Mundo de ficçãoIniciar sessãoMinha mãe estava acordada quando entrei no seu quarto naquele hospital. Magra. Pálida. Os cabelos brancos espalhados sobre o travesseiro como fios de seda quebrada.
— Filha — ela sussurrou, estendendo a mão na minha direção. — Você veio.
Sentei ao lado da cama. Segurei os dedos frios dela. Ossudos. Trêmulos.
— Sempre venho, mãe.
— O médico disse que meu tratamento vai melhorar. Que alguém pagou. — Ela apertou minha mão com uma força que não parecia possível num corpo tão frágil. — Foi você, não foi? Você conseguiu o dinheiro?
Olhei para o rosto dela. As rugas profundas ao redor da boca. O cansaço nos olhos. O jeito que ela ainda sorria mesmo depois de tudo.
Sim, pensei. Consegui. Vendi um ano da minha vida para o homem mais insuportável de Nova York.
— Fui eu — menti. — Consegui.
— Como?
— Um… acordo. No trabalho.
— Que tipo de acordo?
— Um bom acordo, mãe. Só isso.
Ela me olhou por um longo segundo. As mesmas rugas de preocupação entre as sobrancelhas. O mesmo olhar que ela tinha quando eu mentia sobre ter comido antes de sair para a escola.
— Você está diferente — disse. — Seus olhos estão… apagados.
Meus olhos estão cansados, pensei. Meus olhos estão presos num contrato de doze meses com um homem que tem olhos de duas cores e alma de nenhuma.
— É o trabalho. Muito estresse.
— Você está mentindo.
— Não estou.
— Filha…
— Mãe, por favor. — Apertei as mãos dela com mais força do que deveria. — Deixa eu cuidar de você. Só isso. Deixa eu cuidar.
Ela não insistiu.
Mães sempre sabem quando não devem.
Fiquei ali até o final do horário de visitas. Contei histórias. Ri de piadas sem graça. Ignorei o peso no peito que não sumia.
Quando saí, o céu já estava escuro.
A chuva fina de Nova York molhava meu casaco.
E eu pensei em Gabriel.
No olho verde. No olho azul.
Na forma como ele disse “segunda-feira a guerra começa” como se fosse a coisa mais natural do mundo.
O metrô estava vazio na volta. Me recusei a ligar para o motorista dele. Queria permanecer nos meus últimos dias de vida normal.
Encostei a cabeça no vidro frio da janela e fechei os olhos. O vai-e-vem do vagão. O barulho dos trilhos. O cansaço que já tinha se instalado nos meus ossos.
Foi quando o meu celular vibrou.
Não era o hospital. Era o banco.
Depósito identificado: US$ 500.000,00.
Meio milhão de dólares.
Na minha conta.
Eu olhei para o número na tela. Os zeros. A quantidade de dinheiro que eu nunca imaginei ter na vida inteira.
Pronto, pensei. Você vendeu sua vida. O dinheiro está na conta. Não tem mais volta.
Antes que eu pudesse guardar o celular, ele vibrou de novo.
Dessa vez, o nome na tela fez meu estômago se contrair.
Gabriel Montenegro.
Atendi.
— Fala.
— Três coisas até amanhã às oito. — A voz dele veio direta. Sem pretexto. Sem "alô". — Lista de contatos de imprensa que você usou e conhece. Meu armário organizado para a semana. Perfil de cada jornalista que vai estar na coletiva.
— Gabriel, são quase nove horas. Minha mãe...
— Até amanhã às oito.
Ele desligou.
Olhei para a tela escura do celular.
Três coisas.
Sem "por favor". Sem "você consegue". Sem "descansa um pouco".
Apenas ordens.
Guardei o celular. Voltei para o meu apartamento no Brooklyn — o conjugado com infiltração, mofo e uma cama que rangia.
Trabalhei até as três da manhã.
A lista de imprensa ficou pronta às onze. Os perfis dos jornalistas, à uma. O armário dele eu teria que fazer pessoalmente — roupa era algo que eu não podia organizar sem ver as peças.
Deitei na cama vestida.
O sono veio como um soco.
Acordei às seis.
Banho frio. Café preto. O mesmo casaco de ontem.
No escritório, Gabriel ainda não tinha chegado.
Fui direto ao closet particular dele — uma sala escondida atrás do escritório principal, com paredes de cedro e luz indireta. Ternos alinhados por cor. Camisas engomadas. Sapatos brilhando como espelhos.
Separei por dia. Segunda, terça, quarta. Cada conjunto com anotações em post-its: reunião às 10h, jantar às 20h, evento externo.
Quando terminei, eram oito e quinze.
Atrasei quinze minutos.
Ele estava na mesa quando voltei. O olho verde e o olho azul se levantaram do monitor e cravaram em mim.
— A lista — eu disse, colocando o envelope na mesa. — Os perfis dos jornalistas estão anexados. O armário está organizado por dia e horário.
Gabriel não olhou para o envelope. Não olhou para os papéis. Olhou para mim.
— Atrasou quinze minutos — ele disse. Não era uma pergunta.
— Trabalhei até as três da manhã. O metrô demorou. O sinal...
— Não quero justificativas. Quero pontualidade.
— Você me deu três tarefas para fazer em menos de dez horas. Uma delas exigia que eu viesse até aqui. O que você esperava?
A voz saiu mais alta do que eu gostaria.
O olho azul brilhou. O verde escureceu.
Gabriel se levantou.
Vagarosamente.
Empurrou a cadeira para trás. Contornou a mesa. Veio na minha direção com passos lentos, controlados — como um predador que já sabe que a presa não tem para onde correr.
— O que eu esperava? — repetiu, parando a centímetros de mim. O cheiro amadeirado. O hálito de café. O calor que irradiava daquele corpo construído em academias e noites sem dormir. — Eu esperava que você fizesse o que foi contratada para fazer. Sem reclamar. Sem questionar.
— Eu fiz.
— Fez atrasada.
— Quinze minutos, Gabriel. Quinze.
— E se fossem quinze minutos em uma reunião com os japoneses? E se fossem quinze minutos em uma entrevista ao vivo? — Ele inclinou a cabeça. Os olhos de cores diferentes brilharam. — O contrato não começou oficialmente, Melissa. Mas quando começar, não vai haver tolerância para atrasos. Não vai haver "trabalhei até as três da manhã". Não vai haver "o metrô demorou".
Minhas mãos tremiam. Eu mantive elas firmes ao lado do corpo.
— Eu achei que poderia descansar esse final de semana — minha voz saiu mais baixa. Quase um sussurro. — Só dois dias. Para pensar. Para respirar. Antes do anúncio. Antes de tudo explodir.
Gabriel deu mais um passo.
Agora estávamos tão perto que eu conseguia ver os cílios dele. Longos. Escuros. Molhados de algum colírio ou cansaço.
— Você achou errado.
— Gabriel…
— Não entenda errado, Melissa. — A voz dele desceu. Grave. Quase perigosa. — Eu não vou casar com você porque tenho sentimentos. Isso é um contrato. Um acordo comercial. E em acordos comerciais, não existe final de semana. Não existe descanso. Não existe "respirar".
Ele ergueu a mão.
Por um segundo, achei que fosse tocar meu rosto.
Mas ele apenas tirou um fio de cabelo do meu ombro. O gesto foi lento. Quase íntimo. Quase cruel.
— Você não pode e nem deve decidir quando e como trabalhar — ele continuou, a mão agora de volta ao lado do corpo. — Eu contratei você. Eu pago você. Eu comprei você. E compra não tem folga.
O ar sumiu do meu peito.
Compra.
Ele disse aquilo como se fosse a coisa mais natural do mundo. Como se eu fosse um objeto. Uma ferramenta. Algo que se adquire e se usa até não servir mais.
— Você é um monstro — eu disse.
A palavra saiu antes que eu pudesse pensar.
Gabriel não se afastou. Não piscou. Não mostrou nenhuma reação.
Apenas me olhou. O olho verde brilhando. O azul, morto.
— Eu avisei — ele disse. — Você não acreditou. Agora aguente as consequências.
Ele se virou.
Voltou para a mesa.
Sentou.
Abriu o envelope com a lista de contatos.
— Pode sair — disse, sem olhar para mim. — Segunda-feira às oito em ponto na cobertura. O motorista vai buscar você.
Eu não me mexi.
— Melissa. — O olho azul encontrou o meu. Depois o verde. — Pode sair.
Saí.
No corredor, minhas pernas fraquejaram.
Apoiei a mão na parede de vidro fumê.
Compra.
Ele disse compra.
Como se eu fosse um carro. Um imóvel. Um objeto.
Eu contratei você. Eu pago você. Eu comprei você.
Respirei fundo. O ar gelado do ar-condicionado entrou nos meus pulmões como facas.
O que você fez, Melissa?
Olhei para as minhas mãos. Os dedos ainda tremiam. O envelope com a lista de contatos não estava mais comigo — ficou na mesa dele. Junto com os perfis dos jornalistas. Junto com a minha dignidade.
Você assinou um contrato com o diabo.
E o diabo tinha olhos de cores diferentes, um sorriso que não chegava aos lábios e uma voz que conseguia transformar qualquer palavra em veneno.
E agora você vai ter que conviver com ele. Um ano inteiro. Sem descanso. Sem folga. Sem respirar.
Fechei os olhos.
Sobreviva, eu disse para mim mesma. Você sempre sobrevive.
Mas, pela primeira vez, eu não tinha tanta certeza.







