Capítulo 5 - As Cláusulas

Eu continuei sentada por alguns segundos depois que ele empurrou o contrato na minha direção. Não porque estivesse lendo. Mas porque ainda estava tentando respirar.

O homem à minha frente não era apenas meu chefe em potencial. Não era apenas o pai de uma criança frágil. Não era apenas o homem que me demitira com frieza uma noite atrás.

Ele era o meu cliente misterioso.

O homem da cabine escura. Da voz baixa. Das perguntas que me desmontavam devagar. Ele me perguntava coisas que clientes não perguntam. O que eu lia. O que eu faria se pudesse escolher. Era desconcertante. Era perigoso. E não tinha nada a ver com sexo.

Ele era aquele que eu prometera a mim mesma nunca mais mencionar. Nunca lembrar. Nunca desejar de novo.

Ele nunca me tocou. E talvez por isso tenha sido tão difícil esquecê-lo.

E agora ele estava ali, de terno impecável, assinatura firme no contrato, olhando para mim como se tudo aquilo fosse… irrelevante. Como se tivesse jogado uma bomba no meu colo e estivesse apenas observando a explosão.

— Leia — disse, sem emoção. — Depois decidimos.

Decidimos. Como se eu tivesse algum poder naquela sala.

Peguei o contrato com mãos que não obedeciam totalmente. O papel era pesado. Não pelo número de páginas — eram poucas —, mas pelo que carregavam. Cláusulas. Regras. Limites que não eram limites. Eram cercas.

Li a primeira linha. Depois a segunda. Meu estômago começou a se contrair.

— Isso não é um contrato de trabalho — murmurei.

Ele se recostou na cadeira.

— É o único tipo de contrato que ofereço.

Continuei lendo.

Horários indefinidos.

Disponibilidade integral.

Residência obrigatória.

Saídas condicionadas à autorização prévia.

Meus olhos se moveram mais rápido.

Cláusula de confidencialidade absoluta.

Proibição de mencionar o clube.

Proibição de mencionar o passado.

Proibição de mencionar… ele.

Meu coração bateu forte.

— Você está tentando me apagar; como se eu não fosse existir na sua vida — eu disse, levantando o olhar.

— Estou tentando evitar problemas — respondeu, com calma.

Continuei.

Proibição de vínculos emocionais. Com a criança.

Com qualquer membro da casa.

Soltei uma risada curta, incrédula.

— Isso é cruel.

Ele inclinou a cabeça, como se estivesse analisando uma peça defeituosa.

— Isso é necessário.

— Para quem? — perguntei.

— Para mim.

A resposta foi seca. Direta. Sem vergonha. Fechei o contrato devagar.

— Você não quer uma cuidadora — falei. — Quer controle.

A questão era que aquilo não era apenas um contrato. Era uma escolha. Não entre aceitar ou recusar um emprego — isso seria simples demais. Era entre ir embora agora, preservar o pouco de controle que ainda me restava… ou ficar e atravessar uma linha da qual talvez não houvesse retorno.

Meu corpo gritava para sair. Minha razão também. Mas toda vez que eu pensava em levantar, a imagem da menina voltava. O jeito contido da tosse. O olhar atento, silencioso, como se estivesse esperando algo que ninguém nunca ficava tempo suficiente para oferecer.

Se eu saísse agora, quem ficaria? A questão ali não era sobre ele. Era sobre não deixar a garota sozinha outra vez.

Algo passou pelo rosto dele. Rápido demais para ser lido com clareza. Mas passou.

— Controle mantém pessoas vivas — disse, por fim. — Emoção não.

— A sua filha não é um projeto de risco — rebati. — É uma criança.

Ele se levantou. O movimento foi brusco o suficiente para me fazer recuar na cadeira sem perceber.

— Não ouse me dizer quem ela é. — A voz dele não subiu. E foi isso que tornou tudo mais perigoso. — Eu sei exatamente quem ela é — continuou. — Sei quando ela tosse. Sei quando ela finge dormir. Sei quando ela não quer comer. Sei quando está com medo.

— Então por que não sabe o que fazer quando isso acontece? — perguntei, antes que pudesse me conter.

Ele me encarou como se eu tivesse atravessado uma linha invisível.

— Cuidado — disse, baixo.

Meu coração martelava, mas eu não desviei o olhar.

— O senhor me chamou aqui para testar limites — respondi. — Esse é o meu.

Ele deu dois passos na minha direção.

— Você acha que eu preciso de você?

— Acho que precisa de alguém; assim como sua filha precisa — respondi. — E você odeia isso.

O golpe foi certeiro. Vi o maxilar dele se contrair. Os dedos se fecharem lentamente.

— Você não faz ideia do que está dizendo.

— Faço — rebati. — Porque já vi isso antes. Pessoas que acham que perder o controle é pior do que perder quem está ao lado.

Ele se afastou de repente, como se minhas palavras queimassem.

— Chega — disse. — Ou você aceita as regras, ou vai embora agora.

Meu peito subiu e desceu rápido. Olhei para o contrato. Para a assinatura dele. Para a armadilha elegante que ele havia construído. E o meu orgulho estava prestes a me sufocar, porque eu me recusava a me submeter aquele homem.

— Você não perguntou se eu concordo — murmurei.

— Não preciso — respondeu. — Este trabalho não é para quem precisa ser convencido.

E foi quando algo se partiu dentro de mim. Levantei-me.

— Então acabou.

Ele me olhou, impassível.

— Vá.

A palavra caiu como um empurrão. Peguei o contrato com força. Minhas mãos tremiam agora, sem controle.

— Você acha que pode fazer isso com as pessoas — falei, sentindo a raiva subir como uma onda. — Que pode usar dinheiro, silêncio e medo como coleira.

— Acho que você está exagerando — respondeu simplesmente.

E foi isso: a indiferença. O modo como ele reduziu tudo aquilo que eu sentia a um exagero. Foi quando minhas mãos rasgaram o contrato ao meio antes que eu percebesse completamente o que estava fazendo. O som do papel se partindo foi seco. Libertador. Horrível.

— Você é um ditador — disse, a voz embargada. — E eu não vou me perder aqui dentro.

Virei-me para sair. Cada passo era um esforço. Meu corpo gritava para correr, mas minhas pernas se moviam como se atravessassem lama. Foi quando a porta da frente se abriu antes que eu a alcançasse.

A assistente estava ali, como se estivesse me esperando. Ela me olhou de cima a baixo. E, pela primeira vez desde que a conheci, não tentou esconder nada. Havia algo nos olhos dela. Não preocupação. Não profissionalismo. Possessividade.

— Você não vai durar aqui — disse, num tom baixo. Controlado. — Nenhuma de vocês dura.

Parei.

— Como é?

Ela se aproximou um passo.

— O senhor Herrera não precisa de mais confusão — continuou friamente. — A menina também não. Você deveria ir embora agora, antes de piorar as coisas.

— Piorar como? — perguntei.

Ela sorriu. Um sorriso curto. Tenso.

— Você já cruzou limites demais.

Então eu entendi. Aquela mulher não estava ali para me alertar por zelo ou cuidado. Era ciúme. De alguma maneira, ela se sentiu ameaçada por mim? Só podia ser uma piada!

— Você gosta dele — eu disse.

A expressão dela endureceu. Bingo!

— Isso não é da sua conta.

— É, sim — respondi. — Porque você trabalha aqui. E porque pessoas que confundem cuidado com posse machucam crianças. Ele sabe? Sabe o risco que coloca a filha dele nas mãos de uma mulher apaixonada?

O rosto dela ficou pálido, como se eu houvesse descoberto o seu segredo mais sórdido.

— Você não sabe nada sobre mim.

— Agora eu sei o suficiente — retruquei. — Sei que você acha que ele precisa de você. Que sem você tudo desmorona.

Ela se aproximou mais, os olhos em chamas.

— Você não vai sobreviver aqui. Não é comum alguém durar aqui.

Respirei fundo antes de sorrir de modo desafiador para ela. Era cômico outra mulher achar que poderia me intimidar fácil assim.

— Você pode tentar, mas eu já sobrevivi a coisas piores.

Antes que ela pudesse rebater, o som de passos cobriu o silêncio entre nós.

— O que está acontecendo? — perguntou ele.

A assistente se recompôs imediatamente enquanto meu coração voltava a acelerar.

— Sr. Herrera, não há o que se preocupar. Ela já estava indo embora — disse.

Foi quando ele me encarou e algo passou pelos olhos dele. Não alívio. Não raiva. Parecia... medo? É, um medo nu.

— Espere — disse.

A palavra me atingiu como um gancho.

— Por quê? — perguntei. — Para me humilhar mais um pouco?

Ele ignorou. Pegou o contrato rasgado da minha mão. Olhou os pedaços. Respirou fundo.

— Traga outro — disse à assistente.

Ela hesitou.

— Senhor…

— Agora.

Ela saiu, contrariada e quando ficamos a sós, ele me encarou.

— Assine — disse, como se estivesse me dando uma última chance. — Essa é sua última chance.

— Sem mudar nada? — perguntei.

— Nada.

As lágrimas queimaram atrás dos meus olhos, mas me recusei a deixá-las cair.

— Você é cruel.

— Eu sou honesto e não volto com minha palavra.

E então o contrato voltou. Inteiro. Impecável. Eu estava prestes a rasgar novamente aquele papel em um milhão de pedaços quando meu celular vibrou dentro da bolsa.

Ignorei no primeiro segundo. Depois vibrou de novo. Meu estômago afundou. Fechei os olhos antes mesmo de puxar o aparelho. Quando a tela acendeu, a mensagem era curta demais para ser cruel — e ainda assim foi:

Hospital Central: prazo final para confirmação do pagamento — 6 horas.

Seis horas.

O mundo pareceu inclinar.

Vi o rosto da minha avó como estava naquela manhã. O esforço para respirar. O sorriso fraco tentando fingir que estava tudo bem. Eu não tinha seis horas. Não tinha mais escolhas bonitas. Apenas escolhas possíveis.

Quem eu estava tentando enganar? Eu sequer tinha escolha.

O conflito não era o contrato. Era aceitar sobreviver nas regras dele — ou deixar minha avó morrer sabendo que eu tive orgulho demais para ficar.

Olhei para a caneta. Para a porta. Para o quarto da menina, dois andares acima.  Minha mão tremia tanto que precisei segurá-la com a outra.

Assinei.

As lágrimas caíram no papel. Não por submissão. Por ódio. Por medo. Por amor à única pessoa que não podia perder.

Empurrei o contrato na direção dele.

— Pronto.

Ele pegou sem esbanjar nenhuma reação.

— Você começa hoje.

— Hoje? — arfei, surpresa.

— Esta noite.

E foi nesse momento que a porta se abriu de repente. E uma mulher completamente exuberante surgiu. A elegância batia nos seus finíssimos saltos altos e no longo cabelo loiro. Mas foi o seu olhar afiado demais para ser casual que me fez engolir em seco.

— Começar o quê? — perguntou ela, a voz firme e calculada.  — Porque até onde eu sei…

Ela fez uma pausa.

— Eu não autorizei nada.

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