo.Apesar de querer dar um chute no senhor Luther, eu precisava tratá-lo bem.Luis, meu chefe, o considerava muito.Espremi os lábios e soltei um suspiro.— Vai querer o quê?Ele deu uma risadinha.— Qual é a graça? — não me contive.— Nenhuma. Quero dizer… o seu jeito.— Estou trabalhando. Vai pedir alguma coisa ou não?Seus olhos continuaram fixos em mim.— Eu só queria trocar uma palavra com você.— Nós não temos absolutamente nada para conversar.Limpei a garganta e continuei:— Cerveja? Uísque? O que vai ser?Minha caneta pairava impaciente sobre o bloquinho de anotações.— Acho que aqui não vamos conseguir conversar.— Eu já disse que não quero conversar com você.Ele sustentou meu olhar por alguns segundos.— Então vou precisar encontrar outro jeito.O senhor Luther avançou rápido demais.Não tive tempo de reagir.Quando dei por mim, ele já havia me agarrado pela cintura.Como se eu não pesasse nada
POV ROSEDuas semanas depoisMergulhei no trabalho para tentar não pensar.Sofia estava sendo cuidada por uma mulher má.E eu… não podia fazer nada.Luther não me ouviu.— Imbecil… — murmurei, entrando na cozinha.Parei na porta.— Uma porção de fritas e dois drinks.— É pra já.— Obrigada.Assim que dei as costas, o cozinheiro me chamou.— Rose, espera.Virei-me.— O que foi, Castro?— Nada demais. É que uma moça veio te procurar.Franzi a testa.— Quem?Ele deu de ombros.— Nunca vi. Mas deixou um número de telefone.— Número?— Uhum. Toma.Peguei o papel. Havia apenas um número escrito à caneta.Antes que eu pudesse perguntar mais alguma coisa, Luís apareceu.— Rose, tem várias mesas esperando.— Ah, desculpa. — Guardei o papel no bolso. — Já tô indo.Agradeci ao Castro e fui atender os clientes.Quem era aquela mulher?E o que ela queria?⸻POV LUTHEREu estava vendo Sofia cada vez menos.O trabalho me consumia.Ou talvez eu estivesse usando o trabalho para evitar encarar o que se





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