Mundo de ficçãoIniciar sessãoRaul Maldonado não acredita no amor. Conhecido como o homem mais frio e perigoso da Itália, ele construiu um império onde tudo tem preço — e sentimentos não fazem parte do acordo. Chamado por muitos de “O MAL”, Raul domina o mundo dos negócios com poder, riqueza… e controle absoluto. Até que Zoe Pyersen cruza o seu caminho. Sozinha, abandonada grávida pela família e pelo homem que prometeu ficar, Zoe fugiu dos Estados Unidos em busca de recomeço. Agora, em Nápoles, tudo o que ela tem é sua filha de dois anos… e a força para não quebrar. Mas o destino não pede permissão. Quando Raul lhe propõe um acordo frio, sem espaço para amor… Zoe aceita. Sob o mesmo teto, entre regras, silêncio e tensão, duas almas completamente opostas se veem presas em um jogo perigoso — onde o controle pode se transformar em desejo… e o acordo pode custar muito mais do que eles imaginavam.
Ler maisPOV RAUL
O homem chorava o som ecoava pelo galpão vazio, misturado ao pingar lento de alguma infiltração no teto, um gotejar insistente que parecia marcar o tempo daquela cena com uma precisão incômoda. Era um lugar esquecido, afastado da cidade, onde ninguém faria perguntas… e, mais importante, onde ninguém ouviria respostas. Eu permaneci sentado na sombra, sem pressa, sem qualquer urgência em encerrar aquilo. O charuto entre meus dedos queimava devagar, a brasa acendendo e apagando como um pulso discreto no meio da escuridão, preenchendo o ar com o cheiro forte do tabaco que contrastava com o odor metálico que já começava a se espalhar pelo ambiente. — Por favor… eu posso explicar… Sempre podem. Inclinei levemente a cabeça, observando-o com atenção silenciosa. Ele estava de joelhos, o corpo curvado para frente, como se o próprio peso da culpa o esmagasse contra o chão frio de concreto. Havia sangue seco na lateral do rosto e as mãos tremiam tanto que mal conseguiam se manter apoiadas, escorregando de vez em quando, denunciando o descontrole que ele tentava esconder. Curioso. Até poucos dias atrás, aquele mesmo homem atravessava os corredores da minha empresa com passos firmes, terno caro perfeitamente ajustado, postura ereta e um olhar que beirava a arrogância de quem acredita que pertence àquele lugar. Agora… implorava. É impressionante como as pessoas revelam quem realmente são quando tudo o que sustenta a aparência delas é arrancado. — Explicar? — repeti, com a voz baixa, quase desinteressada, como se aquilo fosse apenas mais uma conversa qualquer. Ele assentiu rápido demais, ansioso, desesperado para se agarrar a qualquer brecha. Erro. — Foi um erro… eu… eu estava sendo pressionado… eu posso devolver o dinheiro, cada centavo, eu juro… Soltei uma breve expiração pelo nariz, sem alterar a expressão. Dinheiro. Sempre voltam ao dinheiro, como se tudo pudesse ser reduzido a números, como se qualquer falha pudesse ser corrigida com uma transferência bancária. Traguei o charuto lentamente, deixando que a luz da brasa iluminasse parte do meu rosto por um segundo. Foi o suficiente para ver o momento exato em que o olhar dele mudou, quando o desespero deu lugar ao medo real, aquele que não se esconde atrás de palavras. — Quanto foi? — perguntei, com calma. Ele hesitou. Erro número dois. — E-eu… Um dos homens ao lado dele não teve a mesma paciência e acertou um chute forte nas costelas, fazendo o corpo dele se curvar ainda mais enquanto um grito rouco escapava sem controle. — Fala direito com o chefe! Levantei a mão, sem sequer olhar na direção deles. O efeito foi imediato. O silêncio caiu como uma ordem invisível, pesada, incontestável. Controle não precisa de força. Precisa de presença. — Quanto — repeti, mais devagar, deixando cada palavra cair com precisão — você roubou de mim? Ele fechou os olhos por um instante, como se aquilo pudesse poupá-lo de alguma coisa, e então respondeu com a voz quase inexistente: — Duzentos mil… Balancei levemente a cabeça, negando. — Não. Levantei o olhar e encarei-o diretamente pela primeira vez. E foi o suficiente. Os olhos dele se arregalaram, o corpo inteiro enrijeceu, como se naquele exato momento ele finalmente tivesse entendido o que realmente estava acontecendo ali. — Você roubou muito mais do que dinheiro. O silêncio que se seguiu foi pesado, carregado de significado. Levantei-me com calma, ajustando o paletó enquanto o som do sapato contra o concreto ecoava pelo galpão, cada passo calculado, medido, inevitável. Caminhei até ele sem pressa, deixando que a tensão crescesse no intervalo entre um movimento e outro. Parei diante dele. — Você roubou tempo, — continuei, olhando para aquelas mãos trêmulas. — roubou confiança… e, principalmente, roubou a ilusão de que eu estava cercado por profissionais competentes. Abaixei o olhar para os dedos dele, sujos, instáveis, mãos que dias atrás assinavam contratos e movimentavam valores que sustentavam parte do meu império. — Eu trabalho com precisão — acrescentei, inclinando levemente a cabeça. — Tudo o que me pertence é controlado. Cada detalhe, cada número, cada pessoa. Ergui novamente os olhos. — Inclusive as perdas. Ele começou a chorar de novo, agora sem tentar esconder, o desespero escorrendo junto com as palavras. — Eu tenho família… por favor… eu tenho filhos… eu só queria dar uma vida melhor pra eles… Fechei os olhos por um breve segundo, não por empatia, mas por puro cansaço daquela justificativa previsível. — Todos têm alguma coisa a perder — murmurei, abrindo os olhos novamente. E era exatamente por isso que consequências existiam. Fiz um gesto simples com a mão. Não precisei dizer nada. Os homens ao redor entenderam imediatamente, movendo-se com precisão. O desespero dele explodiu. — NÃO! POR FAVOR! EU DEVOLVO! EU DEVOLVO TUDO! Não me movi. Não desviei o olhar. Não alterei um único músculo da expressão. — Eu não preciso que você devolva — respondi com calma. Dei um passo mais perto. — Eu preciso que você aprenda. O grito veio logo depois. Alto. Cru. Desesperado. Ecoando pelo galpão como um aviso que ficaria gravado na memória de todos ali. E então… silêncio. Ajoelhei-me à frente dele, observando com atenção o tremor descontrolado do corpo, a respiração falha, a dor estampada de forma irreversível. — Isso — falei, mantendo o olhar fixo no dele — é para que você nunca mais confunda oportunidade com fraqueza. Levantei-me com tranquilidade, ajeitando o paletó como se estivesse apenas encerrando uma reunião qualquer. Olhei ao redor, avaliando o ambiente, cada detalhe sob controle, exatamente como deveria estar. — Levem ele para um hospital. Um dos homens hesitou por um segundo, talvez esperando uma ordem diferente, algo mais definitivo. — Senhor… e depois? Olhei por cima do ombro, a resposta vindo sem esforço. — Depois… ele aprende a viver com as próprias escolhas. Caminhei em direção à saída, o som da porta de metal sendo aberta cortando o silêncio restante. Antes de atravessar, parei por um breve instante, não o suficiente para parecer dúvida, apenas o bastante para reforçar o que precisava ser dito. — E deixem claro. Ninguém se moveu. Ninguém respirou mais alto. — Quem rouba de Raul Maldonado… paga o preço. Saí. A noite me recebeu com um ar frio e limpo, contrastando com o ambiente que deixei para trás. As luzes da cidade brilhavam ao longe, indiferentes ao que acontecia nas sombras que sustentavam aquele mesmo mundo. Traguei o restante do charuto, soltando a fumaça devagar, observando-a se dissipar no ar como tudo que não tem peso suficiente para permanecer. Controle. Sempre foi isso. Desde o momento em que entendi que ninguém viria me salvar. Desde o instante em que vi que o mundo não recompensa fraqueza… apenas a explora. Joguei o charuto no chão e o apaguei com o sapato, firme, sem hesitação. No meu mundo… não existe espaço para erros. Muito menos para misericórdia. E definitivamente… não existe espaço para amor.POV ZOEQuando chegamos a Nápoles, a noite já tinha caído.As luzes da rodoviária brilhavam de um jeito cansado, amarelado, como se até elas soubessem que ali chegavam mais perdidos do que esperançosos. Havia vozes por toda parte, o cheiro de café velho, fumaça, fritura, gente apressada, ônibus chegando, outros saindo. Segurei a mãozinha da Lira e a mala ao mesmo tempo, tentando parecer mais segura do que me sentia.Eu tinha pesquisado tudo. Sabia o nome do hostel, sabia que ficava perto dali, sabia que precisava passar uma noite barata antes de procurar algo mais fixo pela manhã. Tinha repetido o endereço tantas vezes na cabeça que ele parecia uma oração.Só mais uma noite, eu disse a mim mesma. Só mais uma noite e amanhã eu resolvo.Lira, sonolenta, apoiou a cabeça na minha perna enquanto eu parei por um segundo para pegar o celular na bolsa e conferir o endereço mais uma vez. Foi por isso que não percebi na mesma hora.Um esbarrão.Depois outro.Uma voz perguntando alguma coisa ráp
POV ZOE Dizem que recomeçar do zero é a melhor forma de curar um coração sangrando. Eu queria muito acreditar nisso. Na verdade, eu precisava acreditar, porque quando você atravessa um oceano inteiro com uma criança de dois anos nos braços e uma mala que carrega mais fracassos do que roupas, a esperança deixa de ser um luxo. Ela vira obrigação. Meu nome é Zoe Pyersen. Tenho vinte e dois anos. Saí de Nova Orleans rumo a Nápoles com a minha filha e uma coragem que, se me perguntassem com sinceridade, eu não saberia dizer de onde tirei. Talvez do desespero. Talvez do medo de continuar no mesmo lugar e ver a minha vida apodrecer diante dos meus olhos. Talvez daquela parte de mim que se recusa a morrer, mesmo depois de tudo. Nunca tive ninguém de verdade por mim. Essa é a parte mais feia da minha história, e também a mais simples. Nasci mulher na família errada. Na casa errada. No colo errado. Meu irmão, Luke, sempre foi o filho querido, o orgulho, o menino de ouro que fazia todo mundo
POV FLORARaul parou diante de mim com aquele olhar sério de sempre, como se o mundo inteiro dependesse do próximo passo dele. Eu continuei tricotando, sem levantar os olhos de imediato, só para provocar. Ele odiava quando eu fingia que não estava prestando atenção.— Nonna, fique em casa hoje. E cuide da sua pressão.Bufei, erguendo o olhar devagar, como se aquilo fosse a coisa mais absurda que eu já tivesse ouvido na vida.— Não sou uma criança, Raul. Já tenho setenta e nove anos.Ele sorriu de lado, aquele sorriso contido que pouca gente via.— Mas tem atitudes iguais.Revirei os olhos e, sem pensar muito, joguei o novelo de lã na direção dele. Não com força suficiente para machucar, mas o bastante para marcar meu ponto. Ele segurou no ar com facilidade, como se já esperasse por aquilo.— Teimoso — resmunguei.Ele deu um passo à frente, aproximando-se de mim, e então fez algo que ninguém mais naquele mundo via.Abaixou-se levemente.— Bença, nonna.Meu coração sempre amolecia nesse
POV RAULPassei no quarto da minha avó mais vezes do que considerei necessário naquela manhã.Na primeira, ela ainda dormia, a respiração tranquila, o rosto sereno de quem parecia não carregar o peso das próprias manipulações. Julia estava ao lado da cama, ajustando os lençóis com cuidado, e garantiu que ela havia descansado bem. Assenti, mas não respondi. Na segunda vez, Otília já estava lá, conferindo a medicação e repetindo exatamente a mesma coisa: a noite tinha sido tranquila, a pressão estava controlada, não havia motivo para preocupação.Mesmo assim, voltei uma terceira vez.Ela continuava dormindo.E, ainda assim, algo em mim não aceitava aquilo como suficiente.Fiquei alguns segundos parado na porta, observando-a em silêncio. Pequena demais naquela cama grande, frágil de uma forma que não combinava com a mulher que, poucas horas antes, discutia tempero como se estivesse comandando um exército.Levei a mão ao nariz, pressionando levemente.Controle.Era só isso.Saí do quarto










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