Mundo ficciónIniciar sesiónHumilhada. Filmada. Ridicularizada. Lucy sempre foi tratada como ninguém: a garota gorda, desajeitada, filha da empregada, criada para servir e aprender a se calar. No último ano do ensino médio, ela cai na armadilha perfeita: um falso encontro que termina em vergonha pública e destruição total. Mas ao fugir daquela noite, Lucy cruza o caminho errado… ou o certo. Um alfa poderoso reconhece em sua pele uma marca proibida, reservada apenas aos herdeiros da alcatéia Blackmoor. Uma verdade escondida por dezessete anos vem à tona: Lucy não é bastarda de ninguém; ela é filha do alfa. Traições, troca de bebês, rituais sombrios e ambição feminina são expostos diante do Conselho Lupino. A garota rejeitada é reclamada pelo sangue. O herdeiro criado como príncipe descobre que talvez nunca tenha pertencido àquele lugar. Agora, Lucy precisa sobreviver em uma alcatéia que a despreza, enfrentar a inveja, o desejo e o ódio, e aprender a carregar um poder que nunca pediu. Sob a Lua das Três Garras, ninguém escapa do próprio destino.
Leer másA noite caia com certo charme; as estrelas aparecendo timidamente no céu, o cenário perfeito.
A água refletia a lua em ondas lentas, e o silêncio do condomínio fechado dava a falsa impressão de segurança. Lucy manteve a blusa por cima do biquíni, os braços cruzados junto ao corpo, como se pudesse se esconder de si mesma. Nunca tinha usado um biquíni antes. — Você pode tirar, se quiser — Dustin disse, com a voz baixa, quase doce. — A gente tá sozinho. Ela balançou a cabeça, nervosa. — Eu… eu não costumo… — Lucy — ele sorriu, daquele jeito que a fazia acreditar. — Você é linda. Não precisa ter vergonha. Se quiser tirar só a blusa… ou até o biquíni. Eu gosto de você do jeito que é. O coração dela disparou. Ninguém nunca tinha dito aquilo. Com dedos trêmulos, ela puxou a blusa devagar, revelando parte do biquíni simples, recatado demais. Não combinava com aquele lugar. Nem com ele. Mas, por um segundo, ela acreditou que talvez combinasse consigo. Foi então que ouviu a risada. Abafada. Vinda do arbusto. Um murmúrio logo em seguida. O corpo de Lucy enrijeceu antes mesmo da mente entender, abaixou novamente a camisa, assustada. O instinto lupino agiu tarde demais. O cheiro. Era inconfundível agora. Forte. Jovem. Familiar. Como ela não sentira antes? Como foi tão burra? Quatro garotos surgiram entre as sombras. Os jogadores do time de futebol. Sorrisos fáceis. Olhares cruéis. E, com eles, ela. Jeniffer. A garota era tudo que Lucy jamais seria: alta, confiante, corpo moldado para ser admirado, cabelo perfeito caindo como propaganda. O riso dela era alto. Satisfeito. O celular erguido, gravando cada segundo. — Olha pra ela… — ela murmurou, rindo. Lucy levou as mãos ao corpo, tentando se cobrir, o rosto queimando. — Dustin… — Lucy murmurou, a voz fraca pedindo por ajuda, mas ela não veio. Dustin deu um passo para trás. E então falou. — Achou mesmo que eu ia querer você? — a voz dele já não tinha nada de doce. — Se toca. Você não pertence a esse lugar. As risadas vieram em coro. — Acha que é alguém porque anda por aqui? — ele continuou. — Você é só a filha da empregada dos Halley. Não é ninguém. O celular da garota se aproximou mais. Lucy não ouviu o resto. Virou-se e correu. O portão do condomínio pareceu distante demais. A noite engoliu seu choro enquanto ela atravessava as ruas vazias, os pés descalços batendo no asfalto frio, o coração fora do ritmo. O carro surgiu rápido demais. O freio gritou. O impacto não veio por centímetros. — Ei! — a voz masculina soou dura, alarmada. — Você é louca?! Ela recuou, trêmula. O homem desceu do carro. Alto. Imponente. O tipo de presença que impunha respeito sem esforço. O olhar dele percorreu a cena: a garota chorando, descalça, mal vestida; e algo mudou. — Você é menor de idade — constatou. — Onde você mora? Lucy engoliu em seco. — Eu… eu moro perto — mentiu, a voz falhando. — Tô chegando… — Não — ele cortou. — A essa hora, desse jeito? Entra no carro. Ela hesitou. Tudo nela gritava inadequação. Medo. Vergonha. Mas obedeceu. O silêncio dentro do carro era pesado. Lucy puxava a camisa de alça larga para baixo o tempo todo, tentando cobrir o corpo. Nunca tinha usado algo assim. Sempre fora das mangas longas, das roupas largas que escondiam tudo. Agora, um ombro ficava à mostra. E foi ali. Entre a alça do biquíni e o tecido da camisa, um pequeno trecho de pele apareceu. A marca de nascença. Discreta, mas impossível de confundir: a lua irregular marcada por três linhas naturais, como garras antigas. Um símbolo que não existia por acaso. Um sinal que atravessava gerações. O homem desviou o olhar da estrada por um segundo. Não. Não podia ser. Ele conhecia aquela marca. Conhecia bem demais. Lucy percebeu o silêncio mudar, mas não entendeu por quê. Apenas encolheu o corpo no banco, desejando desaparecer mais uma vez enquanto o silêncio no carro deixava de ser apenas pesado e passava a ser avaliador. Lucy sentia o olhar dele deslizar de forma contida, não invasiva, mas atenta demais para alguém que dizia apenas estar ajudando. Cada vez que ela se mexia para puxar a camisa, tinha a sensação de estar sendo observada, mas não com desejo, porém com algo mais frio. Mais profundo. Investigação. — Qual o nome da sua mãe? — ele perguntou de repente. A voz saiu ríspida, quase dura demais para quem acabara de evitar um atropelamento. Lucy se encolheu no banco. — Janet… Janet Marshall — respondeu baixo. — Mas… ela já é falecida. O homem apertou o volante com mais força. — Falecida quando? — No meu nascimento — disse ela, o olhar caindo. — Não convivi com ela. Fui criada pelos patrões… minha mãe não tinha família. Nunca conheci meu pai. A palavra pai ficou suspensa no ar. O nome não lhe dizia nada. Janet Marshall não existia em sua memória. Nunca fizera parte de sua alcatéia. Nunca fora apresentada. E ainda assim… A marca. Aquela maldita marca. Ele voltou a olhar para o ombro dela, agora cuidadosamente coberto. Não precisava ver de novo para saber que estava lá. A primeira mulher com aquela marca e sequer a conhecia; pela idade, ela tinha que ser filha de um Blackmoor. Se não era dele… Só podia ser de sangue direto. Os irmãos? Não. Jamais. A decência era uma regra entre eles. Um pilar. Nenhum teria escondido algo assim. Então como? — Você é loba? — perguntou, direto. Lucy piscou, surpresa. — Dizem que sou híbrida — respondeu, insegura. — Talvez eu seja. Eu não… — hesitou. — Não sou ágil. Não tenho bons instintos. Nem sinto as coisas como dizem que os lobos sentem. Ela soltou um riso curto, sem humor. — Acho que falhei nisso também. Aquilo apertou algo no peito dele. Híbrida. Marcada. Rejeitada pela própria natureza. — Alguma vez você já mudou? — ele perguntou. — Sentiu algo… diferente em noites de lua cheia? — Não — Lucy respondeu rápido demais. — Nunca. Ela desviou o olhar para a janela, o condomínio passando lento demais. Estava cansada. Exposta. Cada pergunta a fazia se sentir ainda mais inadequada, como se estivesse sendo testada… e falhando de novo. — Você mora com os Halley. Bom, aqui está a casa dos Halley — ele constatou, ao ver a fachada se aproximando. Lucy assentiu. O carro parou em frente à casa. As luzes estavam apagadas. Ele desligou o motor, mas não saiu imediatamente. Ficou ali, imóvel, como se a deixá-la ali fosse mais difícil do que trazê-la. — Entre — disse por fim, seco, abrindo a porta. — Está tarde. Lucy desceu rápido, o corpo ainda encolhido dentro de si. — Obrigada… senhor — murmurou, sem saber como chamá-lo. Ele a observou caminhar até a porta. Pequena. Frágil. Com um peso que não deveria carregar sozinha. Quando Lucy entrou na casa, ele permaneceu no carro, encarando o volante como se fosse um inimigo antigo. Aquilo não fazia sentido.Eles só saíram de casa quase meia hora depois.Andy a apressara, contara os segundos, fizera questão de lembrá-la do atraso e então, como se nada fosse, simplesmente se jogou no sofá da sala, o celular já nas mãos, deslizando o dedo pela tela com total tranquilidade.Lucy ficou em pé, parada, sentindo a irritação subir como um calor desconfortável no peito.Era injusto.Ele a pressionava… e depois desperdiçava tempo como se fosse dono absoluto dele.Mas Lucy não disse nada.Nunca fora reativa. Aprendera cedo que silêncio era sobrevivência.Andy vestia roupas esportivas simples, tênis de corrida, camiseta justa, o cabelo negro preso num coque firme que mantinha os fios longos longe do rosto. Quando finalmente se levantou e fez um gesto curto com a cabeça, Lucy o seguiu imediatamente e soltou um suspiro quase imperceptível ao perceber que, do lado de fora, não havia moto alguma.Foram a pé.— Vamos ter que começar do simples — Andy disse enquanto caminhavam pelo condomínio, o tom prátic
Andy não disse mais nada.Por um tempo que Lucy não soube medir, ele simplesmente desapareceu dentro da propriedade. O silêncio pesado tomou conta do lugar, quebrado apenas pela respiração irregular dela enquanto permanecia estendida no chão, tentando convencer o corpo a voltar a obedecer. Os músculos ainda tremiam, o estômago vazio embrulhava, e cada movimento parecia custar mais do que deveria.Ela ouviu passos novamente apenas quando já conseguia se apoiar nos cotovelos.Andy surgiu perto da porta de entrada, atendendo ao interfone com poucas palavras. Lucy ergueu o olhar sem perceber que o fazia e foi então que o notou de verdade.Ele havia trocado de roupa. Usava algo simples, uma camiseta escura e calça confortável. Estava descalço. O cabelo preto, antes preso e rígido, agora caía solto e molhado, descendo até o meio das costas, ondulado nas pontas de um jeito quase elegante demais para alguém tão mal-humorado. Era o tipo de cabelo que muitas mulheres passavam horas tentando im
A manhã passou depressa demais, quase imperceptível, enquanto Lucy permanecia sentada, absorvendo cada palavra de Ashley.Ela falava com naturalidade, como quem conta uma história que já repetiu muitas vezes, mas ainda carrega orgulho suficiente para não deixá-la morrer. Explicou que os Blackmoor existiam muito antes de Magnus — muito antes de qualquer nome que hoje comandasse respeito. O clã era antigo, um dos primeiros registros conhecidos de humanos atingidos pela licantropia, quando a condição ainda era vista como maldição, não como poder.Foram perseguidos no início. Caçados pela diferença. Mas também foram protegidos por ela.A força veio antes da organização. A superioridade física garantiu sobrevivência, e a inteligência estratégica garantiu domínio. Enquanto outros clãs se fragmentavam, os Blackmoor se uniram. Criaram regras, hierarquias, pactos. Quando a comunidade lupina finalmente deixou de se esconder e passou a se estruturar, eram eles a maior referência de poder do mund
Quando despertou na manhã seguinte, o desconforto ainda pairava sobre Lucy como uma névoa insistente.A noite anterior não lhe saía da cabeça. O jantar fora estranho desde o início, carregado de silêncios e talheres batendo em pratos quase intactos. Ethan mal tocara na comida; parecera distante, os pensamentos em outro lugar, até se levantar antes de todos com uma desculpa curta demais e deixá-la sozinha à mesa.Sozinha não de fato.Theo permanecera ali.E foi então que Lucy entendeu o padrão. A fúria dele não era barulhenta, nem explosiva. Era baixa, controlada, feita para existir apenas quando não havia testemunhas. Um veneno que se infiltrava devagar.— Não pense que vai tomar o meu espaço — ele murmurara, inclinado sobre a mesa, a voz baixa e dura. — Eu cheguei primeiro. Você só vai aceitar o que eu quiser que você aceite. Ouviu, Lucy Baleia?Lucy não respondera. Apenas balançara a cabeça, os olhos presos no prato de comida que já não tinha apetite algum. Sentira raiva, claro. Uma
Lucy não contou nada.Nem sobre Dustin, nem sobre o aperto no peito que voltara de repente, nem sobre o medo súbito de que aquele dia perfeito tivesse sido apenas um intervalo curto demais. As primas perceberam, mas nenhuma insistiu. Apenas trocaram olhares silenciosos, como quem entende que há dores que precisam de tempo para encontrar voz. No caminho de volta, o carro seguiu em um conforto estranho, sem pressa, embalado por uma música baixa e pela sensação de que, apesar de tudo, Lucy não estava mais sozinha.Quando chegaram à casa de Rowan, as luzes da sala de estar estavam acesas. Ethan estava ali, em pé, próximo à janela, e Rowan ocupava uma das poltronas, espalhado. Os dois pareciam… à espera. Guardando por ela.Ethan foi o primeiro a se mover. Tentou sorrir quando Lucy entrou, mas o gesto saiu rígido, quase ensaiado, como se o rosto ainda não tivesse aprendido a acompanhar o que o coração sentia. O sorriso não alcançou os olhos, e aquilo a deixou constrangida, como se estivesse
O café da manhã mal havia sido servido e Elara já batia palmas, em pé, como uma general animada diante de um exército sonolento.— Vamos, vamos, vamos! — apressava. — Temos horário marcado no salão e depois o shopping. Temos muita coisa pra fazer hoje!Lucy quase engasgou com o suco. Ainda tentava se acostumar à ideia de sair — sair de verdade — quando já estava sendo puxada para fora de casa, cercada pelas primas risonhas, todas vestidas com uma leveza que parecia natural nelas. No carro, Elara falava sem parar, Mireya ria, e Lucy observava a paisagem pela janela, tentando controlar a ansiedade que crescia no peito.O salão de beleza era grande, claro, com paredes espelhadas e um cheiro doce no ar. Assim que entrou, Lucy sentiu o corpo enrijecer. Nunca estivera em um lugar daqueles. As mulheres bonitas, os cabelos impecáveis, as conversas soltas… tudo parecia gritar que ela não pertencia ali. Sentou-se na cadeira indicada com cuidado excessivo, como se pudesse quebrá-la apenas por ex
Último capítulo