Eu não respondi de imediato e o silêncio da pergunta dele não foi vazio. Foi denso. Pesado o suficiente para me esmagar.
A pergunta — “E se eu disser não?” — ainda vibrava no ar, pesada, cruel, como se tivesse sido dita só para me medir.
Eu quis falar. Qualquer coisa. Mas o som ficou preso. Minha garganta fechou. Por um segundo, considerei mentir. Dizer que daria um jeito. Que sempre há um jeito. Mas eu estava cansada demais para inventar esperança.
Ele se virou devagar, as mãos nos bolsos, o olhar distante. Aquele homem tinha um talento estranho para o silêncio — não era o tipo que apenas calava; era o tipo que fazia o outro se perder dentro dele.
— Se eu disser não… — repetiu, mais baixo. — O que acontece com você?
Meu corpo inteiro pareceu se contrair.
— Ela morre — respondi, sem fôlego.
As palavras caíram simples. Sem drama. Sem enfeite. E, talvez, por isso, tenham doído tanto. Mas o eco da minha voz ficou pairando; a palavra crua, feia, sem nenhum floreio que pudesse suavizá-la.
Ele não se virou imediatamente. Continuou olhando a cidade pela janela, como se aquelas vidas lá embaixo fossem mais fáceis de encarar do que a minha resposta.
Mas eu pude notar quando ele piscou, uma única vez. E foi o bastante para eu perceber que algo nele tinha vacilado.
— Sua avó. — Não perguntou. Constatou. Assenti. — E o dinheiro é pra cirurgia.
Assenti outra vez. Cada movimento parecia pesar toneladas.
— Médicos costumam exagerar. — disse de repente. — Criam urgência para pressionar famílias.
— Eles já desligaram o “talvez.” — respondi. — Agora só falam em prazo.
Vi seu reflexo no vidro. Os olhos se estreitaram levemente. Não era pena. Era cálculo. Ele foi até a mesa, pegou uma caneta, girou-a entre os dedos, olhando para o nada.
— Cinco mil reais — murmurou. — Tão pouco pra uns…
Olhou pra mim.
— … e tudo pra outros.
Não havia sarcasmo. Era quase… melancolia. Mas durou um instante só. O olhar endureceu de novo.
— E me diga, Elara — ele retomou, voltando ao tom frio. — O que faz alguém aceitar trabalhar para quem a humilhou?
Senti o sangue subir ao rosto. A pergunta era uma armadilha. Ele estava me empurrando. Testando até onde eu iria antes que quebrar. Eu sabia. Mesmo assim, respondi.
— O desespero não me dá escolha.
Um canto da boca dele se ergueu. Não foi sorriso. Foi algo mais frio.
— Sempre há escolha. — Ele se aproximou, os olhos fixos em mim. — Você podia ter ido embora.
— E deixá-la morrer?
A pergunta saiu em um sussurro rouco. Ele não respondeu. Mas o maxilar travado dizia mais que qualquer palavra. Por alguns segundos, só se ouviu o som da respiração dos dois.
A minha, curta.
A dele, contida.
— Sente-se — disse, enfim.
Obedeci. Não por submissão. Por instinto.
Ele também se sentou, de frente para mim. As mãos apoiadas sobre a mesa, mas relaxadas. O olhar fixo, de quem analisa sem pressa.
— Eu a demiti porque você ultrapassou um limite.
— Eu só estava servindo uma mesa.
— Não era qualquer mesa.
— Eu não escolhi a mesa — retruquei, mais firme do que pretendia.
Ele arqueou levemente uma sobrancelha, como se apreciasse a resistência.
— Você lembra daquela noite? — perguntou.
— Lembro. Como esquecer?
— Tem certeza?
A pergunta me desconcertou. Abri a boca pra responder, mas ele levantou a mão, interrompendo.
— Às vezes, a memória apaga o que não quer enfrentar.
Engoli seco. Senti algo gelado percorrer a espinha.
— O senhor quer dizer o quê com isso?
Ele não respondeu.
Apenas desviou o olhar por um instante, e foi como se o ar entre nós se tornasse espesso.
Um som leve quebrou o clima; passos no corredor. Um riso infantil distante. Curto. Real. Seguido por uma pequena tosse. Meu corpo reagiu antes da mente. Endireitei os ombros. Aquilo não era mais sobre mim.
— Ela está cansada — murmurei, sem pensar. — Eu posso cuidar dela. De verdade.
Ele virou-se na hora, surpreso, me encarando longamente. Tempo demais. Como se estivesse procurando falhas invisíveis.
Nunca tive filhos. Nunca soube sequer se queria tê-los. Mas cuidar sempre foi algo que me caiu nas mãos cedo demais. Não por escolha. Por necessidade.
— Como sabe? — ele perguntou.
— É o tipo de tosse de quem não quer chamar atenção, seca. Minha avó tossia assim.
A expressão dele mudou. Um instante apenas, mas suficiente para eu ver: aquele homem, que parecia feito de gelo, tinha algo partido por dentro.
— Não devia ter notado isso — disse, num tom que parecia mais pra ele do que pra mim.
— Eu só… percebo.
Eu havia passado tempo demais observando corpos frágeis para ignorar sinais pequenos.
Ele me olhou de novo. E, dessa vez, não havia raiva. Havia lembrança. Algo não resolvido.
— Elara — disse, devagar. — Você acha que me conheceu naquela noite.
— Acho não — respondi, firme. — Tenho certeza.
Ele se aproximou um passo. Depois outro. O som dos sapatos no piso ecoou no meu peito.
— E se eu disser que não foi a primeira vez que nos vimos?
Meu corpo inteiro parou.
— O quê?
Ele inclinou um pouco a cabeça, avaliando a minha reação, o medo que me escapava pelos olhos.
— Antes daquela noite — disse, mais baixo. — Naquele mesmo clube.
Meu coração disparou.
— Eu… eu não lembro de nada assim.
— Não lembra. — Ele sorriu de leve, mas sem humor. — É diferente de negar.
Fiquei muda.
Tentei puxar na memória, mas só vinha o cheiro de perfume caro, o barulho de taças, e um vulto escuro num canto que eu nunca tinha ousado encarar.
Ele ficou me observando, até que o silêncio começou a doer.
— Por que está me dizendo isso? — perguntei, enfim.
Ele respirou fundo, recostou-se na cadeira e falou com a voz mais baixa que já ouvi dele:
— Porque naquela noite… você não me serviu pela primeira vez. Você me reconheceu.
O chão pareceu desaparecer.
Ele levantou-se devagar, foi até a porta, abriu-a, e antes de sair disse, sem olhar pra trás:
— Você já me encontrou, Elara. Antes daquela noite. Naquele mesmo clube.