Mundo de ficçãoIniciar sessãoDominic
A visão daquela garota, a bastarda que minara as minhas estruturas e deshonrara o meu nome, cravada nos braços de outro homem destruiu a última barreira da minha razão. O meu lobo, ferido na sua posse e no seu orgulho mais profundo, rosnou em fúria cega diante da imagem abjeta da traição. Avancei a passos pesados pelo corredor, a minha aura de poder expandindo-se como uma onda de choque que fez a poeira e o ar tremerem ao nosso redor. Thomas soltou os pulsos de Maya num gesto estudado de susto. Ele deu dois passos para trás, caindo de joelhos sobre o mármore frio e abaixando a cabeça em uma reverência rápida e ensaiada, enquanto mantinha os braços abertos num pedido de clemência que cheirava a puro cinismo. — Supremo! Misericórdia, Alfa! — gaguejou o guarda, elevando a voz para que a sua atuação reverberasse por toda a ala. — Eu tentei me afastar, juro pela minha vida que tentei! Mas essa garota vive me perseguindo nos corredores... ela veio até mim implorando por segredo, dizendo que o filho que carrega é meu e que eu precisava assumi-lo! — Mentira! Isso é uma calúnia nojenta! — o grito de Maya rasgou a penumbra do corredor. Sem forças nas pernas, ela desabou de joelhos a poucos passos de mim. A túnica de linho azul estava amarrotada, o rosto pálido e banhado por lágrimas grossas. Ela estendeu a mão trêmula na minha direção, o peito subindo e descendo num desespero sufocante. — Dominic, por favor, me escuta! — implorou ela, os olhos grandes e desesperados cravados nos meus. — Ele me emboscou! Ele começou a gritar e me agarrou à força! Eu nunca cheguei perto desse homem! — Cale a boca... — rosnei em um tom baixo, gélido, que fez Maya estremecer inteira. — Dominic, a criança... — sussurrou ela, num fio de voz quebrado, cobrindo o ventre de forma instintiva. — Eu disse para calar a boca! — esbravejei, o som da minha voz ecoando como um trovão pela galeria. A visão da mão dela protegendo a barriga não me trouxe qualquer dúvida, trouxe apenas o nojo viscoso da certeza. Na minha mente, tudo se encaixava com uma clareza grotesca. A garota que se escondera no porão dos Davenport, que mentira sobre a sua identidade e que se entregara ao meu leito para garantir proteção, na verdade usava a minha autoridade como cobertura para um caso vulgar com um soldado raso da minha guarda. O filho que ela carregava não era um herdeiro de Valência; era o fruto podre da traição dela com Thomas. A simples ideia de que aquela bastarda pretendia jogar a responsabilidade de um bastardo de guarda no meu nome fez a minha bile subir. — Você achou que podia brincar com o Alfa Supremo? — perguntei, a fisionomia dura e impassível como pedra. — Achou que usaria o meu nome e a minha casa para esconder a bastardia do feto que você carrega do seu amante? Você é uma vergonha, Maya. Uma fraude sem honra. — Não! Dominic, não é dele! Eu só estive com você! — gritou ela, desesperada, tentando arrastar-se na minha direção para segurar a barra da minha túnica. — Acredita em mim, por favor! — Não encoste as suas mãos sujas em mim — ordenei, dando um passo para trás com repulsa. Girei o rosto na direção da curva do corredor, onde Gabriel surgira acompanhado por quatro oficiais armados. A expressão do meu conselheiro era de um choque contido, mas diante da fúria absoluta do seu soberano, ele permaneceu em silêncio. — Gabriel! — ditei com a voz cortante de um juiz executando uma sentença. — Tranque o guarda Thomas na cela de contenção da patrulha imediatamente. Ele responderá por conspiração e quebra de conduta militar. — Sim, Supremo — respondeu Gabriel, fazendo um sinal para que dois oficiais arrastassem o guarda, que não ofereceu resistência. Voltei o meu olhar para a fêmea estendida aos meus pés, encolhida sobre o mármore, chorando como se o mundo estivesse desabando sobre as suas costas. — Quanto a essa mentirosa... — continuei, a voz destituída de qualquer traço de humanidade ou misericórdia. — Levem-na para a cela da torre norte. Tranquem-na sob custódia máxima até segunda ordem. Ela não sairá daquela cela até que eu decida o destino que dará à vergonha que carrega no ventre. — Dominic, não! Pelo amor de Deus, não me tranca lá! — gritou Maya em puro desespero, enquanto os outros dois guardas a seguravam brutalmente pelos braços, levantando-a do chão. — Pensa no bebê! Dominic! Ignorei os seus gritos, girando sobre os calcanhares e caminhando de volta para o meu gabinete sem me conceder o luxo de olhar para trás. Os soluços dolorosos e os gritos pelo meu nome continuaram a ecoar pelas paredes de pedra da ala oeste, mas para o Alfa Supremo de Valência, a fêmea que um dia abalara o seu peito estava morta e enterrada sob o peso da sua própria desonra.






