Mundo de ficçãoIniciar sessãoMaya
Os dias que se seguiram ao banimento do meu pai e de Helena transformaram a mansão dos Rossini em um mausoléu de silêncio e rancor. A decisão de Dominic vigorava como uma lei de ferro: Lorde Arthur e Helena haviam sido varridos do palácio sob a justificativa de fraudes financeiras, enquanto Laura permanecia confinada em seus aposentos na ala oeste, aguardando em isolamento a data do casamento sem honra que tanto cobiçara. E eu permanecia ali, presa no limiar entre a servidão e o desprezo. Ajustei as dobras da túnica simples de linho azul-pálido e terminei de organizar as xícaras de porcelana sobre a bandeja de prata. Minhas mãos carregavam o tremor sutil do cansaço emocional. O cheiro de lavanda que agora emanava da minha pele de forma constante tornara-se um lembrete cruel do elo que o Alfa Supremo tentava sufocar sob a sua arrogância. — Você não precisa carregar esse peso sozinha, minha querida — a voz suave de Eleonora rompeu o silêncio do salão de chá. A Matriarca estava sentada junto à janela alta, observando o nevoeiro que cobria os jardins de Valência. Ela mantinha o semblante fechado, carregando no olhar uma profunda e impotente tristeza. — Eu faço questão de servir a senhora, Matriarca — respondi num tom baixo, aproximando-me e pousando a xícara fumegante diante dela. — É o único momento em que sinto que a minha presença aqui tem algum propósito. Eleonora suspirou, cobrindo a minha mão com a sua palma quente, os olhos cinzentos cheios de amargura. — Eu queria poder fazer mais por você, Maya... — murmurou ela, a voz embargada pela dor de quem se via de mãos atadas. — Mas quando o Alfa Supremo toma uma decisão amparado pelas leis do Conselho e pelo orgulho do seu sangue, até mesmo a Matriarca é forçada a se calar. Dominic fechou os ouvidos para a razão. Tudo o que me resta é tentar proteger você do frio desta casa enquanto essa loucura durar. A dor na voz de Eleonora deixou claro que não havia salvação vindo de cima. Estávamos ambas presas à vontade do soberano. Antes que eu pudesse responder, o som de passos pesados ecoou pelo corredor de mármore. A porta do salão de chá foi empurrada sem cerimônia. Dominic adentrou o recinto vestindo a sua túnica de gala escura, os ombros largos e a postura impecável. Porém, a rigidez do seu rosto e as sombras escuras sob os seus olhos dourados traíam a falta de descanso. O meu coração deu um salavanco violento no peito. O elo entre nós, inflamado pela noite na antissala, pulsou com uma força dolorosa, fazendo o ar da sala ficar denso e impregnado com a mistura do meu perfume e do aroma amadeirado dele. Dominic estancou por um segundo ao me ver. Os seus olhos cravaram-se nos meus com uma intensidade faminta e colérica, percorrendo o meu rosto antes de se fecharem em uma linha fria e distante. — Mãe — cumprimentou ele, ignorando a minha presença como se eu fosse feita de vidro. — Os anciãos do Conselho acabaram de chegar para a reunião extraordinária. A senhora precisa estar presente para a sessão. — Eu estarei lá, Dominic — respondeu Eleonora, levantando-se devagar, o tom de voz gélido e desprovido do calor habitual. Ela olhou para o filho com um pesar profundo, sabendo que nada do que dissesse mudaria a cabeça dele. — Embora me doa ver até onde o seu orgulho o levou. Dominic travou o travessão da mandíbula, a fúria faiscando em suas orbes douradas. — O que precisa ser feito será feito — decretou ele com a voz grave, aproximando-se da mesa para apanhar os documentos do Conselho. Ao passar por mim, o calor do seu corpo fez a minha pele arder. — Maya, retire os utensílios e certifique-se de que a ala oeste permaneça trancada até o término da reunião. Não quero distrações no palácio. A forma como ele pronunciou o meu nome — seco, formal, tratando-me como uma reles subordinada — foi como uma alfinetada direto no meu peito. — Sim, Supremo — respondi, mantendo a cabeça baixa, ocultando as lágrimas que teimavam em querer emergir. Dominic encarou o topo da minha cabeça por alguns segundos em silêncio. A sua respiração pesada indicava a luta interna do seu lobo, mas o seu orgulho venceu novamente. Ele deu meia-volta e caminhou em direção à saída. — O Conselho nos espera, mãe — disse ele antes de cruzar o limiar, sem olhar para trás. Eleonora caminhou até mim e pousou a mão sobre o meu ombro, apertando-o com um carinho triste e resignado. — Fique bem, minha filha — sussurrou a Matriarca, sabendo que nada podia fazer para impedir o destino que o filho impusera a todas nós. Assisti à Matriarca e ao Alfa deixarem o salão. Ficando sozinha na vastidão do cômodo, levei a mão ao ventre, sentindo uma leve fisgada interna que me fez prender a respiração. A tempestade na casa dos Rossini continuava, e o segredo que eu carregava em silêncio começava a cobrar o seu preço numa casa onde ninguém poderia me salvar.






