Mundo de ficçãoIniciar sessãoKyara Miller
O almoço com os Bianchi estava sendo uma aula de etiqueta e falsidade. Julyan cortava o seu bife com uma precisão cirúrgica, enquanto discutia as projeções de exportação para o mercado asiático. Ele era perfeito. Tão perfeito que me dava vontade de atirar minha taça de cristal contra a parede apenas para ver se ele desviaria o olhar dos gráficos.
— A Miller Corp. não quer apenas comprar a terra, Sr. Bianchi — Julyan disse, inclinando-se com aquele charme predatório que ele reservava para os negócios. — Queremos comprar a história. E a Srta. Miller, como futura líder da nossa fundação, garantirá que cada centímetro dessa vinícola permaneça fiel às suas raízes.
A Sra. Bianchi sorriu para mim, seus olhos brilhando com uma bondade que me fez sentir como a pior mentirosa do mundo.
— É reconfortante ouvir isso, querido. Hoje em dia, os jovens só se importam com o lucro. Mas Kyara tem os olhos da mãe dela... ela entende o valor do que é eterno.
Sorri, embora o termo "eterno" me fizesse querer rir histericamente. Nada em Rosewood era eterno. A nossa estadia aqui tinha prazo de validade, e o beijo de ontem à noite era uma sentença de morte esperando para ser assinada.
— Obrigada, Sra. Bianchi — respondi, minha voz saindo suave. — Meu pai sempre disse que um império sem alma é apenas um monte de tijolos.
Justo quando o Sr. Bianchi ia começar a discutir o preço por hectare, o sino da porta do restaurante do hotel tocou. Era um som comum, mas algo na atmosfera mudou. Um ar frio pareceu invadir a sala, e não vinha da tempestade que ainda garoava lá fora.
Vi a mandíbula de Julyan travar. Ele olhou para a entrada e, por um breve segundo, a máscara de confiança vacilou.
— Ora, ora... Se não é o círculo íntimo da Miller Corp. em peso em Rosewood.
Meu sangue gelou. Eu reconheceria aquela voz arrastada e cheia de arrogância em qualquer lugar. Virei-me lentamente e dei de cara com Victor Vane.
Victor era o filho do maior acionista minoritário da empresa e, infelizmente, o homem que meu pai tentava empurrar para a minha vida há dois anos. Ele era o oposto de Julyan: herdeiro de berço, mimado, perigoso de um jeito descuidado e, acima de tudo, um espião nato para os interesses da própria família.
— Victor? — Minha voz soou aguda. — O que você está fazendo aqui?
— Seu pai mencionou que vocês estavam tendo dificuldades com a burocracia local — Victor disse, caminhando até a nossa mesa com a mão no bolso do sobretudo de grife. Ele ignorou os Bianchi e fixou os olhos em Julyan. — André me pediu para vir dar um suporte. Sabe como é, Julyan... às vezes um sobrenome com peso de sangue ajuda mais do que um contrato bem redigido.
O insulto à origem de Julyan foi direto. Julyan se levantou, sua altura superando a de Victor, a aura de ameaça agora totalmente visível.
— A negociação está sob controle, Vane. Sua presença é desnecessária e, francamente, uma interrupção.
— André não achou isso — Victor sorriu, um sorriso que não chegava aos olhos. Ele se virou para mim e depositou um beijo possessivo na minha mão. — Kyara, querida, você parece... exausta. A estrada deve ter sido difícil. Ou talvez as acomodações? Soube que o hotel teve problemas.
Meu coração disparou. Ele sabia. Ou estava pescando.
— Estamos acomodados perfeitamente bem, Victor — respondi, puxando minha mão de volta. — Mas como você disse, estamos no meio de uma reunião. Se puder nos dar licença...
— Oh, os Bianchi! — Victor fingiu notar o casal de idosos agora. — Meus pais falam maravilhas do seu Merlot. Por que não nos juntamos todos para o jantar? Meu pai adoraria saber que eu ajudei a fechar este negócio.
Os Bianchi, sempre polidos, assentiram com sorrisos amarelos. Julyan não disse nada, mas a pressão que ele exercia sobre a caneta em sua mão era tamanha que eu esperava que o plástico estourasse a qualquer momento.
Julyan Fort
Eu queria quebrar o pescoço de Victor Vane.
Não apenas pela insolência de interromper o meu fechamento de contrato, mas pelo modo como ele olhava para Kyara. Como se ela fosse um prêmio que ele já tinha conquistado. Mas o pior de tudo era a incerteza: André realmente o enviara ou Victor estava agindo por conta própria para nos vigiar?
Se André enviou Victor, significa que ele não confia em mim. Ou pior: que ele desconfia do que está acontecendo entre mim e a filha dele.
O resto do almoço foi um exercício de tortura. Victor dominou a conversa, contando anedotas fúteis sobre festas em iates, enquanto eu tentava manter o foco nos termos técnicos. Kyara estava pálida, e eu podia ver o tremor sutil em suas mãos.
Assim que os Bianchi se retiraram, prometendo voltar para o jantar, Victor se aproximou de nós no saguão.
— Então, onde estão as chaves? — ele perguntou à recepcionista. — Quero o quarto ao lado do da Kyara.
A recepcionista, a mesma que nos atendeu ontem, empalideceu. Ela olhou para mim, implorando por ajuda.
— Sr. Vane, como eu disse ao Sr. Fort ontem, estamos com a ala oeste desativada. Não há quartos disponíveis no hotel. Nem mesmo para... acionistas.
Victor arqueou uma sobrancelha, o olhar alternando entre mim e Kyara.
— Sério? E onde você dormiu, Julyan? No sofá do saguão? Porque eu duvido que a herdeira Miller dividiria os lençóis com o empregado do pai.
O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor. Kyara abriu a boca para protestar, mas eu dei um passo à frente, invadindo o espaço pessoal de Victor. Eu era maior, mais forte e estava no meu limite.
— Eu dormi no escritório da suíte, cuidando dos interesses da empresa que você só sabe gastar, Victor — sibilei. — E se você tiver algum problema com a logística da Miller Corp, sugiro que ligue para o André agora. Mas até lá, você vai encontrar um motel de beira de estrada ou dormir no seu carro. Porque neste hotel, você não entra.
Victor recuou um passo, a surpresa cruzando seu rosto. Ele não estava acostumado a ser confrontado de forma tão bruta.
— Você está muito tenso, Fort. Cuidado. Quem estica demais a corda acaba se enforcando.
Ele se virou e saiu, mas eu sabia que não era o fim. Ele ficaria por perto. Ele cheiraria o rastro de ontem à noite como um cão de caça.
Virei-me para Kyara. Ela estava encostada em uma pilastra, com a mão no peito.
— Ele vai contar para o meu pai — ela sussurrou. — Se ele descobrir que dividimos o quarto, mesmo que não tenha acontecido nada além daquele beijo... meu pai nunca vai acreditar.
— Então temos que garantir que aconteça algo mais — eu disse, a raiva e o desejo se fundindo em uma mistura tóxica.
Kyara me olhou, confusa.
— O quê?
— Se vamos ser condenados, Kyara, que seja pelo crime completo. Victor vai nos vigiar no jantar. Ele vai tentar nos pegar em um deslize. Precisamos dar a ele uma performance de ódio mútuo tão convincente que ele vai se sentir um idiota por ter desconfiado.
— E depois do jantar? — ela perguntou, sua voz falhando.
— Depois do jantar, vamos trancar aquela porta. E desta vez, eu não vou parar no primeiro beijo. Se o império vai cair, vamos garantir que a queda valha a pena.
Caminhei em direção ao elevador, deixando-a ali. Eu sabia que estava jogando tudo fora. Minha carreira, minha lealdade a André, meu futuro. Mas, ao ver o medo nos olhos de Kyara e a arrogância de Victor, percebi que eu preferia ser um traidor ao lado dela do que um santo sozinho no topo da Miller Corp.
O jogo tinha mudado. Rosewood não era mais uma viagem de negócios. Era uma guerra. E eu estava disposto a queimar todas as pontes para vencer.







