Mundo de ficçãoIniciar sessãoDuas horas e quarenta e sete minutos.
Foi o tempo que levei para refazer o contrato do zero, revisar cada cláusula e ainda tomar café suficiente para não desmaiar em cima do teclado.
Gabriel não reclamou do atraso. Isso já era um sinal de que algo estava errado.
Ele passou a manhã inteira em ligações. Porta fechada. Voz baixa. E aquele olhar — os dois olhos de cores diferentes fixos na tela do computador como se estivesse assistindo o próprio funeral.
Eu conhecia aquela expressão.
Era o rosto que ele fazia quando o mundo estava desmoronando e ele fingia que nada tinha acontecido.
— Terminou? — perguntou, sem tirar os olhos da tela, quando coloquei os documentos na mesa dele.
— Revisei três vezes. Todas as cláusulas estão dentro do exigido.
Ele nem olhou para os papéis. Assinou em silêncio.
— Gabriel… — comecei, contra meu melhor julgamento. — Você está bem?
O olho azul gelado encontrou o meu primeiro. Depois o verde floresta. Um segundo de cada cor. Como dois veredictos diferentes sobre a mesma alma.
— Não faça perguntas que você não quer ouvir a resposta.
E assim, ele me dispensou.
O escritório ao lado do dele era pequeno. Gabriel mandou instalar ali quando me contratou — disse que não queria ficar gritando pelo interfone toda vez que precisasse de algo.
"Se você vai ser minha assistente pessoal, vai ser pessoal mesmo."
Na época, eu não sabia se aquilo era um elogio ou uma ameaça.
Hoje, continuo sem saber.
Sentei e abri meu laptop. Tinha e-mails para responder, a vida inteira de um bilionário para administrar enquanto a minha própria pegava fogo.
O celular vibrou.
Hospital.
“Sra. Santoroprecisa de autorização para o novo tratamento. O valor é de R$ 47.000,00. A conta total em aberto é de R$ 82.300,00.”
Oitenta e dois mil.
Eu ganhava bem. Quinze mil por mês. Mas minha mãe estava internada há oito meses. Meu pai tinha sumido depois de deixar uma dívida de duzentos mil que eu nem sabia que existia.
Era como tentar encher um balde furado.
Antes que eu pudesse abrir o primeiro e-mail, a porta do escritório de Gabriel se abriu com violência. O vidro fumê bateu na parede.
— Melissa! — a voz dele ecoou pelo corredor. — Vem aqui. AGORA.
Corri.
Quando entrei, ele estava de pé atrás da mesa, as duas mãos apoiadas no mogno, a cabeça baixa. A televisão de setenta polegadas na parede estava ligada.
Manchete em vermelho:
MONTENEGRO CORP: ESQUEMA DE SUBORNO E PROPINA?
Documentos vazados indicam que o CEO Gabriel Montenegro teria pago propina a autoridades internacionais.
Meu coração parou.
— O que… — minha voz sumiu.
— Alguém plantou documentos falsos no sistema — ele levantou a cabeça. Os olhos de cores diferentes queimavam. — Documentos que não existem. Mas que agora estão na mão da imprensa, do Ministério Público e de cada acionista que eu tenho.
A voz dele estava calma demais.
Isso era péssimo.
— Quem faria isso? — perguntei, embora já soubesse a resposta.
Ele riu. Um riso curto, sem humor.
— Quem você acha?
Camila.
Camila Montenegro. A ex-noiva. Herdeira de uma das famílias mais ricas de Nova York. Loira. Elegante. Sorriso perfeito. E uma crueldade tão bem escondida que só quem convivia com ela percebia.
Ela tinha tentado voltar três vezes nos últimos meses. Ele recusou as três.
— Os documentos vazados são falsos, certo? Dá para provar?
— Dá. Em três meses de perícia.
— Três meses? A empresa não sobrevive três meses com essa acusação. O contrato com os japoneses cai amanhã.
Gabriel me olhou. O olho verde parecia cansado. O azul, furioso.
— A única saída rápida — falei devagar — é mudar a narrativa. Um anúncio. Algo maior que o escândalo. Família. Tradição. Estabilidade.
Gabriel estreitou os olhos.
— Meu casamento com Camila ia fazer exatamente isso.
Ia. Passado.
— Você ainda pode se casar — eu disse, sem pensar. — Com outra pessoa.
Silêncio.
O tipo de silêncio que vem antes de tempestades.
— Melissa — ele falou meu nome como se estivesse experimentando um veneno novo. — O que você está sugerindo?
— Nada. Só estou dizendo que, tecnicamente, casar agora resolveria o problema de imagem.
Tecnicamente.
Ele se afastou da mesa. Caminhou até a janela. As costas largas, os ombros tensos.
— Camila ligou há vinte minutos — disse, de costas para mim. — Disse que não vai mais me ajudar. Que o escândalo é grande demais e que ela não vai sujar o nome da família dela por minha causa.
— Ela causou o escândalo, Gabriel.
— Eu sei.
— E mesmo assim ela…
— Ela jogou o jogo dela. E eu perdi.
Ele se virou de repente. O olho verde flamejou. O azul gelou.
— Mas não vou perder tudo.
Naquele momento, o celular dele tocou. Depois o meu. Depois os dois ao mesmo tempo.
Imprensa. Conselho. Acionistas. Advogados.
O inferno.
Atendemos. Apagamos incêndios. Por duas horas, fui secretária, negociadora, psicóloga e alvo de gritos que não merecia.
Quando finalmente o último telefone silenciou, me apoiei na parede do escritório dele e deixei a cabeça cair para trás.
— Eu preciso de um café — sussurrei.
— Você precisa de mais do que café.
Abri os olhos.
Ele estava na minha frente. Muito perto. O cheiro amadeirado do perfume dele invadiu meus sentidos. E aqueles olhos — verde e azul — estavam fixos nos meus.
— Gabriel…
— Case comigo.







