CAPÍTULO 5

O contrato chegou no dia seguinte às nove horas da manhã.

Um envelope pardo. Grosso. Pesado. Sem identificação de remetente. O porteiro entregou pessoalmente no meu apartamento — um conjugado no Brooklyn que eu mal conseguia pagar, com infiltração no teto da cozinha e um cheiro de mofo que nunca sumia.

Sentei na cama. Abri.

Quatorze páginas. Fonte tamanho dez. Espaçamento simples. Cláusulas e subcláusulas. Juridiquês que faria qualquer um desistir antes da terceira linha.

Eu li cada palavra.

Cláusula 1 — Duração: 12 meses a partir da data da assinatura. Prorrogação automática não permitida.

Cláusula 2 — Obrigações da contratada (Melissa Moreira): Apresentar-se publicamente como esposa de Gabriel Montenegro. Participar de eventos sociais, entrevistas programadas e compromissos de imprensa previamente agendados. Manter conduta irrepreensível durante a vigência do contrato.

Conduta irrepreensível.

Tradução: não ser pega em escândalos. Não dar motivo para a imprensa duvidar do casamento perfeito.

Cláusula 3 — Obrigações do contratante (Gabriel Montenegro): Providenciar moradia, alimentação, vestuário adequado aos eventos e assistência médica integral. Pagar à contratada o valor de US$ 500.000,00 (quinhentos mil dólares) no ato da assinatura. Pagar o valor remanescente de US$ 500.000,00 (quinhentos mil dólares) na data do divórcio.

Cláusula 4 — Rescisão antecipada: Em caso de descumprimento de qualquer cláusula por parte da contratada, o valor já pago deverá ser devolvido integralmente, corrigido pela inflação.

Devolvido.

Se eu errasse — um sorriso no lugar errado, uma palavra fora do tom, um momento de fraqueza — eu teria que devolver o dinheiro.

Dinheiro que já teria gasto com o tratamento da minha mãe.

Ela não sobreviveria a isso. Eu também não.

Cláusula 5 — Relações pessoais: As partes declaram que não mantêm vínculo emocional ou afetivo. Não haverá cobrança de fidelidade. Não haverá obrigação de relações sexuais. Caso ocorram, não configuram alteração contratual.

Li essa cláusula três vezes.

Não haverá cobrança de fidelidade.

Ele podia ficar com quem quisesse. E eu também.

A teoria era bonita.

A realidade eu descobriria depois.

Cláusula 6 — Filhos: Não serão permitidos.

Seca. Direta. Sem margem para interpretação.

Não serão permitidos.

Engoli em seco.

Não que eu quisesse ter um filho com Gabriel Montenegro. O homem era um furacão de ódio e arrogância. Mas ler aquilo — a frieza com que a palavra foi escrita, como se filhos fossem um problema logístico e não uma vida — me fez sentir alguma coisa que eu não consegui nomear.

Alívio? Talvez.

Tristeza? Não. Não podia ser.

Assinei na última página. Caneta preta. Caligrafia firme.

Depois fechei o envelope e fiquei olhando para ele por um longo minuto.

Pronto, pensei. Você vendeu sua vida por quinhentos mil dólares.

Duzentos e cinquenta mil vão para o hospital.

Cem mil para pagar as dívidas do meu pai.

O resto para recomeçar.

Se sobrar alguma coisa de você depois de um ano ao lado dele.

Quando cheguei ao escritório de Gabriel estava vazio.

Estranho. Ele sempre chegava antes de mim.

Deixei o envelope sobre a mesa de mogno. A caneta que ele usava no dia anterior ainda estava ali, jogada ao lado do teclado. O café da manhã — um pão integral meio mordido e um suco verde — permanecia intocado.

Ele não dormiu, pensei. Ou dormiu mal.

Por algum motivo, isso me incomodou.

Não porque eu me importasse. Porque era um sinal. Gabriel Montenegro sem controle era perigoso. E se ele estava sem controle, eu também estaria.

— Você veio.

A voz veio de trás de mim.

Quase não me virei.

Ele estava no batente da porta. Terno cinza escuro. Camisa preta. Sem gravata. Os olhos de cores diferentes estavam vermelhos de cansaço. As olheiras tinham se aprofundado em apenas uma noite.

— O contrato está na mesa — eu disse. — Assinei.

Ele olhou para o envelope. Depois para mim.

— Leu tudo?

— Cada palavra.

— E mesmo assim assinou?

— Especialmente por causa disso.

Gabriel caminhou até a mesa. Abriu o envelope. Leu a última página — a que eu tinha assinado. Passou o dedo sobre minha caligrafia. Um gesto lento. Quase íntimo.

— Sua letra é bonita — ele disse.

— Sua letra é ilegível. Por isso tudo é digitado.

Ele quase sorriu. Quase.

— O advogado vem às catorze horas para autenticar as assinaturas. Depois disso, o dinheiro cai na sua conta em até vinte e quatro horas.

Vinte e quatro horas.

Minha mãe podia fazer o tratamento amanhã.

— E o anúncio? — perguntei.

— Segunda-feira. Concedo uma entrevista coletiva. Você fica ao meu lado. Sorri. Segura minha mão. E o mundo inteiro vai acreditar que o homem mais frio de Nova York finalmente se apaixonou.

— E depois?

— Depois? — Ele se virou para a janela. A cidade lá embaixo brilhava como uma ferida aberta. — Depois a gente sobrevive.

Sobrevive.

A mesma palavra que eu usei para mim mesma.

Dois quebrados. Tentando sobreviver.

— Preciso ver minha mãe — eu disse. — Antes do anúncio. Antes da imprensa descobrir quem eu sou.

Gabriel não se virou.

— Leve o carro da empresa. O motorista espera.

— Eu sei andar de metrô.

— A partir de agora, você não é mais uma pessoa que anda de metrô. Você é a futura senhora Montenegro. — Ele finalmente me olhou por cima do ombro. O olho azul brilhava gelado. O verde, quente. A contradição de sempre. — Comece a agir como tal.

A frase ficou no ar.

Futura senhora Montenegro.

Um sobrenome que não era meu. Uma vida que eu não escolhi. Uma gaiola de vidro e aço que eu mesma entrei.

— Vá ver sua mãe — ele disse, sem olhar para trás. — Descanse. Segunda-feira a guerra começa.

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