CAPÍTULO 3

— O quê?

A palavra saiu antes que eu pudesse pensar. Só saiu. Seca. Direta. Exatamente como eu me sentia naquele momento.

— Case comigo — ele repetiu. A voz estava baixa. Grave. Certa demais. Como se já soubesse que eu ia dizer sim antes mesmo de eu saber. — Um ano. Contrato legítimo.

Olhei para ele. Realmente olhei. O rosto cansado, as olheiras fundas que a maquiagem da riqueza não conseguia esconder, a mandíbula tensa como pedra. Os olhos — aquele absurdo de um verde e um azul — estavam fixos em mim com uma intensidade que me tirava o ar.

— Você está louco — eu disse. Mas minha voz já não estava tão firme.

— Estou desesperado. São coisas diferentes.

Ele não se mexeu. Continuava a centímetros de mim. Eu sentia o calor do corpo dele, o cheiro amadeirado do perfume misturado com alguma coisa mais forte — estresse, talvez. Café. Noites sem dormir.

— Você precisa de dinheiro, Melissa. — A voz dele baixou ainda mais. Agora era quase um sussurro. — Eu sei das contas do hospital. Eu sei do seu pai. Eu sei que você está se afogando e fingindo que sabe nadar.

Meu sangue gelou.

Não porque ele soubesse. Mas porque ele falou aquilo como se fosse a coisa mais natural do mundo. Como se tivesse o direito de saber. Como se a minha vida fosse um arquivo aberto na mesa dele.

— Você vasculhou minha vida. — Minha voz saiu baixa. Controlada. Mas por dentro, alguma coisa se revirava. Raiva. Vergonha. Medo.

— Você trabalha para mim. Saber da sua vida é minha obrigação.

— É invasão. É — procurei a palavra certa — nojento.

O olho azul brilhou. O verde escureceu.

— É negócio. — Ele deu um passo para trás. O ar gelado do ar-condicionado voltou a tocar minha pele. — Você aceita o contrato, eu pago todas as dívidas da sua família. Sua mãe faz o tratamento. Você respira de novo.

Respirar. Aquela coisa simples que eu não fazia direito há meses. Acordar sem o peso de saber que a conta do hospital tinha vencido. Dormir sem calcular quanto faltava para o próximo pagamento. Viver sem aquela corda invisível no pescoço apertando um pouco mais a cada dia.

— E eu ganho a esposa perfeita para a imprensa — ele continuou, como se estivesse lendo minha mente. — Alguém discreta. Inteligente. Que já sabe como eu funciono.

— E depois de um ano? — perguntei. Não porque eu me importasse. Mas porque precisava ouvir.

— Depois de um ano, você pega seu dinheiro, compra uma casa em algum lugar bonito e esquece que eu existi.

— Regras — eu disse, realmente considerando aquele absurdo. — Quais são?

Ele ergueu a sobrancelha. Não esperava que eu fosse direta. Talvez esperasse lágrimas. Dramas. Talvez esperasse que eu caísse aos pés dele de joelhos, agradecendo pela esmola de um milhão de dólares.

Ele não me conhecia.

— Sem amor — ele disse, enumerando nos dedos. — Sem ciúmes. Sem filhos. Quartos separados.

— Nada de sexo? — A pergunta saiu mais prática do que desconfortável. Porque eu não estava desconfortável. Isso era negócio.

— O contrato não proíbe. Mas não exige.

Anotei mentalmente. Cláusulas vagas. Perigoso.

— Quanto? — perguntei.

— Um milhão de dólares. Pagamento integral no divórcio.

Balancei a cabeça.

— Meio milhão na assinatura. O resto no divórcio.

Ele hesitou. A veia no pescoço pulsou. Eu vi o cálculo acontecendo atrás daqueles olhos de cores diferentes — o homem de negócios pesando prós e contras, riscos e benefícios.

— Quinhentos mil na assinatura — ele concordou. — Quinhentos mil no divórcio.

— Um milhão no divórcio. Você não vai sentir falta.

O canto da boca dele se curvou. Quase um sorriso.

— Você é boa nisso.

— Sou boa no que faço. Por isso você me contratou.

Por isso você está me pedindo em casamento, pensei. Porque eu sou útil. Porque eu funciono. Porque eu não quebro.

A verdade é que eu já estava quebrada. Só aprendi a fingir que não.

Gabriel caminhou até a mesa. Pegou uma caneta. Girou entre os dedos. Um hábito nervoso que poucos viam.

— Tem mais uma coisa — ele disse, sem olhar para mim.

— Fala.

— A imprensa vai investigar você. Vão querer saber de onde você veio, quem é sua família, por que aceitou casar comigo. — Ele levantou os olhos. O verde e o azul brilharam sob a luz do fim da tarde. — Vão tentar destruir você para me destruir. Camila vai liderar o coro.

Engoli em seco.

— Eu sei me defender.

— Não é de você que eu estou falando. É da sua mãe. É do seu pai. É das dívidas. Tudo vai vir à tona. Tudo vai ser usado contra nós.

— E o que você sugere? Que eu desista antes de começar?

— Estou sugerindo que você saiba no que está se metendo. — Ele jogou a caneta sobre a mesa. O estalo ecoou pelo escritório. — Não vai ser um casamento de conto de fadas. Vai ser uma guerra. E você vai estar na linha de frente.

Uma guerra.

Eu já estava em uma guerra. Só não tinha ninguém lutando ao meu lado.

— Quantos dias eu tenho para pensar? — perguntei. Porque mesmo sabendo a resposta, mesmo sabendo que eu ia aceitar, eu precisava daquele tempo. Precisava fingir que tinha escolha.

— Nenhum. — Gabriel se aproximou de novo. Agora eu sentia o hálito dele; café e menta. — A imprensa vai destruir minha empresa em quarenta e oito horas. O contrato com os japoneses cai amanhã se eu não aparecer com uma solução. As ações já estão despencando.

Ele parou a centímetros de mim.

— Eu preciso de uma resposta agora.

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