Mundo ficciónIniciar sesiónEla aceitou o contrato por dinheiro. Ele aceitou o contrato por vingança. Nenhum dos dois esperava o que veio depois. Melissa Santoro está falida. Gabriel Montenegro está desesperado. A solução: um casamento falso de um ano. Sem amor. Sem toques. Sem segundas intenções. Só que o desejo não lê cláusulas. E a convivência é uma armadilha perfeita. Quando Melissa descobre que Gabriel nunca a viu como esposa — apenas como um negócio — ela some com um segredo no ventre. Cinco anos depois, o destino os reencontra. E ele descobre que perdeu muito mais do que um contrato. O amor não assina contratos. Mas ele cobra cada centavo.
Leer más— Você tem trinta segundos para consertar isso, ou juro que vou destruir tudo o que sua família tem.
A voz de Gabriel Montenegro corta o silêncio como presságio de um terremoto.
Eu não levanto os olhos da pilha de documentos que acabei de organizar. Seis meses como assistente pessoal do CEO mais temido de Nova York me ensinaram uma coisa: encará-lo durante uma crise é como olhar para o sol. Você só se queima.
— O erro não foi meu — minha voz sai calma, mesmo que por dentro eu esteja trêmula. — O departamento jurídico enviou a minuta errada. Eu só alinhei as páginas.
— Eu não pago você para justificar erros alheios. Eu pago você para impedir que eles cheguem até mim.
Uma caneta voa sobre a mesa de mogno. O estalo ecoa pelo escritório de vidro e aço, na cobertura que domina Manhattan. Lá fora, a cidade brilha como um colar de diamantes sujos. Lá dentro, faz vinte graus abaixo do zero.
Finalmente, ouso olhar para ele.
Má ideia.
Camisa branca desabotoada no primeiro botão. Gravata jogada sobre o encosto da cadeira. Cabelos escuros levemente desalinhados — como se tivesse passado a noite inteira acordado. O que provavelmente é verdade.
Mas o que me prende são os olhos.
Porque eles não são iguais.
O esquerdo é verde — um verde profundo, quase floresta no meio da noite.
O direito é azul — um azul gelado, como o céu minutos antes de uma tempestade.
Heterocromia. Completamente raro. Completamente desconcertante.
Dizem que ele nasceu assim. Dizem que a mãe abandonou a família quando viu os olhos do filho, chamando aquilo de “maldição”. Dizem que Gabriel Montenegro nunca perdoou ninguém por isso.
E agora aqueles dois olhos de cores diferentes queimam contra mim. A mandíbula parece esculpida em granito.
Ele é assustadoramente bonito.
E assustadoramente cruel quando quer.
— Vou refazer o contrato do zero — levanto, ajeitando o blazer bege. Minha armadura. Minha camuflagem entre executivos de terno preto. — Devo ter tudo pronto em três horas.
— Duas.
— Gabriel, são cento e quarenta páginas com cláusulas internacionais. Preciso de pelo menos...
— Duas horas. E você vai fazer do meu escritório. Quero ver cada linha antes de ir para o jurídico.
Eu seguro o suspiro.
Quatro dias sem dormir direito. Minha mãe no hospital. Contas vencendo. E agora isso.
— Como preferir — respondo, com a elegância fria que aprendi a usar como escudo.
Ele me observa por um longo segundo. Algo no olhar dele muda — um microssegundo de alguma coisa que não consigo nomear. Cansaço? Culpa? Impossível. Gabriel Montenegro não sente culpa.
— Você está pálida — ele diz, e não parece preocupado. Parece irritado. — Tome um café antes de começar. Não quero erros por cansaço.
— Não estou cansada.
— Está sim. Seus olhos estão inchados.
Minha mão toca meu rosto sem permissão. Ele notou. Claro que ele notou. Gabriel não se tornou bilionário aos trinta e dois anos por ser desatento.
— Problemas pessoais — desconverso. — Não vão interferir no trabalho.
— Tudo interfere no trabalho. Por isso eu não tenho problemas pessoais.
Eu quase rio. Não mesmo. Você só tem uma ex-noiva psicopata, uma mãe que não fala com você há dez anos e uma reputação que desmoronaria se alguém descobrisse que você chora no escuro quando ninguém está olhando.
Mas eu não digo isso.
Porque eu sou inteligente. E discreta. E sei que o segredo mais precioso de Gabriel Montenegro é o homem quebrado por trás da máscara — e ninguém, absolutamente ninguém, pode descobrir que eu já vi os estilhaços.
— Duas horas — repito, pegando a pilha de papéis. — Vou buscar café e volto.
— Melissa.
Paro na porta.
— Sim?
Ele hesita. Para qualquer outra pessoa, seria imperceptível. Para mim, que passo mais tempo na presença dele do que qualquer ser humano são deveria, é um terremoto.
— Seus problemas pessoais… — a voz dele parece vir de algum lugar mais fundo que o peito. — Resolva-os. Você é útil para mim. Não posso perder tempo treinando outra assistente.
Tradução do bilionês: eu me importo, mas não sei dizer de outro jeito.
Só assinto e saio.
No corredor, apoio a testa contra a parede fria de vidro fumê. O celular vibra no bolso do blazer. Uma mensagem do hospital.
Sua mãe precisa de novos exames. A conta de ontem ainda não foi paga. Entraremos em contato com o setor de cobrança amanhã.
O chão some por um segundo.
Fecho os olhos e respiro fundo.
Quanto tempo até eu desmoronar? penso. Quanto tempo até o castelo de cartas desabar?
Não há resposta.
Só há a verdade fria de que estou pendurada por um fio — e que o homem que pode me salvar é o mesmo que me destruiria sem hesitar se descobrisse o quanto eu já estou no limite.
Entro no elevador.
Os dias seguintes foram uma dança tensa.Minha mãe se recuperava rápido. A cor voltava ao rosto. Os passos ficavam mais firmes. Ela ria das piadas da governanta, ajudava a preparar o café, perguntava sobre a empresa de Gabriel como se fosse parte da família.Para ela, aquilo era real. O casamento. O amor. O futuro brilhante.Para mim, era uma mentira que se arrastava a cada hora.Gabriel mantinha distância. Educado. Cortês. Vazio. Na frente da minha mãe, ele era o genro perfeito. A mão na minha nuca. Os elogios discretos. O sorriso que aparecia no momento certo. Longe dela, o silêncio. O celular. A frieza.Como se a noite que tínhamos dividido tivesse sido apagada da memória dele.Como se eu fosse apenas mais um item do contrato. Bem... eu era.Foi num sábado que tudo mudou.Minha mãe tinha ido ao médico para uma revisão. Eu fiquei na cobertura, os dedos inquietos, o coração acelerado. O telefone tocou. Número desconhecido.Atendi.— Senhora Montenegro? — a voz era feminina, doce, ve
O dia amanheceu cinzento, nuvens baixas sobre a cidade, como se o céu também estivesse fingindo.Eu acordei no quarto principal, sozinha. Gabriel já tinha saído. O travesseiro dele estava frio. A cama do lado, vazia. O silêncio ecoava pelas paredes da cobertura como uma respiração suspensa.Levantei, tomei banho, vesti uma roupa simples. Minha mãe ia chegar em algumas horas. Eu precisava estar pronta. Precisava sorrir. Precisava fingir.Quando desci para a cozinha, ele estava lá. De pé, tomando café, o celular na mão. Não levantou os olhos quando eu entrei.— Ela chega em uma hora — ele disse. A voz neutra, como se estivesse falando sobre o tempo.— Eu sei.— Preparei o quarto. Mais flores. Água na mesa de cabeceira. Os remédios dela estão separados.— Obrigada.— Não precisa agradecer. É parte do acordo.A palavra caiu como um balde de água fria. Acordo. Tudo era acordo. Tudo era contrato. Até o quarto da minha mãe. Até as flores. Até a água.Apertei as mãos ao lado do corpo.Não se
A porta do quarto do hospital se abriu. Minha mãe estava sentada na cama, o rosto pálido, mas os olhos brilhando. Ela sorriu quando me viu, estendendo as mãos na minha direção. Eu sentei ao lado dela, segurei os dedos frios e ossudos. Apertei com cuidado, com medo de machucar. — Filha, você voltou. — A voz dela era fraca, mas tinha uma energia nova. Uma esperança. — Sempre volto, mãe. — Os médicos disseram que vou receber alta amanhã. — Ela apertou meus dedos. O sorriso se alargou. — Vou poder ver você e Gabriel vivendo juntos como um casal de verdade. Vou poder cuidar de vocês dois. O ar sumiu do meu peito. O sorriso congelou no meu rosto. Viver juntos. Como um casal de verdade. Com a minha mãe. — Amanhã? — a palavra saiu estranha. — Sim, filha. — Ela estava radiante. — Vou para casa. Para a casa de vocês. Minha garganta fechou. Eu sabia que tinha que fingir. Sabia que tinha que sorrir. Sabia que não podia deixar transparecer o pânico. — Que bom, mãe. — A mentira saiu doce
A luz entrava pelas frestas da cortina quando eu acordei.O quarto estava claro. Silencioso. O ar ainda cheirava a nós dois. Ao desejo. Ao que tinha acontecido na noite anterior.Sentei na cama. O lençol escorregou. O ar frio tocou minha pele nua.Olhei para o lado.Ele não estava ali.O travesseiro ainda tinha a marca da cabeça dele. O lençol ainda estava amassado.O corpo dele não.Onde ele está?, pensei. O coração apertou. Ele foi embora? Me deixou aqui sozinha?Senti o nó na garganta.Mas o nó não veio. Não veio ainda.Porque a vergonha veio primeiro.Vergonha.Vergonha de ter feito aquilo. De ter sido tão fácil. De ter sido tão entregue. De ter acreditado nas palavras que ele sussurrou na escuridão.Levantei. O corpo doía. Uma dor boa. Uma dor que lembrava tudo.Era a pior parte. A dor lembrava. Os músculos, a pele, a respiração — tudo lembrava.Toquei o lado dele na cama. O lençol ainda estava quente.Ele saiu agora há pouco. Ou faz tempo?Não sabia.O tempo não existia quando e





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