Mundo de ficçãoIniciar sessãoO silêncio durou cinco segundos. Talvez dez. O suficiente para eu ouvir meu próprio sangue pulsando nas têmporas.
Respira, Melissa, falei para mim mesma. Mas tudo que eu conseguia ver era o rosto da minha mãe no hospital. Os tubos. O som da máquina que não desligava. A enfermeira dizendo "sinto muito" como se já estivesse se preparando para o pior.
Os boletos vencendo. As cartas do banco. As ligações de cobrança que eu atendia em silêncio, sem saber o que dizer.
Meu pai. O sorriso dele no dia que sumiu. O abraço apertado que devia ter me dito tudo, mas eu não soube ler.
O peso de carregar o mundo sozinha. Todos os dias. Toda noite. Todo segundo.
E, do outro lado da balança, este homem. Este homem frio, calculista, emocionalmente inacessível. Este homem que gritava com funcionários, que tratava pessoas como números, que tinha uma ex-noiva psicopata e uma mãe que o abandonou por causa da cor dos olhos.
Olhei para ele. O mesmo homem que estava com a vida desmoronando exatamente como a minha. A diferença é que ele tinha dinheiro para comprar uma saída. E eu era a saída que ele escolheu.
Não era amor. Nunca foi.
Era sobrevivência.
Você não é a escolhida. Você é a solução.
— Certo — eu disse. Minha voz não tremeu. Meus olhos não marejaram. Eu sou mais forte do que isso. — Eu aceito.
Gabriel não se mexeu. Apenas me olhou.
Um segundo. Dois. Três.
O olho verde brilhou. O azul, não. O azul ficou escuro, quase preto.
— Você não vai se arrepender? — perguntou. A voz estava estranha. Diferente. Como se ele não soubesse o que fazer com a resposta que eu tinha acabado de dar.
— Vou. Provavelmente todos os dias.
— E mesmo assim vai ficar?
— Eu não tenho para onde ir. — A verdade nua. Crua. Feia. Eu não ia embelezar aquilo para poupar o ego dele. — Você sabe disso. Por isso fez a proposta.
Ele não negou. Apenas sustentou meu olhar.
— O contrato fica pronto amanhã — disse, recuando. A distância entre nós voltou a ser segura. Profissional. Gelada. — Você lê. Assina. Segunda-feira anunciamos o noivado.
— Segunda-feira? — franzi a testa. — Estamos a dois dias de um escândalo bilionário e você quer esperar até segunda?
— Preciso de tempo para convencer o conselho de que isso é uma boa ideia. E você precisa de tempo para… — ele hesitou. A primeira hesitação verdadeira desde que entramos nessa sala. — …para pensar se quer mesmo fazer isso.
Um segundo de vulnerabilidade. Talvez o único que ele fosse me mostrar em um ano inteiro.
— Já pensei. — respondi, sem hesitar. — Preciso do dinheiro. Você precisa de uma esposa. É um acordo justo. Não finja que isso é outra coisa além do que é.
Negócio.
A palavra ficou suspensa entre nós, escura e pesada.
Gabriel me estudou mais um segundo. Depois mais outro. Como se procurasse alguma coisa no meu rosto — hesitação, medo, alguma brecha que mostrasse que eu não era tão fria quanto fingia.
Ele não encontrou. Porque eu não deixei.
— Você é fria — ele disse.
— Você me ensinou.
— Eu te ensinei a ser fria?
— Você me ensinou que sentimentos não pagam contas. — Peguei minha bolsa. O couro gasto, a alça costurada duas vezes. — Segunda-feira, então.
— Melissa.
Parei na porta. Não me virei.
— Obrigado.
Uma palavra. Baixa. Quase inaudível.
Gabriel Montenegro agradecendo. Deve ser a primeira vez na vida dele.
Balancei a cabeça — um gesto pequeno, quase imperceptível. E saí.
No corredor, o celular vibrou.
Hospital. Mais uma mensagem. Mais uma cobrança. A quarta do dia.
Derrubaram a taxa de novo. Minha mãe precisava do medicamento até amanhã.
Fechei os olhos.
Apoiei a testa na parede fria de vidro fumê.
E fiquei ali. Um segundo. Dois. Cinco.
Tempo suficiente para sentir o peso de tudo. O cansaço nos ossos. O medo no estômago. A raiva — aquela raiva surda de saber que eu não tinha escolha, que nunca tive, que talvez nunca tivesse.
Um ano, pensei. É só um ano.
Depois eu sumo. Compro uma casa em algum lugar bonito. Cuido da minha mãe. Reconstruo minha vida.
Sem ele.
Sem Gabriel. Sem os olhos de cores diferentes. Sem o cheiro amadeirado do perfume. Sem a forma como ele diz meu nome como se fosse a única palavra que importa.
Sem ele.
Por que doeu pensar nisso?
Abri os olhos. Endireitei os ombros. Guardei o celular.
Porque você é humana, Melissa. Porque por mais que finja, você ainda sente.
Guardei aquela voz no fundo da mente. Tranquei a porta. Joguei a chave fora.
Eu iria sobreviver. Não iria?







