Mundo de ficçãoIniciar sessãoMaya
A porta de ferro pesado da cela na torre norte fechou-se com um baque seco, definitivo e ensurdecedor, que reverberou friamente pelas paredes de pedra úmida e milenar. O som metálico do ferrolho correndo sobre o encaixe foi o golpe final que selou a minha escuridão e decretou a minha ruína. O estalo gélido ecoou na minha alma como a sentença de uma morte em vida, sepultando-me naquele limbo esquecido pelo resto do palácio. Acelerei os passos vacilantes até o canto mais distante da cela, sentindo as pernas cederem de vez e desabando sem forças sobre a esteira miserável de palha seca e pano encardido que servia como único leito. Abracei as minhas próprias pernas, encolhendo o meu corpo trêmulo contra o frio gélido e implacável que emanava do chão de rocha. O enjoo revirou o meu estômago de forma avassaladora, acompanhado por uma fisgada dolorosa e aguda na parte baixa do meu ventre, fruto do estresse e do terror que consumiam cada fibra do meu ser. — Calma, meu amor... por favor, aguente firme junto comigo... — murmurei num choro baixinho, sufocado e desesperado, pressionando com fervor as palmas das minhas mãos quentes contra a minha barriga ainda plana. — A mamãe vai proteger você... eu juro pela minha própria vida que vou te proteger de tudo. As lágrimas quentes lavavam o meu rosto pálido e manchado pelo sofrimento, mas não conseguiam limpar a sujeira vil das acusações que Dominic lançara sobre o meu nome diante de todos. A crueldade demoníaca com que ele olhara diretamente nos meus olhos, cego e absolutamente convicto de que eu mantinha um caso nojento e vulgar com o guarda Thomas, cortava a minha alma mais do que qualquer lâmina de aço afiada. A certeza insana dele de que a vida que brotava no meu ventre era fruto de uma traição sórdida transformara o nosso elo sagrado em uma aberração. Ele não apenas duvidara de mim. Ele me odiava com todas as forças e fibras do seu ser de Alfa. O mesmo homem de presença esmagadora que, poucas horas atrás, me preenchera com uma paixão febril, quase desesperada, diante do calor alaranjado da lareira, agora me condenara à escuridão e ao esquecimento de uma tumba de pedra sem piedade. Do lado de fora, no topo da escadaria espiralada da torre, ouvi o som abafado de vozes duras e o arrastar de passos lentos indicando que a guarda real estava sendo trocada. Lá embaixo, a vida no palácio de Valência continuava a sua rotina impecável, luxuosa e indiferente, completamente alheia à injustiça brutal que se consumava sob o seu teto mais alto. Enquanto as horas se arrastavam e a madrugada avançava lentamente, tornando o silêncio da cela quase ensurdecedor, os meus pensamentos atormentados voltavam-se inevitavelmente para a Matriarca. Será que Eleonora já saberia do meu paradeiro trágico? Será que a nobre senhora aceitaria essa loucura ou Dominic esconderia até mesmo da própria mãe o destino cruel que dera à mulher que servia aos seus aposentos? A dúvida corroía a minha mente, pois a Matriarca era a única alma naquele ninho de cobras que demonstrara algum traço de humanidade e justiça para comigo. Puxei os fiapos do tecido do meu vestido azul sobre os meus ombros desnudados, tentando inutilmente buscar algum resquício de calor no meio da penumbra gélida. A dor da rejeição brutal queimava como brasa viva no meu peito, sangrando por dentro a cada respiração arranjada. No entanto, no fundo mais sombrio da minha dor, algo novo e poderoso começou a se mover. A fagulha do amor-próprio e o instinto protetor feroz de uma mãe começavam a se acender na mesma proporção em que o meu amor por Dominic se transformava em poeira amarga. A garota ingênua e amedrontada que implorava por afeto ficara para trás naquele corredor. Se o Alfa Supremo decidira me cegar com o seu orgulho doentio e a sua tirania cega, eu não permaneceria de joelhos chorando para sempre, esperando por uma misericórdia que nunca viria. Guardaria a verdade sobre a paternidade do meu filho como o meu segredo e bem mais precioso. Não permitiria que o sangue Rossini contaminasse a inocência da criança com o seu legado de dor e soberba. Eu alimentaria o meu corpo, suportaria o frio daquela cela e esperaria pacientemente pela primeira oportunidade para escapar daquela fortaleza, sumindo para sempre para bem longe da sombra dos Rossini e da insanidade do seu soberano.






