Mundo de ficçãoIniciar sessãoMaya
A escuridão gélida da cela na torre norte só não era mais gélida do que o desespero constante que continuava a corroer as minhas entranhas. O ar ali dentro era denso e pesado, impregnado com um cheiro acre de mofo, sujeira antiga e pedra molhada pelo tempo. Eu continuava encolhida sobre a palha encardida, tentando em vão me proteger da humilhação, mantendo as duas mãos firmemente cruzadas sobre o meu ventre para garantir que o calor do meu próprio corpo mantivesse a vida que crescia ali segura e aquecida. Quando a exaustão física, o frio extremo e o cansaço do choro pareciam prestes a me fazer sucumbir ao delírio, o eco distante de passos firmes e o som ritmado de saltos nobres batendo contra os degraus de pedra da escadaria espiralada começaram a romper o silêncio sepulcral da torre. Do lado de fora da cela, os guardas que faziam a custódia postaram-se em alerta imediato. O som de vozes alteradas no corredor indicava que alguém portador de uma autoridade inquestionável se aproximava a passos rápidos. — Abram essa porta imediatamente! — a voz imperiosa, alta e gélida de Eleonora soou inquestionável no corredor. — Matriarca... perdoe-nos, por favor... mas o Alfa Supremo deu ordens expressas de que absolutamente ninguém poderia se aproximar ou visitar essa cela... — tentou argumentar um dos soldados, com a voz vacilante de pavor. — Eu não perguntei a você quais foram as ordens cegas de Dominic, seu insolente! — interrompeu a soberana com uma fúria majestosa, a sua aura de Matriarca expandindo-se e pesando sobre o corredor com uma força sufocante e implacável. — Esta é a minha casa, a minha dama e o meu reino! Se você não abrir este ferrolho de ferro neste exato segundo, farei questão absoluta de que seja destituído do seu posto e jogado nesta mesma cela antes do pôr do sol! Houve um segundo de hesitação agoniante, o silêncio tenso cortado apenas pela respiração descompensada dos sentinelas, seguido rapidamente pelo ranger do metal do ferrolho pesado sendo puxado com pressa e pavor. A porta de ferro abriu-se de par em par com um ruído estridente, revelando a figura imponente, altiva e impecável de Eleonora. A luz amarelada das tochas do corredor invadiu bruscamente a penumbra da cela, fazendo-me cobrir os olhos. A Matriarca não conseguiu ocultar o choque absoluto e a indignação profunda ao me enxergar encolhida no canto mais escuro, com a túnica azul rasgada, a pele de porcelana pálida e o rosto manchado por camadas de lágrimas secas. — Meu Deus, Maya... o que aquele irresponsável fez com você...? — murmurou ela, o tom de voz vacilando por um instante antes de avançar a passos largos, ignorando a sujeira do chão para se ajoelhar diretamente ao meu lado no pó. — Matriarca...? — exalei num fio de voz quebrado pela exaustão e pela dor de quem já não esperava por socorro, tentando me encolher num gesto instintivo de vergonha pela minha situação lamentável. — A senhora... o que faz aqui? — Vim buscar você, minha querida — disse Eleonora com uma doçura firme e protetora, envolvendo os meus ombros trêmulos e frios com o seu próprio xale de lã nobre, denso e aquecido. — Levante-se. Ninguém mais neste palácio tocará em você ou no meu neto. As lágrimas quentes voltaram a inundar os meus olhos ao ouvir aquela palavra dita com tanta convicção. Meu neto. Apenas a mãe de Dominic fora capaz de enxergar a verdade e ouvir o chamado do sangue sem precisar de provas frias, testes de paternidade ou justificativas. — Ele não acredita em mim, Matriarca... — solucei amargamente, apoiando-me no braço dela enquanto ela me ajudava a colocar de pé com um cuidado quase maternal. — Ele acha que eu o traí da forma mais vil... ele quer me banir e me destruir... — Dominic está completamente cego pelo próprio orgulho e pelas cobras que alimentou ao redor do trono, mas a tolice e a tirania dele terminam aqui — declarou a soberana, segurando as minhas mãos trêmulas com força e guiando os meus passos vacilantes para fora daquela cela. Os dois guardas abaixaram a cabeça em total e absoluta submissão quando passamos por eles na saída da torre. Apoiada no braço firme de Eleonora, caminhei a passos lentos pelo corredor da torre norte rumo à luz do dia que começava a filtrar pelas janelas altas, deixando para trás a escuridão onde o Alfa Supremo tentara enterrar a minha existência. A partir daquele momento, sob o manto protetor da Matriarca de Valência, eu não seria mais a vítima indefesa que aceitaria a humilhação calada.






