Capítulo 4 - O Cliente

Ele não respondeu.

O silêncio caiu entre nós com um peso quase físico, como se alguém tivesse fechado uma porta invisível dentro do quarto. A pergunta ainda estava suspensa no ar — passei no teste? consegui o emprego? — mas ele não a tocou. Nem com palavras, nem com o olhar.

Os olhos dele permaneceram em mim por mais alguns segundos do que o necessário. Não avaliando meu corpo. Avaliando minha reação. Como se estivesse tentando decidir o que eu faria se fosse deixada ali, sem resposta, mais uma vez.

A filha dele já estava sentada na cama, abraçando um travesseiro pequeno, observando-nos em silêncio. A tosse não havia voltado. Aquilo parecia incomodá-lo mais do que qualquer coisa.

Ele se virou primeiro.

— Venha comigo.

Não foi um pedido. Também não foi uma ordem explícita. Foi dito no mesmo tom de quem já espera obediência, mas não exige submissão. Isso, percebi, era o tipo de poder mais difícil de enfrentar.

A assistente abriu a porta antes que eu me movesse. Olhou para mim rapidamente, como se quisesse dizer algo — ou me avisar de algo —, mas se conteve. Apenas indicou o corredor.

Dei um último olhar para a menina. Ela me encarava com uma curiosidade silenciosa agora, menos defensiva. Ergui a mão num gesto pequeno, quase um aceno. Ela não respondeu, mas também não desviou o olhar.

Aquilo ficou comigo.

Seguimos em silêncio até o escritório. O contraste me atingiu de novo: o rosa delicado ficando para trás, substituído pelo cinza frio, pelo vidro, pela cidade distante. Era como atravessar dois mundos que não deveriam coexistir sob o mesmo teto.

A porta se fechou atrás de nós.

Ele caminhou até a mesa, mas não se sentou. Encostou-se na lateral, cruzando os braços. Eu permaneci de pé, esperando. Não por respeito. Por instinto de sobrevivência.

— Sente-se — disse, sem me olhar.

Sentei.

Ele demorou a falar. Caminhou até a janela, observou a cidade por alguns segundos. Eu sentia que aquilo fazia parte do jogo. O silêncio como instrumento. O tempo como pressão.

— Há quanto tempo você percebe esse tipo de tosse? — perguntou, finalmente.

A pergunta me pegou de surpresa.

— Como assim?

Ele se virou devagar.

— Igual a da minha filha. — O olhar era direto. Incisivo. — Não em pacientes. Não em livros. Na prática.

Respirei fundo.

— Esse tipo específico? — confirmei.

Ele assentiu.

— Desde que minha avó ficou doente — respondi. — Primeiro era só à noite. Depois começou durante o dia também. Sempre curta. Sempre contida.

Ele franziu o cenho.

— Contida?

— Crianças e idosos aprendem rápido quando não querem incomodar — expliquei. — Eles tentam controlar o corpo.

O maxilar dele se contraiu.

— Quem disse que ela não quer incomodar?

— O jeito como ela tosse — respondi com cuidado. — Não é descuido. É contenção.

Ele se afastou da janela e começou a andar pelo escritório, passos lentos, calculados.

— O corpo reclama por ela — completei. — O enrijecer dos ombros. O cansaço excessivo. A respiração curta quando pensa que ninguém está olhando.

Ele ficou em silêncio outra vez. Em seguida, riu baixo. Um som sem humor.

— Médicos não falaram nada disso.

— Médicos escutam pulmões — respondi com cuidado. — Nem sempre escutam crianças e suas emoções.

Ele se virou para mim com mais força do que antes.

— Você não é médica.

— Não — concordei. — Mas aprendi a observar quem amo quando ninguém mais está prestando atenção.

Algo mudou ali. Não foi no rosto. Foi no ar.

— E o que mais você observa? — perguntou, mais baixo.

A pergunta não era só sobre a filha. Eu sabia disso.

— Observo quando alguém está tentando cuidar… e quando está apenas tentando controlar — respondi.

O silêncio se estendeu.

Ele voltou para a mesa e finalmente se sentou. Cruzou os dedos à frente do corpo, apoiando os cotovelos.

— Você fala demais para alguém que precisa de um emprego — disse ele.

— E o senhor testa demais para alguém que precisa de alguém — retruquei de volta.

Ele sorriu. Pela primeira vez. Um sorriso breve, quase imperceptível. Perigoso.

— Horários indefinidos — disse, mudando o assunto. — Você não sai quando quer.

Meu coração acelerou.

— Morar aqui — continuou. — Pelo menos durante a semana.

Engoli seco. Ele realmente estava me contratando?

— E… — ele fez uma pausa. — Não criar vínculo emocional.

Levantei o olhar lentamente.

— Isso é impossível.

— Não para profissionais.

— Para crianças é — respondi.

Ele se levantou de novo.

— Você fica — disse, enfim. — Mas não como funcionária comum.

Meu corpo inteiro reagiu.

— Então eu fui contratada?

Ele se aproximou da mesa lateral, pegou algo e voltou. Um envelope fino.

— Ainda não.

Colocou o envelope sobre a mesa, mas não empurrou na minha direção.

— Antes disso — disse — preciso saber se você lembra.

Meu estômago afundou.

— Lembrar do quê?

Ele inclinou a cabeça levemente.

— Do clube.

O ar ficou mais pesado.

— Lembro o suficiente — respondi.

— Não lembra — ele corrigiu. — Lembra do que te feriu.

Engoli seco.

— Havia uma cabine — ele continuou. — Sempre a mais escura. Sempre no fundo.

Meu coração começou a bater mais rápido.

— O cliente nunca acendia a luz — disse ele. — Pagava caro. Muito caro. Não tocava.

Minha respiração ficou curta.

— Conversava — continuou. — Perguntava sobre livros. Sobre o que você faria se tivesse escolha.

Minhas mãos começaram a suar.

— Você ria pouco com ele — disse. — Mas ficava mais tempo do que precisava.

Meu corpo inteiro travou.

— Não lembro disso — menti.

— Lembra — ele respondeu com suavidade demais. — Só não quer admitir.

A memória veio como um golpe.

O escuro.

A voz.

As conversas longas.

O jeito como eu me sentia… vista.

— Durante semanas — ele continuou — você o procurava com o olhar.

Meu peito doeu.

Ele não era apenas o cliente daquela última noite quando fui demitida. Ele era aquele que me observava. Aquele que... me escolhia.

Não poder ser!

— Eu nunca toquei você — disse ele. — Nem precisei.

Nunca houve toque. Nunca houve cama. Ele nunca cruzou essa linha.

O perigo estava justamente aí: tudo era voz, sombra e expectativa.

Fechei os olhos por um segundo.

Porque agora eu lembrava.

Lembrava de sair da cabine com o coração acelerado. De pensar nele fora do trabalho. De me sentir especial… e envergonhada por isso.

— Eu não esqueci você — disse ele, por fim. — Só esperei o momento certo.

Abri os olhos.

Ele colocou o envelope mais perto de mim.

— O contrato — disse. — Já está assinado.

Olhei para o papel. Para a assinatura. Para a decisão que agora estava nas minhas mãos.

Mas como posso trabalhar para o homem por quem me apaixonei em segredo meses atrás?

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