Mundo de ficçãoIniciar sessãoEla só queria o divórcio. Ele nunca quis assinar. Uma cláusula esquecida vai mudar tudo. Lucas Alencar não casou por amor. Foi um contrato. Três anos fingindo sorrisos, dormindo na ponta da cama e dividindo o sobrenome com o homem que ela chama de diabo. Pamela está exausta. Na véspera de finalmente assinar o divórcio e se libertar, ela só pensa em sumir da vida do bilionário mais arrogante do país. Mas o destino — e um advogado desastrado — resolvem pregar uma peça. Uma cláusula esquecida no contrato os obriga a viver juntos por mais seis meses. Sob o mesmo teto. Na mesma cama. Com as mesmas regras: nada de toques, nada de sexo, nada de se apaixonar. Ela jura que vai odiar cada segundo. Ele jura que vai comprar a liberdade dela. O problema? A linha entre odiar e desejar é mais fina do que qualquer cláusula. E quando a convivência forçada acende uma faísca proibida, os dois vão descobrir que o verdadeiro perigo não está no contrato… está em se permitir sentir.
Ler mais(Ponto de vista de Pamela)
Finalmente vou me livrar de dividir a cama com o diabo.
Essa era a única frase que passava pela minha cabeça quando o táxi parou em frente ao edifício de vidro e aço que carregava o sobrenome dele em letras douradas. Alencar Corporate.
O sol da manhã refletia nas janelas como se o próprio prédio quisesse me cegar de propósito, ou talvez fosse só uma metáfora barata para o inferno que eu estava prestes a deixar para trás.
Peguei a pasta de couro no banco ao lado. Dentro dela, a salvação.
Três anos. Três anos de contratos assinados à meia-noite, de sorrisos ensaiados para fotografias de festas beneficentes, de noites em que eu dormia na ponta extrema do colchão king size para não encostar no diabo que dividia o mesmo edredom.
Hoje isso acabava.
O segurança me reconheceu e abriu a porta com um aceno tímido. Eu nem lembrava o nome dele. Fazia questão de não lembrar de nada que pertencesse àquele universo. O elevador privativo cheirava a dinheiro velho – aquele perfume amadeirado que Lucas Alencar usava e que eu aprendi a odiar antes mesmo de saber o nome dele.
No 27º andar, a porta se abriu e a secretária Mercedes levantou os olhos com um sorriso profissional que não escondia o brilho de curiosidade.
— Bom dia, Pamela. Ele está esperando.
Claro que está.
O corredor para a sala de Lucas era longo e silencioso, como uma passarela para o paredão. A cada passo, meu salto fazia um clique metálico no piso de mármore. Eu apertei a pasta contra o peito e respirei fundo.
Você consegue, Pamela. Você já sobreviveu a três anos. Sobrevive a mais cinco minutos.
A porta de madeira escura estava entreaberta. Não bati. Ele nunca gostou que eu batesse – e hoje era o último dia em que eu precisava me importar com o que Lucas Alencar gostava.
Empurrei a porta.
Ele estava atrás da mesa, como sempre. Impecável. O terno cinza-escuro, a gravata bordô, os cabelos pretos perfeitamente penteados para trás. Os olhos cor de mel me avaliaram do mesmo jeito que um jogador de xadrez avalia o tabuleiro antes de derrubar a rainha adversária.
— Pamela.
A voz dele era baixa, sem calor. Um simples cumprimento de guerra.
— Lucas. — Respondi com o mesmo tom congelante. Coloquei a pasta na borda da mesa e abri o zíper. — Vamos resolver isso rápido. Tenho reunião com pedreiros às duas.
Ele arqueou uma sobrancelha, divertido.
— Pedreiros. É mesmo. A arquiteta agora trabalha com as mãos.
— Alguém aqui precisa trabalhar de verdade. — Puxei a minuta do divórcio e deslizei o papel polido até o centro da mesa. — Assina. Eu assino. Cada um segue seu caminho.
Lucas não tocou no papel. Cruzou os braços e inclinou a cabeça.
— Você está nervosa.
— Eu estou livre, Lucas. São coisas diferentes. Você devia tentar algum dia.
Ele se levantou. Lentamente. Como um predador que tem tempo de sobra. Contornou a mesa com as mãos nos bolsos e parou a menos de um metro de mim. O cheiro amadeirado invadiu minhas narinas e eu recuei meio passo.
— Três anos não apagam com uma assinatura, Pamela.
— Três anos de inferno não, mesmo. — Ergui o queixo. — Por isso eu quero ver esse papel assinado hoje. Comemoro com champanhe ainda esta noite.
Os olhos dele brilharam. Não sei se era raiva ou... alguma outra coisa que eu me recusava a nomear.
— Inferno. É assim que você chama uma cobertura de trezentos metros com vista para o parque?
— É assim que eu chamo qualquer lugar onde eu precise dividir a cama com você.
Agora o brilho sumiu. O rosto de Lucas endureceu. A mandíbula contraiu daquele jeito que eu aprendi a reconhecer – um segundo antes da explosão.
— Você nunca reclamou da cama.
— Porque eu nunca falei com você, Lucas. Só o necessário. Como dizia o contrato.
— Ah, o contrato. O contrato sagrado. — Ele deu um passo à frente. Eu não recuei dessa vez. — Você adorou os cheques que aquele contrato depositou na sua conta todos os meses.
Meu sangue ferveu.
— Meu pai estava morrendo. Você sabia disso. Usou isso.
— Usei? — A voz dele subiu meio tom. — Eu ofereci uma solução. Você aceitou. Assinou. Dormiu na mesma cama. Fingiu sorrir em todos os eventos. E agora quer me chamar de demônio?
— Porque é o que você é.
O silêncio entre nós dois era pesado como concreto. Nossos olhos se encaravam num duelo silencioso. Eu sentia meu coração batendo rápido demais – não de medo, juro. De ódio. Ódio puro e velho.
Foi então que eu disse as palavras que ensaiei no banho, no trânsito, no elevador:
— Não vejo a hora de me livrar de você.
Lucas soltou um riso seco. Amargo. Ele estendeu a mão e pegou a caneta preta em cima da mesa. Girou entre os dedos. Por um momento, achei que ele fosse assinar.
Em vez disso, ele me encarou e respondeu:
— Finalmente hoje é o último dia que verei você.
Ele ia colocar a caneta no papel.
Ia assinar.
Minha garganta apertou. Alívio. Só podia ser alívio.
Foi quando a porta se abriu e Mercedes entrou com os olhos arregalados – algo que eu nunca tinha visto na secretária impecável.
— Desculpe interromper. — A voz dela tremia levemente. — O Dr. Rocha está na linha. Ele disse que é urgente. Muito urgente. Ele precisa falar com os dois. Agora.
Lucas franziu a testa. Sua mão ainda segurava a caneta.
— O que ele quer?
Mercedes engoliu em seco.
— Ele disse para não assinarem nada. Que a cláusula 14... que ela ainda está valendo.
Ponto de vista: PamelaTrês anos depois.O sol da tarde dourava as montanhas lá longe, pintando o céu de tons de laranja e rosa. O vento soprava macio, balançando as cortinas de voal da varanda, trazendo o cheiro de terra molhada e flores.O sítio do avô de Lucas estava irreconhecível.A casa velha tinha ganhado uma nova pintura — branca, com detalhes em azul marinho. O jardim, antes abandonado, agora era um mar de cores. Rosas vermelhas, amarelas, brancas, cor-de-rosa. Plantadas pelas nossas mãos. Regadas com paciência. Cuidadas com amor.E elas tinham florescido.— Mamãe! Mamãe! Olha o que eu achei!A voz infantil ecoou pelo jardim. Um menino de três anos, cabelos castanhos cacheados e olhos cor de mel — iguais aos do Lucas — corria na direção da varanda. Nas mãos pequenas, uma flor amarela murcha. Ele a ofereceu como se fosse um tesouro.— Para você — disse, o sorriso desdentado.— Obrigada, meu amor. — Me ajoelhei. Recebi a flor. Abracei ele com força. — É a flor mais linda do jar
Ponto de vista: PamelaDepois de tantos meses e tantas consultas, pela primeira vez, aquela maternidade não cheirava apenas a álcool, mas a esperança.Ou talvez fosse só o cheiro de sempre. Eu não sabia mais distinguir. Depois de tantas visitas, tantas consultas, tantos exames, o lugar tinha se tornado familiar. As paredes cor de rosa, as cadeiras de plástico branco, as revistas velhas na mesa de centro. As mulheres grávidas na sala de espera, as mãos nas barrigas, os sorrisos ansiosos.Eu nunca pertencia àquele lugar.Lucas estava ao meu lado dessa vez. A mão dele apertava a minha com força — não de nervosismo, de apoio. Ele tinha vindo a todas as consultas nos últimos meses. Não faltou uma. Nem quando o trabalho apertava. Nem quando a reunião era importante. Ele estava ali. Sempre.A médica, Dra. Lúcia, entrou na sala com uma pasta na mão.O rosto dela estava sério.Meu coração apertou.— Sra. Alencar. Sr. Alencar. — Ela sentou na cadeira em frente a nós. A pasta foi aberta. Os papé
Ponto de vista: LucasA ambulância cortava o trânsito como uma navalha.As sirenes berravam. As luzes vermelhas e azuis giravam, refletindo nos vidros dos prédios, nos rostos curiosos das pessoas nas calçadas. O paramédico trabalhava sem parar ao lado de Pamela — aferindo os sinais, ajustando o soro, comprimindo o ombro dela para estancar o sangue.Eu não tirava os olhos dela.Pálida. Tão pálida que os lábios estavam brancos. Os cabelos bagunçados espalhados na maca. A camiseta encharcada de sangue — o sangue dela, que não parava de escorrer mesmo com os curativos.— Ela vai ficar bem? — perguntei pela quinta vez.— Estamos fazendo o possível, sr. — O paramédico respondeu pela quinta vez. — O tiro acertou o ombro. Não pegou órgãos vitais. Mas ela perdeu muito sangue. Vai precisar de cirurgia.— Ela não pode morrer.— Vamos fazer de tudo para que não morra.Apertei a mão dela. A mão fria. Os dedos finos, trêmulos. Ela não respondia ao toque — estava apagada, os olhos fechados, a respir
Ponto de vista: LucasO tempo parou.Macedo ergueu a arma. O cano escuro apontou para o meu peito. Os olhos dele estavam vidrados, desesperados — um animal acuado que só sabia morder.— Você escolheu morrer — ele disse, o dedo no gatilho.Eu ia atirar primeiro.Já estava com o braço erguido, a mira na cabeça dele, o pensamento frio e calculado.Cabeça. Colete. Não erra. Um tiro só.Foi quando ela se moveu.Pamela.Amarrada. Amordaçada. Machucada. Exausta.Ela se jogou.Com um esforço sobre-humano, a cadeira rangendo, as cordas arranhando os pulsos, ela se lançou para a frente — para o lado — para dentro da linha de tiro.— NÃO! — gritei.O tiro veio.O estrondo ecoou pelo depósito como um trovão. Os pássaros lá fora voaram assustados. A luz fraca tremeu.E ela caiu.O sangue espirrou. Vermelho vivo. Brilhante. Quente.Pamela caiu no chão de terra batida como um boneco de pano. O ombro dela — o ombro direito — estava aberto, jorrando. Os olhos dela se arregalaram. A boca, mesmo com a f





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