Mundo de ficçãoIniciar sessãoA porta se fechou atrás dele.
O som não foi alto. Não houve impacto, nem violência. Ainda assim, ecoou dentro de mim como um veredito.
Fiquei parada no meio do escritório, sentindo o ar retornar aos poucos aos pulmões, como se alguém tivesse pressionado meu peito e, de repente, soltado. Minhas pernas estavam estranhamente pesadas. Não fracas — pesadas. Como se o chão tivesse decidido me prender ali.
Ele saiu.
Sem dizer sim.
Sem dizer não.
E deixou para trás uma questão que não fazia sentido algum.
“Você já me encontrou, Elara. Antes daquela noite. Naquele mesmo clube."
Eu não sabia a resposta para aquele enigma. Mas sabia que isso não significava nada. Não oficialmente. Não ainda.
Passei a mão pelo rosto, sentindo a pele quente, os dedos levemente trêmulos. Meu coração ainda batia rápido demais, como se meu corpo não tivesse recebido o aviso de que o confronto tinha acabado — ou sido apenas suspenso.
O que eu faço agora?
A pergunta martelava sem pausa. Ele simplesmente foi embora.
Eu tinha sido contratada?
Dispensada?
Ignorada?
Ou aquilo tudo tinha sido apenas um jogo cruel para medir até onde eu iria antes de quebrar?
Olhei ao redor, meio perdida. A cidade lá fora seguia seu movimento indiferente, carros minúsculos, vidas que não sabiam que o meu mundo inteiro estava parado naquele cômodo silencioso.
Senti uma pontada de raiva.
Não dele — ainda não.
De mim.
Por estar ali, esperando. Por permitir que alguém tivesse tanto controle sobre meu destino. Por aceitar aquele silêncio como resposta.
Talvez eu devesse ir embora.
A ideia surgiu tímida, quase frágil. Mas bastou um segundo para que a imagem da minha avó surgisse, clara demais, real demais. O lençol branco. O som contínuo do monitor. A mão dela apertando a minha com uma força que não combinava com o corpo frágil.
Não.
Eu não podia ir embora. Não ainda.
Foi quando ouvi passos.
Leves. Controlados. Diferentes dos dele.
Meu corpo reagiu antes da mente. Endireitei a postura, puxei os ombros para trás, como se alguém tivesse me pego desprevenida em um erro. O nó no estômago se apertou.
A porta se abriu.
A assistente entrou, a mesma mulher de antes. O rosto neutro, a postura impecável. Mas agora havia algo diferente no olhar dela. Avaliação.
— Venha comigo, por favor — disse, sem rodeios.
Pisquei.
— Eu… — comecei, mas minha voz morreu no meio do caminho.
Ela já tinha se virado, caminhando em direção ao corredor, como se minha presença fosse um dado adquirido. Como se a decisão já tivesse sido tomada.
Hesitei apenas um segundo.
Depois, segui.
Meus passos soavam altos demais no mármore. Cada batida do salto ecoava como um lembrete de que eu ainda não sabia onde estava pisando. Cruzamos corredores largos, depois uma escada discreta que levava para cima.
E foi quando as cores do ambiente mudaram. Saíram os cinzas, os pretos, o vidro e o aço. Entraram tons suaves. Pastéis. Um rosa delicado aqui, um bege ali. O cheiro também era outro: algo levemente adocicado, infantil, familiar.
Meu coração deu um salto lento.
Aquilo não era mais território dele.
Era dela.
A assistente parou diante de uma porta branca, com um detalhe delicado entalhado no centro. Girou a maçaneta e deu um passo para o lado.
— Este é o quarto da senhorita.
Entrei devagar.
O espaço era acolhedor de um jeito quase doloroso. Havia uma cama baixa, com colcha rosa claro, almofadas organizadas demais para alguém realmente agitado. Um tapete macio no centro, estampado com pequenas estrelas.
Foi então que a vi.
Ela estava sentada no chão, de pernas cruzadas, concentrada em algo que montava com peças coloridas. Não levantou a cabeça de imediato. O cabelo caía em ondas suaves sobre os ombros. Pequena. Delicada. Silenciosa.
Meu peito se contraiu.
A menina ergueu os olhos devagar.
O olhar dela encontrou o meu com cautela. Não medo. Não curiosidade aberta. Desconfiança. Como quem já aprendeu que adultos aparecem e desaparecem sem aviso.
Engoli em seco.
Ela parecia… agitada. Não no corpo, mas nos pequenos sinais: o balançar leve do pé, o jeito como apertava uma peça contra a outra com força demais. E então ouvi.
Uma tosse curta. Seca. Contida.
Meu corpo inteiro reconheceu o som antes da mente. A tosse não me assustou pelo som. Me assustou pelo esforço para escondê-la. Eu conhecia aquele gesto. Minha avó tossia assim quando não queria me preocupar.
A assistente fechou a porta atrás de nós e se posicionou ao meu lado.
— Ela tem apresentado episódios de tosse seca — informou, num tom profissional. — Principalmente à noite.
Meu coração acelerou.
Era isso.
O teste.
A continuação perfeita da conversa que eu tinha acabado de ter no andar de baixo.
Olhei para a menina outra vez. Ela me observava agora com mais atenção, como se tentasse entender quem eu era naquele cenário. Apertei os dedos uns contra os outros para conter o impulso de me ajoelhar na frente dela sem pensar.
— O que você faria nessa situação? — a assistente perguntou.
Não havia julgamento explícito na voz dela. Mas havia expectativa. Um espaço aberto para erro.
Ótimo, pensei, sentindo uma centelha estranha acender dentro de mim.
Agora posso mostrar quem eu sou. O que sei fazer. O que valho.
Ajoelhei devagar, ficando na altura da menina. Não invadi o espaço dela. Apenas me aproximei o suficiente para que ela soubesse que eu estava ali.
— Oi — disse, suavemente. — Posso sentar aqui?
Ela não respondeu com palavras. Apenas assentiu, um movimento pequeno, quase imperceptível.
Sentei no tapete, sentindo o chão macio sob as pernas. A tosse veio de novo, curta, interrompida. Vi o esforço dela para não fazer barulho. Para não chamar atenção.
Aquilo apertou algo dentro de mim.
— Isso acontece há quanto tempo? — perguntei, olhando para a assistente.
— Alguns dias.
Assenti.
— Posso? — pedi, apontando para a cozinha imaginária que eu já sabia existir em algum lugar daquela casa.
A assistente fez um gesto afirmativo.
Levantei-me e fui até a cozinha, e usando o pequeno banheiro anexo, lavei as mãos com cuidado. Respirei fundo. Minha mente trabalhava rápido, mas não em pânico. Em foco.
Voltei da cozinha minutos depois, usando o que encontrei ali. Nada elaborado. Nada forçado. Apenas o que sempre funcionou.
Preparei a mistura com movimentos calmos, quase automáticos. A memória muscular guiando cada gesto.
— Minha avó sempre dizia que o corpo gosta quando a gente cuida dele com paciência — disse a menina, a entregando uma xícara pequena. — Não gosta de pressa.
Ela me observava atentamente agora. Os olhos atentos, curiosos apesar da reserva.
— Está morno. Não vai queimar — garanti.
Ela hesitou. Olhou para a assistente. Depois para mim.
— Pode tomar devagar — acrescentei. — Não precisa acabar tudo.
Ela levou a xícara aos lábios com cuidado. Um gole pequeno. Depois outro.
A tosse não veio.
Esperei. Não comemorei. Apenas observei.
Alguns segundos se passaram. Depois mais alguns.
Nada.
Ela respirou fundo, como se só então percebesse que algo tinha mudado. Levantou os olhos para mim, surpresa silenciosa estampada no rosto.
— Melhor? — perguntei, sorrindo de leve.
Ela assentiu lentamente.
Meu peito se encheu de um orgulho quieto. Não triunfante. Não exibido. Apenas a satisfação profunda de saber que eu tinha feito algo certo. Cuidar não era amor. Era atenção. E atenção eu aprendera a dar antes mesmo de aprender a me defender.
Foi quando ouvi passos no corredor.
Meu corpo reagiu no mesmo instante.
Virei-me.
Eu sabia quem era antes mesmo de vê-lo.
Ele estava ali novamente.
Alto demais. Presença grande demais para aquele quarto delicado. Os olhos escuros percorriam o ambiente, parando na filha, depois em mim. Havia algo diferente na expressão dele agora. Não suavidade. Mas atenção.
— A tosse parou — informou a assistente, profissional.
Ele não respondeu de imediato. Aproximou-se, ajoelhou-se diante da menina, observando-a com cuidado. Ela se inclinou levemente em direção a ele, um gesto pequeno, mas revelador.
Meu coração apertou.
Ele se levantou e então olhou para mim.
Não havia raiva. Não havia acusação.
Havia pergunta.
Respirei fundo. Senti o peso daquele momento cair sobre mim com clareza absoluta. Tudo o que eu tinha feito até ali convergia para aquele segundo.
— E então? — perguntei, a voz firme apesar do coração acelerado. — Eu passei no seu teste?
Engoli em seco.
— Consegui o emprego?







