Mundo ficciónIniciar sesiónLívia é humana e leva uma vida comum - até cruzar o caminho de Alef. No instante em que a vê, ele reconhece o impossível: ela é sua companheira. O vínculo se anuncia como deveria. O cheiro confirma. O instinto confirma. Mas Lívia o rejeita. Alef é CEO de um conglomerado de empresas e chefe de Lívia. Um alfa poderoso, herdeiro de uma matilha governada por tradições rígidas e por uma maldição antiga que ameaça sua linhagem há gerações. Filho de um Lycan nórdico e de uma loba asiática, foi moldado desde a infância para dominar o instinto, preservar o controle e encontrar a Luna capaz de quebrar a maldição - e garantir o futuro do trono. O reconhecimento acontece. Mas o vínculo falha. Embora o cheiro de Alef desperte em Lívia uma atração intensa e imediata, o primeiro toque desencadeia algo inexplicável: dor, repulsa, rejeição. Seu corpo reage como se estivesse diante de uma ameaça mortal, como se cada célula ordenasse para fugir. Enquanto Lívia luta para entender por que seu próprio corpo a trai, Alef enfrenta algo igualmente cruel: a rejeição da única mulher que deveria completá-lo e a pressão crescente da matilha, que passa a questionar sua liderança - e sua capacidade de governar. Incapaz de consumar o vínculo, Alef se vê diante de uma escolha impossível: insistir na ligação com a mulher que o rejeita… ou abdicar do amor e, pior, do trono. Forçados a conviver, presos entre desejo e repulsa, instinto e controle, maldições antigas e o futuro da alcateia, Lívia e Alef caminham por uma relação marcada por tensão constante - e limites que nenhum dos dois pode atravessar sem pagar um alto preço. Nesta história de amor e ódio, rejeição e redenção, o vínculo não é a solução. É o conflito.
Leer másA música da banda da escola ecoava pelo campo aberto, espalhando-se pelo gramado como se quisesse alcançar além dos muros. O som misturava-se ao vento morno da tarde, às palmas ritmadas, às vozes animadas de professores, funcionários e convidados que se aglomeravam em pequenos grupos.
Lívia estava ao lado de sua melhor amiga, Ayla Minji, tentando acompanhar aquele clima coletivo que nunca parecia feito para ela.
Ayla cantava o hino da escola sem decidir se estava cantando ou gritando — optando, como sempre, por fazer os dois ao mesmo tempo. Havia algo quase cômico na entrega exagerada, e Lívia não conseguiu evitar um meio sorriso ao observá-la.
A mulher ao seu lado era alta, esguia, dona de uma elegância tranquila, daquelas que não pedem atenção, mas inevitavelmente recebem. Os cabelos curtos, já assumidamente brancos, davam a Ayla um ar moderno e seguro, como alguém que não precisava provar nada a ninguém.
À primeira vista, Ayla parecia feita de silêncio.
Mas Lívia sabia bem.
Por trás daquela calma quase didática, havia uma mente inquieta, cheia de planos repentinos, ideias atravessadas e risadas escandalosas — muitas vezes contidas por pura conveniência social. Ayla inspirava confiança imediata, como se nada fosse capaz de tirá-la do eixo.
Embora, por dentro, fosse um carnaval permanente.
Lívia, por sua vez, sentia-se deslocada como sempre.
Baixa, dona de um cabelo ruivo cacheado que parecia ter vida própria, ela tinha a constante impressão de que nunca se encaixava totalmente nos espaços. Os fios volumosos, ora rebeldes, ora excessivamente domados, refletiam exatamente como ela se sentia na maior parte do tempo.
Nem magra.
Nem gorda. Sempre “entre”.Vestia 40 em algumas lojas, 42 em outras, e aquela oscilação lhe parecia um resumo cruel da própria existência. Nunca era exatamente o que esperavam, mas também nunca era invisível o suficiente para passar despercebida.
Ela e Ayla funcionavam porque eram opostas.
Onde uma era excesso, a outra era pausa.
Onde uma se espalhava, a outra se recolhia.Talvez por isso fossem inseparáveis.
— O que foi, amiga? — Ayla perguntou, sem diminuir o entusiasmo.
— Nada — Lívia respondeu automaticamente.
Ayla arqueou uma sobrancelha. Conhecia bem aqueles “nadas” cheios de tudo.
— Fala logo.
Lívia suspirou antes de ceder:
— A gente precisava mesmo estar aqui?
Ayla riu baixo.
— Mana… a gente trabalha aqui.
— Eu sei — Lívia respondeu, observando o palco improvisado à frente. — Mas precisamos ficar até o final?
— Precisamos — Ayla confirmou, agora mais séria. — O “Caviar” finalmente vai aparecer.
Lívia fez uma careta.
O apelido vinha do ditado: “nunca vi, nem comi, só ouço falar”. O chefe era uma entidade quase mítica. Conhecido apenas por e-mails formais, áudios objetivos demais e decisões tomadas sempre à distância.
— Ele aparece, faz o discurso, finge que é gente como a gente — Ayla continuou — e aí acabou. Prometo.
— Pelo menos a voz dele é bonita — Lívia murmurou.
Ayla riu e passou um braço ao redor dos ombros dela.
— Te acalma, formiga atômica.
Lívia adorava o apelido.
Para ela, as duas pareciam uma refilmagem improvável de Irmãos Gêmeos: Ayla com seus quase um metro e oitenta, imponente; e ela com seus um metro e cinquenta e quatro — que insistia em arredondar para cinquenta e cinco por puro orgulho.
— Tô calma — Lívia respondeu, irônica. — Meu avatar particular.
Mentira.
Por dentro, a ansiedade se acumulava em camadas. Lívia só conseguia pensar em ir embora. Em chegar em casa. Em tirar os sapatos. O sutiã. Em recuperar o silêncio que aquele evento parecia ter roubado.
Tudo aquilo parecia exagerado demais.
Discursos ensaiados, aplausos obrigatórios, sorrisos corporativos — quando uma reunião rápida no Teams teria resolvido tudo sem exigir paciência coletiva. Na cabeça dela, aquele chefe idolatrado era apenas alguém que herdou uma escola pequena e soube expandi-la.
Mérito existia, claro.
Mas ainda assim… preferia estar em sala de aula. Com seus alunos. Onde o tempo fazia sentido.
Enquanto os aplausos se repetiam, Lívia respirou fundo, tentando afastar o incômodo.
No fundo, era grata.
Não tinha ficado rica, mas a vida estava estável. As contas em dia. O apartamento pequeno, mas conquistado. O sofá confortável. O café gourmet que nunca faltava. Os doramas que a esperavam ao fim do dia como um prêmio silencioso por ter sobrevivido a mais uma jornada social.
Era o suficiente.
Ou costumava ser.
— Daqui a pouco ele chega — Ayla disse.
Lívia seguiu o olhar da amiga até o céu aberto sobre o campo.
O vento mudou.
Nada que ela pudesse explicar — apenas uma sensação estranha, como se o ar tivesse ficado mais denso por um instante. Lívia franziu a testa, ignorando o arrepio breve que percorreu seus braços.
— Tá — disse, por fim. — Só… fica perto de mim, tá?
Antes que Ayla pudesse perguntar o motivo, o som distante de hélices começou a cortar o ar.
E, sem saber por que, Lívia teve a estranha sensação de que estava atrasada para algo que nunca pediu para viver.
O portão da escola se fechou atrás delas com um som seco.Lívia só percebeu o quanto estava esquisita quando o barulho ecoou forte demais dentro do peito. Como se aquele simples fechamento marcasse uma fronteira invisível entre o que acabava de acontecer… e o que ela ainda não estava pronta para entender.O ar da rua parecia diferente.Mais leve.Mais real.Era como se o mundo tivesse retomado o eixo enquanto algo dentro dela permanecia fora do lugar.Ela caminhava ao lado de Ayla em silêncio, tentando organizar a própria respiração, mas o corpo se recusava a acompanhar o ritmo que a mente insistia em impor. Cada movimento parecia levemente atrasado, como se houvesse um descompasso entre intenção e resposta. - Você vai direto pra casa? - Ayla perguntou, observando-a de canto de olho. - Vou - Lívia respondeu sem hesitar. - Antes que eu mude de ideia.Tentou sorrir, mas o gesto saiu incompleto
Lívia tentava se convencer de que era só cansaço.O tipo de exaustão que vem depois de muito barulho, muita gente, muita obrigação social acumulada num espaço pequeno demais para respirar. Nada além disso.Era o que fazia sentido.Mesmo assim, o aperto no peito não cedia.Ela observava o homem à frente — agora falando ao microfone, postura impecável, voz firme, segura — e sentia algo estranho, quase deslocado, como se estivesse assistindo a uma cena que não lhe dizia respeito… e, ao mesmo tempo, dissesse respeito demais.Era insistente como uma nota fora do tom que o ouvido reconhece mesmo sem saber explicar.Lívia desviou o olhar.O simples ato de encará-lo por mais de alguns segundos fazia sua respiração perder o ritmo. — Amiga… — murmurou, puxando levemente a manga de Ayla. — Você tá sentindo esse calor estranho?Ayla congelou por uma fração de segundo.Tempo suficiente para entender que Lívia não estava falando de temperatura.— Deve ser o povo amontoado — respondeu rápido, calcu
Ayla sentiu.A energia mudou no instante em que o vento cruzou o espaço aberto e o cheiro alcançou o púlpito. Não precisou olhar para Alef para saber. O impacto do vínculo percorreu o corpo dele como ondas de choque.O lobo dele estava a um fio de despertar.Alef agarrou as laterais do púlpito com força excessiva. A postura rígida denunciava o esforço para conter algo que não aceitava ser contido. Um rosnado baixo vibrou em seu peito, quase imperceptível aos humanos — mas não a ela.Ayla posicionou-se ao lado dele no exato instante em que a energia ameaçou romper o último limite.Espalhou sua presença com cuidado.Firme. Curativa. Controlada.Uma energia serena envolveu Alef, ancorando-o antes que o instinto o empurrasse além do ponto de retorno. Não era força bruta. Era contenção paciente. Lembrança silenciosa de quem ele era… e do que estava em jogo.Ele virou o rosto, ainda tenso.E a encontrou ali.Ayla deu um sorriso gentil e falou pela conexão mental:— Como sempre, nervosin
Alef acreditava que finalmente havia chegado ao fim daquela jornada.Cumpriria o protocolo exigido, resolveria o que precisava ser resolvido e, então, retornaria à matilha — onde realmente pertencia.Ainda assim, antes de qualquer coisa, permitiria a si mesmo um momento pessoal. Daria um abraço em sua prima e amiga de infância. Já havia decidido que conversaria com Ayla sobre sua permanência. Não seria uma decisão imposta.Pela história que compartilhavam, concederia a ela o direito de escolha. Ayla poderia decidir para onde iria, ou até mesmo se desejava permanecer no Brasil. Mesmo ciente de que não encontraria ali a sua Luna, Alef considerava a possibilidade de mantê-la por perto. Observando. Talvez auxiliando. Enquanto aguardavam a Luna destinada ao seu sucessor.Antes, porém, sorriu com um pensamento travesso.Aproveitaria a oportunidade para cobrar — com juros e bom humor — todos os cascudos que havia levado na infância, agora usando como desculpa o simples fato de ter sido ela a
Ayla possuía sentidos que iam além da visão e da audição comuns — muito além dos humanos. Eram herança direta do instinto ancestral que corria em seu sangue de loba, sentidos que se tornaram mais aguçados quando, aos dezesseis anos, despertou.Naquele dia, não despertou apenas como loba.Despertou como Minji.Desde então, aprendera que algumas existências não escolhem seu papel. Apenas o assumem. As profecias falavam da Luna estrangeira — aquela que surgiria fora de sua terra, carregando em si a possibilidade de romper um destino cruel. E diziam, também, que uma Minji surgiria para encontrá-la.Não por acaso.Não por escolha.Mas por chamado.Quando seus caminhos se cruzassem, o laço seria irrevogável. Não de sangue, mas de alma. Seladas como irmãs por algo maior do que ambas.Onde a
O helicóptero preto, marcado com o símbolo da família Kurohana, cortava o ar com um zumbido constante.Alef permanecia sentado com a postura impecável, as costas eretas contra o banco de couro escuro, as mãos apoiadas nas coxas. O terno estava alinhado, o relógio caro ajustado com precisão no pulso.Nada, porém, nele sugeria tranquilidade.A mandíbula permanecia tensa desde a decolagem, um músculo rígido denunciando a irritação de quem preferia estar em qualquer outro lugar. Alef observava o horizonte pela janela lateral sem realmente vê-lo. O mundo humano passava sob seus olhos como um ruído distante, irrelevante.Ele deveria estar na matilha.Supervisionando treinamentos. Resolvendo disputas internas. Preparando guerreiros.Era ali que fazia sentido.Eventos humanos nunca estiveram entre suas prioridades. Sorrisos ensaiados, discursos vazios, aplausos previsíveis — tudo aquilo sempre lhe pareceu uma perda de tempo.Soltou um suspiro curto e afrouxou o nó da gravata com impaciência
Último capítulo