Mundo ficciónIniciar sesiónDominic
O meu escritório no piso superior da mansão cheirava a madeira antiga, papel e à raiva contida que fazia o meu sangue ferver. Eu andava de um lado para o outro diante do fogo da lareira, a passos largos e pesados, tentando em vão abafar o eco do cheiro de lavanda silvestre que parecia impregnado na minha pele, na minha roupa e no meu cérebro. A porta do escritório foi aberta sem qualquer aviso. Não precisei olhar para saber quem era; a presença imponente da minha mãe preencheu o recinto antes mesmo que o som dos seus passos sobre o tapete nobre ecoasse pelas paredes. — O que você pensa que está fazendo, Dominic? — a voz da Matriarca Eleonora cortou o ar como um chicote de seda. Parei diante da janela alta, encarando a noite escura sobre as terras de Valência, de costas para ela. Pressionei as pontas dos dedos contra a madeira da escrivaninha. — O que precisa ser feito para manter a ordem — respondi, com a voz gélida, sem um pingo de emoção. — Arthur e Helena Davenport vão ser devidamente escoltados para fora da mansão. O banimento entra em vigor imediatamente. — Eles são uns canalhas que mereciam a cadeia — contestou Eleonora, aproximando-se da escrivaninha, a postura ereta e os olhos cinzentos faiscando de indignação. — Mas você sabe perfeitamente que não é sobre os pais que estou falando. Eu vi o estado em que você deixou aquela garota na antissala. Eu ouvi os absurdos que você vomitou sobre ela. São todos mentirosos para você agora, Dominic? Girei sobre os calcanhares, encarando minha mãe com a fúria do meu lobo estampado nos olhos. — Porque SÃO todos mentirosos! — esbravejei, o som da minha voz fazendo os vidros da janela tremerem. — A família toda é uma podridão! Uma corja de manipuladores que tentaram me fazer de bobo na minha própria casa! A mãe, o pai, a filha legítima e a bastarda! Todos eles participaram dessa farsa grotesca de uma forma ou de outra! Eleonora não piscou. Sustentou o meu olhar com a serenidade de quem não se curvava diante de rosnados de Alfa. — Se a família inteira é uma fraude, se todos eles te nojam a esse ponto... — a minha mãe deu um passo à frente, cruzando os braços e encarando-me no fundo da alma —, então por que você ainda vai se casar com a Laura? A pergunta caiu no ambiente como uma lâmina afiada. Travando o travessão da mandíbula, fechei os punhos até que as juntas ficassem brancas. — Por causa do Conselho — declarei com frieza calculada. — Eu não vou permitir que essa história mofada de bastarda e de troca de quartos vaze para os lordes. Não vou comprometer nem enfraquecer a minha imagem ou a soberania do meu nome perante aqueles velhos burocratas por causa do escândalo de uma família de vigaristas. — E como pretende explicar o banimento repentino do patriarca e da matriarca dos Davenport no meio dos preparativos de um casamento? — questionou ela, erguendo uma sobrancelha. — Questões financeiras — ditei com um tom burocrático e cortante. — Se o Conselho me questionar sobre Arthur e Helena, direi que descobri fraudes e desvios de verbas graves que ele vinha cometendo nas empresas do Sul. Isso basta para justificar o afastamento e o banimento de ambos sem levantar suspeitas sobre o noivado. Minha mãe deu um longo e pesado suspiro. Olhou-me de cima a baixo, a mágoa e a decepção desenhadas em cada linha do seu rosto aristocrático. — Você ama a Laura, Dominic? — perguntou ela, a voz baixando para um tom quase doloroso. Soltei uma risada curta, amarga e destituída de qualquer alegria. — Amor? Não existe amor nisso — retruquei, desdenhoso. — Laura fez tudo isso, armou esse circo nojento e usou a própria irmã apenas para conseguir usar uma tiara e ter um casamento com o Alfa Supremo. E ela vai ter exatamente o que tanto desejou. Um casamento do jeito que ela merece: sem amor, sem honra, sem marca. Eleonora arregalou os olhos cinzentos, o choque paralisando a sua expressão impecável por um segundo. — Você... você não vai marcar a sua esposa? — perguntou ela, pasma. — Nunca — decretei, encarando-a com uma rigidez inflexível. — O meu lobo se recusa terminantemente a aceitar a marca naquela mulher. Eu nunca vou encostar um único dedo em Laura Davenport. Ela queria um casamento de fachada e a posição de primeira-dama? Pois ela terá um casamento de pura aparência. Apenas o suficiente para não enfraquecer o sangue e a linhagem dos Rossini perante o reino. Ela viverá neste castelo como um fantasma usando um anel de noivado. O silêncio que se seguiu foi sepulcral. A Matriarca encarava-me como se estivesse vendo um estranho sentado na minha cadeira de soberano. — E a Maya? — a voz da minha mãe soou baixa, mas carregada de uma expectativa perigosa. — O que você pretende fazer com a garota que carrega o verdadeiro elo com o seu lobo? Ao ouvir aquele nome, uma pontada violenta atravessou o meu peito, fazendo o meu lobo ganir no fundo da minha mente. Escondi a dor atrás de uma máscara de puro desprezo. — Eu não quero ouvir o nome dessa traidora nesta sala — rosnuei, virando o rosto para o fogo da lareira. — Eu a rejeito. Rejeito Maya Davenport e rejeito qualquer elo que ela alegue ter comigo. O meu julgamento está feito. — Dominic... — tentou intervir minha mãe, horrorizada. — Ela vai continuar sendo exatamente o que ela é! — interrompi, a voz soando como uma sentença de morte. — Uma simples empregada. Ela continuará como sua dama de companhia, já que a senhora tanto insiste na presença dela, limpando o seu chão e servindo o seu chá. Nada mais. Sob o meu teto, ela jamais passará de uma serva.






