Mundo de ficçãoIniciar sessãoJulyan Fort
O silêncio do meu escritório no 40º andar era a única coisa que mantinha a minha sanidade intacta. Eram onze da noite. Chicago, lá fora, era um emaranhado de luzes douradas e movimento frenético, mas aqui dentro, tudo era cinza, aço e controle. Pelo menos, deveria ser. Abri a gaveta lateral da minha mesa de carvalho e retirei uma pasta de couro preta. Não continha relatórios da Miller Corp, nem estratégias de aquisição. Dentro, havia uma única fotografia, tirada de longe, em um evento de caridade há seis meses. Nela, Kyara Miller sorria para alguém fora do quadro, o vestido de seda vermelha moldando curvas que me perseguiam em cada sonho que eu tentava, inutilmente, suprimir. Passei o polegar sobre o papel fotográfico. Um gesto perigoso. Um gesto que, se André Miller visse, seria o meu fim. André não era apenas meu mentor; ele era o homem que me tirou da obscuridade de uma firma de contabilidade de quinta categoria e me deu as chaves do reino. Eu lhe devia lealdade absoluta. Eu era o cão de guarda, o executor, o braço direito. E cães de guarda não cobiçam a filha do dono. — Você é um idiota, Fort — sussurrei para as paredes vazias. Fechei a pasta com violência e a joguei de volta na gaveta, trancando-a. A interação de hoje na sala de reuniões tinha sido um erro. Eu a provoquei porque era a única forma de não devorá-la com os olhos. Quando ela me desafiou sobre a cláusula de saída, senti uma onda de orgulho misturada com um desejo avassalador de silenciá-la com um beijo até que ela esquecesse como se fala. Kyara não era mais a menina que eu conheci anos atrás; ela era uma mulher que exalava fogo, e eu estava congelado há tempo demais. Levantei-me e caminhei até o bar de canto, servindo-me de um uísque puro. O líquido queimou minha garganta, mas não apagou a imagem dela de saia de couro, desafiando a minha autoridade. Amanhã. Rosewood. Eu mesmo tinha organizado a logística. Eu sabia que a cidade estava lotada por causa do festival de colheita. Eu sabia que as reservas eram escassas. O que André não sabia — e o que Kyara jamais poderia suspeitar — era que eu não movi um dedo para conseguir quartos separados quando o hotel ligou avisando sobre o erro no sistema. Poderia ter ligado para outro hotel a cinquenta quilômetros de distância. Poderia ter exigido que alguém fosse despejado. Mas não o fiz. Uma parte sombria de mim, a parte que eu tentava enterrar sob ternos de três mil dólares, queria Kyara por perto. Queria ouvi-la respirar através da parede. Queria testar meu próprio limite até que ele se partisse. Meu celular vibrou sobre a mesa. Uma mensagem de André. “Cuide da minha filha, Julyan. Ela é impulsiva. Não deixe que ela atrapalhe os negócios com os proprietários da vinícola.” O peso da culpa foi momentâneo, logo substituído por uma possessividade sombria. Cuidar dela. André não fazia ideia de que o perigo para Kyara não eram os negócios, ou os espanhóis, ou a estrada. O perigo era eu. Fui para casa, um loft minimalista que parecia mais uma galeria de arte do que um lar. Não dormi. Passei a noite revisando os contratos de Rosewood, mas as letras se transformavam na imagem dos lábios dela. Às cinco da manhã, eu já estava no banho, a água fria fazendo pouco para acalmar a tensão nos meus músculos. Vesti um terno cinza-chumbo, dispensei a gravata — Rosewood exigia um ar levemente mais casual, embora eu me sentisse despido sem ela — e desci para o SUV preto que já me aguardava. — Para a cobertura da Srta. Miller, Marcus — ordenei ao motorista. O trajeto foi curto. Chicago estava despertando sob uma névoa fina. Quando paramos em frente ao prédio de luxo de Kyara, eu a vi. Ela estava parada na calçada, cercada por três malas de grife, um copo de café na mão e um casaco de lã jogado sobre os ombros. Ela parecia irritantemente linda naquela luz matinal, com o cabelo preso em um rabo de cavalo alto que expunha o pescoço longo e pálido. Desci do carro. Marcus se apressou para pegar as malas, mas eu fiz um sinal para que ele ficasse no banco do motorista. Eu mesmo queria carregar as coisas dela. Queria sentir o peso da vida dela nas minhas mãos. — Dez minutos adiantada — eu disse, parando diante dela. — O mundo vai acabar hoje? Kyara tirou os óculos escuros, revelando olhos que mostravam que ela também não tinha dormido bem. Aquilo me deu uma satisfação doentia. — Eu não queria te dar o prazer de me dar um sermão sobre pontualidade antes das sete da manhã, Julyan — ela retrucou, a voz ainda rouca de sono. Peguei a mala maior. Nossas mãos se roçaram por um segundo. Foi como um choque elétrico que percorreu meu braço, atingindo direto o peito. Ela desviou o olhar rapidamente, mas não antes de eu notar a pequena hesitação na sua respiração. — Entre no carro — eu disse, minha voz saindo mais dura do que eu pretendia. — Temos seis horas de estrada. — Seis horas de silêncio absoluto ou você vai tentar me ensinar microeconomia no caminho? — ela perguntou, entrando no banco de trás. Eu fechei a porta e dei a volta, sentando-me ao lado dela em vez de ir na frente com o motorista. O espaço no banco de trás do Suburban era vasto, mas com ela ali, parecia uma cela claustrofóbica. — Eu planejava trabalhar — respondi, abrindo meu laptop como uma barreira física entre nós. — Claro que planejava. Você é uma máquina, não é? O "Ciborgue da Miller Corp". Eu não respondi. Apenas foquei na planilha à minha frente, embora não conseguisse processar um único número. O perfume dela — algo que lembrava baunilha e perigo — inundou o veículo. Pelos próximos trezentos quilômetros, eu teria que ser o profissional que André confiava. Eu teria que ser o homem que não sente nada. Mas, enquanto o carro ganhava a estrada e Chicago ficava para trás, eu sabia que a redoma de vidro estava prestes a estilhaçar. E quando estilhaçasse, eu não seria o herói da história. Eu seria o homem que levaria a herdeira Miller direto para o inferno. E ela iria de boa vontade.






