Mundo de ficçãoIniciar sessão— Você responde a mim. Apenas a mim. Elara aceitou ser babá para salvar a vida da avó. Mas ninguém a avisou que o homem por trás do contrato era casado, dominante — e perigoso. E principalmente, alguém do seu passado que ela lutava por apagar. Preso a um casamento tóxico, Dante Herrera vive de contratos, controle e silêncio. Ela deveria cuidar apenas da criança. Ele deveria manter distância. Mas limites começam a ruir dentro daquela mansão. Uma babá proibida. Um homem casado. E um desejo que nunca deveria existir. Quando sentimentos entram em um contrato, quem paga o preço final?
Ler maisEu tinha dois dias para conseguir cinco mil reais.
Dois dias para salvar minha avó.
Ou para assistir enquanto ela morria sabendo que eu não consegui.Dois dias. Era tudo o que me restava antes que os médicos desligassem a palavra talvez e começassem a falar em inevitável. Minha avó sempre dizia que o coração dela era teimoso, mas naquela manhã, sentada numa cadeira dura de hospital, eu vi o medo nos olhos dela pela primeira vez. E soube que, se falhasse, não haveria desculpa que me salvasse.
Cinco mil reais.
Repito esse número como uma oração enquanto o táxi avança. Não olho pela janela. Se olhar, posso ver a cidade seguir sua vida normal enquanto a minha está suspensa por um fio. Prefiro observar minhas mãos. Tremem. Não de frio; de cansaço. De pavor.
Quando o carro para, eu sei que cheguei a um lugar onde não pertenço.
Desço devagar. O portão à minha frente não convida, não acolhe. Ele avalia. Como se perguntasse o que uma mulher como eu está fazendo ali.
Não olhei para trás. Não podia. Se olhasse, corria o risco de desistir. E desistir não era uma opção quando o monitor cardíaco da única pessoa que me amou de verdade estava marcando o tempo como uma contagem regressiva. Foi pensando nisso que atravessei aquele portão.
Engulo a resposta junto com o orgulho e aperto o interfone.
— Elara Moraes. Tenho uma entrevista.
Minha voz sai mais firme do que me sinto. Talvez seja isso que sobreviver ensina: fingir estabilidade enquanto tudo por dentro desmorona.
Sou conduzida para dentro da casa, a assistente me mostra o caminho em silêncio, mas mal o registro. Tudo em mim estava concentrado em manter o controle do corpo; da respiração, das mãos, do nó apertado na garganta.
— Seja direta e profissional. — aquela mulher me fornece pequenas dicas de como me portar.
Tento prestar atenção, mas minha mente insiste em voltar para outra noite. Outro lugar. Outra porta que se abriu contra mim.
O clube.
As luzes fortes. A música alta. A ordem da gerência para atender a mesa VIP. Eu lembro do copo caindo, do líquido gelado escorrendo pela minha pele, do susto. Lembro de ter levantado as mãos num gesto automático de desculpa.
E lembro, principalmente, do olhar dele.
Não foi raiva. Foi algo mais profundo. Como se eu tivesse tocado numa ferida que não era minha. Como se, de repente, eu representasse tudo o que ele desprezava.
— Você fez isso de propósito — ele disse naquela noite.
Não perguntou. Afirmou.Tentei explicar. Não fui ouvida.
Perdi o emprego ali. Não só o salário; perdi a sensação de que o esforço valia a pena.
— O senhor vai recebê-la agora — diz a assistente me trazendo de volta ao presente.
Paro diante da porta.
Meu corpo reage antes de mim. Um aperto no estômago. Um frio subindo pela coluna. Um aviso silencioso que não sei explicar.
A porta se abre. E o ar some.
Não.
Não podia ser.
Eu conhecia aquele rosto. Conhecia demais.
Era ele?
Não há dúvidas.
Ele está ali.
Não exatamente como eu lembrava, mas suficientemente igual para que meu coração reconheça antes da mente. O mesmo porte. A mesma quietude carregada. A mesma presença que faz o ambiente se reorganizar ao redor dele.
O passado não voltou devagar. Ele me atingiu de uma vez, brutal, sem pedir licença.
Ele levanta os olhos negros para mim e vejo que o choque foi mútuo.
Por um segundo, nenhum de nós se move.
Vejo o instante em que ele me reconhece. É sutil, mas acontece. O maxilar endurece. O olhar escurece. Algo se fecha dentro dele.
Meu primeiro impulso é pedir desculpa.
Meu segundo é fugir.
Não faço nenhum dos dois.
A porta se fechou atrás de mim com um som seco. Eu conhecia aquele som. Era o mesmo da noite em que perdi o emprego. O mesmo da noite em que fiquei cara a cara exatamente com o mesmo homem de agora.
Ele estava atrás da mesa, mas não parecia sentado; parecia instalado, como se aquele espaço fosse uma extensão do corpo dele. Quando ergueu os olhos, não houve surpresa exagerada. Apenas um endurecimento lento, controlado.
— Então é você — disse.
Não foi acusação. Foi constatação.
E, estranhamente, isso doeu mais.Era ele.
O homem que me acusou sem ouvir.
O homem que assinou minha demissão como se estivesse apagando uma mancha da própria roupa.
O homem que me fez sair daquele clube com a certeza de que eu não valia nada.
E mesmo assim, ali estava eu, implorando para que pudesse trabalhar para ele. A ironia quase me fez rir. Quase.
Os olhos dele me percorreram devagar. Meu vestido simples. Meus sapatos gastos. Meu rosto pálido. Cada detalhe parecia confirmar algo que ele já pensava ao meu respito.
Meu peito se contraiu. Senti o impulso infantil de explicar tudo de uma vez, como se palavras pudessem consertar aquela primeira impressão que nunca tive chance de dar.
— Eu não sabia que… — comecei.
— Que o emprego era aqui? — ele interrompeu, frio. — Ou que o homem “louco”, como imagino que você me descreva, era eu?
Engoli em seco.
— Eu nunca disse isso.
Ele se levantou.
Não rápido. Não agressivo. Mas o movimento foi o suficiente para meu corpo reagir antes da mente. Dei meio passo para trás sem perceber.
— Não precisa mentir — ele disse. — Pessoas como você sempre mentem quando são encurraladas.
Aquilo foi um golpe baixo.
— Pessoas como eu? — minha voz saiu mais firme do que eu me sentia. — O senhor nem me conhece.
Ele riu. Uma risada curta, sem humor.
— Conheço o suficiente. Sei exatamente o tipo de mulher que trabalha em clubes como aquele.
O ar saiu dos meus pulmões. Ali estava o ataque. Não explícito. Não gritante. Mas preciso. Cirúrgico.
— Eu trabalhava lá porque precisava — respondi, sentindo a garganta arder. — Não porque queria ser julgada.
— Todos precisam de algo — ele rebateu. — A diferença é o que estão dispostos a fazer por isso.
Fechei as mãos com força. As unhas cravaram na palma, me ancorando. Cada célula do meu corpo gritava para sair dali. Mas a imagem da minha avó frágil naquela cama de hospital, me manteve de pé.
— Eu não fiz nada naquela noite.
Ele parou diante da mesa. Os olhos escuros se fixaram nos meus.
— Você se aproximou demais.
— Eu fui chamada pela gerência. — justifico.
— Derrubou a bebida.
— O senhor se levantou de repente. — rebato outra vez.
O silêncio caiu entre nós como algo vivo.
Vi o maxilar dele se contrair. Não de raiva explosiva; de controle. Como se aquela conversa tocasse em algo que ele não queria revisitar.
— Você sabe quanto custava aquele terno? — perguntou.
— Sei que não foi minha intenção. E sei que uma boa lavagem resolveria esse problema. — respondi, sem pensar em maquiar minha exasperação como sei que deveria.
Ele me encarou; houve uma conversa muda entre seus olhos e minha resposta; era como se eu não tivesse a menor ideia do que eu estava falando.
— Algumas coisas são inestimáveis e não possuem conserto assim. — ele responde simplesmente.
Eu engulo em seco. Estava cansada, nervosa, desesperada para conseguir aquele emprego ou ter mais tempo de conseguir qualquer outro. Mas o relógio parecia estar contra mim.
— Apenas sei que isso não justificava o que aconteceu depois. — sussurro, a voz mais frágil do que eu queria demonstrar.
Sinto quando aquele homem se aproxima mais um passo, roubando todo o meu ar.
— Você perdeu o emprego. — disse, baixo. — Não a vida.
Foi ali que algo em mim cedeu.
— Para mim, foi quase isso.
As palavras escaparam antes que eu pudesse segurá-las.
Ele franziu levemente a testa. Apenas o suficiente para mostrar que não esperava aquilo.
— O que quer dizer?
Respirei fundo. Uma, duas vezes.
Eu não queria dizer. Detestava a ideia de me expor àquele homem. Mas eu não tinha mais margem.— Eu tenho uma avó — falei. — Ela está internada. Precisa de uma cirurgia. Eu precisava daquele dinheiro.
O silêncio agora era diferente.
Mais pesado.
Ele não respondeu de imediato. Apenas me observou, como se tentasse decidir se aquilo era verdade ou mais uma encenação.
— E agora você aparece aqui — disse enfim. — Na minha casa. Para cuidar da minha filha.
— Eu apareci porque preciso trabalhar — respondi. — E porque esse emprego paga o suficiente para salvá-la.
— Salvá-la — repetiu, pensativo. — Interessante escolha de palavra.
Dei um passo à frente. Não em desafio. Em desespero.
— Eu sei que o senhor não confia em mim. Sei que me despreza. — Minha voz falhou, mas continuei. — Mas eu sou boa no que faço. E não estou pedindo simpatia. Só uma chance.
Ele me encarou longamente.
— Você acha mesmo que eu colocaria meu filho nas mãos de alguém que o vê como uma moeda de troca?
As lágrimas queimaram atrás dos olhos, mas não caíram. Porque para salvar quem eu amava, eu aceitaria qualquer coisa. Até trabalhar para homem que eu mais odiava.
— Então não coloque — respondi, quase num sussurro. — Coloque nas mãos de alguém que não tem mais nada a perder.
Aquilo o atingiu.
Eu vi.Ele virou o rosto, caminhou até a janela. Ficou alguns segundos olhando a cidade, como se precisasse daquele distanciamento para não dizer algo que não poderia retirar.
— Se eu disser não — falou, sem me olhar —, o que acontece com você?
MARCYA luz da manhã entra pela janela do quarto, e eu acordo com a sensação de que esqueci algo importante.O celular está na mesinha de cabeceira. Pego, ainda sonolenta, e vejo a notificação.André Riminof: "Marcy, precisamos conversar. Você pode?"Meu coração para.Olho para a mensagem. Depois para o horário. Quatro da manhã. Ela chegou há horas, e eu dormi como uma pedra, alheia ao terremoto que se anunciava.Não respondi.Passo a mão no rosto, tentando organizar os pensamentos. Estou saindo de um casamento. Felipe foi embora ontem, e o divórcio está encaminhado. Meu coração está em frangalhos, minha autoestima no chão, minha vida uma bagunça.A última coisa que preciso é me envolver com André.Não seria justo. Nem para mim, nem para ele. Eu não posso preencher o vazio do meu casamento fracassado com outro homem. Não posso usar André como tapa-buraco emocional.E ainda tem a história dele com Helen. Com Dante. Com todo esse emaranhado complicado que é a família Herrera.Respiro fu
ANDRÉ A bala ainda dói.Não fisicamente — a ferida está cicatrizando, os médicos disseram que em breve estarei novo. Mas a memória dela... essa vai doer para sempre.O momento em que vi o vulto. O estampido. O choque. O sangue.E depois, o silêncio.Acordar no hospital foi como renascer. E, ao mesmo tempo, como ser arrastado de volta para um pesadelo que eu achava ter deixado para trás.Agora estou aqui. Na mansão de Dante. No sofá da sala, tentando parecer mais inteiro do que realmente estou.Elara está na minha frente, os olhos verdes cheios de preocupação genuína.— Como você está, André? — ela pergunta. — Os médicos disseram o quê?— Que sou um milagre ambulante. — Sorrio, mas é fraco. — A bala perfurou o pulmão, mas não atingiu nada vital. Perdi muito sangue, mas... estou aqui. Vivo. Recuperando.— Que bom. — Ela aperta minha mão rapidamente. — Que bom que você está bem.— É, bem... — Endireito-me no sofá, sentindo o peso da conversa que ainda vamos ter. — Bem, acho que já vou i
DANTE A memória vem em fragmentos, mas cada uma delas ainda sangra.A noite passada não sai da minha cabeça.O cheiro do porto ainda parece entranhado nas minhas roupas, na minha pele, na minha alma. Peixe podre, óleo queimado, desespero. Muito desespero.Era madrugada quando cheguei. Os meus detetives tinham mandado a localização: galpão 7, zona sul do porto, abandonado há anos. Rodrigo estava lá, escondido como rato em sua toca.Lembro de cada passo em direção àquele galpão. O concreto molhado sob meus sapatos. As luzes dos postes piscando, criando sombras que dançavam como espectadores sedentos por sangue. O vento frio vindo do mar, trazendo promessas de tempestade.Meus homens estavam posicionados ao redor. Não entrariam a menos que eu ordenasse. Isso era pessoal.A porta de ferro rangeu quando empurrei. Dentro, o escuro era quase absoluto — apenas um foco de luz vindo de uma lamparina improvisada no canto. E lá, sentado no chão, encolhido como um animal acuado, estava Rodrigo.E
A porta do hospital se fecha atrás de nós com um clique suave assim que guardo o celular depois da ligação da minha avó.Marcy está ao meu lado, visivelmente abalada, mas tentando disfarçar. Eu também estou processando o que vi ali — a química entre ela e André, o jeito como eles se olharam, como se o tempo não tivesse passado.— Marcy, — começo, enquanto caminhamos para o carro, — posso te perguntar uma coisa?Ela me olha, alerta.— Claro.— Você e André... — Hesito, escolhendo as palavras. — O que houve entre vocês?Ela desvia o olhar. Por um momento, acho que não vai responder. Depois, suspira.— Era antes. Muito antes. Na faculdade. — Ela aperta os lábios. — A gente quase... quase aconteceu. Mas aí a Helen apareceu. E ele sumiu.— Quer dizer que você nunca mais viu ele?— Vi. — Ela ri, sem humor. — Vi ele com ela. Ao menos o modo como ele olhava pra ela, enquanto ela olhava para o Dante. Foi assim durante anos. Até que aprendi a ignorar.— E agora?— Agora? — Ela me olha. — Agora
MARCYA chave gira na fechadura com um clique que ecoa no silêncio do corredor.O apartamento está escuro. Silencioso. Do jeito que eu deixei. Do jeito que sempre está quando volto para casa — para essa caixa de concreto que deveria ser um lar e é apenas um lugar onde guardo minhas coisas.Mas quando a porta se abre, vejo luz na sala.Meu coração aperta.— Você ainda tem a chave? — pergunto, a voz mais fria do que pretendia.Felipe está no sofá, um copo de uísque na mão, a televisão ligada no mudo. Ele me olha com aquela expressão que aprendi a odiar — julgamento e posse misturados.— Ainda sou seu marido, Marcy. Legalmente.— Por pouco tempo.Ele ri. Um som amargo.— É, por pouco tempo. — Ele se levanta, vem em minha direção. — Aonde você foi?— Não é da sua conta.— É da minha conta sim. — A voz dele sobe. — Você some a noite inteira, não atende o telefone, e eu tenho que ficar aqui, esperando, sem saber se você está bem ou se...— Se eu estou bem? — Rio, sem humor. — Desde quando v
MARCYO quarto de hospital tem aquele cheiro característico de antisséptico e flores murchas. Luz fria, paredes brancas, o som monótono dos monitores.E eu estou parada na porta, olhando para ele.André.André Riminof.O nome ecoa na minha cabeça como uma música antiga, daquelas que a gente jura ter esquecido, mas basta um acorde para voltar inteira.Ele está ali. Na cama. Pálido, mais magro, com olheiras profundas e uma barba por fazer que não combina com o garoto que eu conheci. Mas os olhos são os mesmos. Esses olhos que agora estão fixos em mim como se eu fosse um fantasma.— Marcy? — A voz dele sai estranha, rouca, carregada de uma surpresa que parece genuína. — Marcy, é você?Meu coração acelera.Ele lembra. Ele lembra de mim.Atravesso o quarto em passos que tento manter firmes, mas que por dentro são puro tremor.— Oi, André. — A voz sai mais calma do que eu esperava. — Faz tempo.Ele não desvia o olhar. Seus olhos percorrem meu rosto como se estivesse relendo um livro antigo,





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