Mundo ficciónIniciar sesiónMaria Rita nunca sonhou com luxo, muito menos com um casamento arranjado com o homem mais temido de sua cidade. Fugindo do interior apenas com coragem e um jeito caipira impossível de disfarçar, ela acaba na cidade grande por acidente e por ironia do destino, dentro da mansão de um CEO bilionário, frio e controlador, que criou muralhas ao redor do próprio coração depois de perder os pais. Contratada como babá de uma menina órfã que não aceita ninguém, Maria Rita conquista o que ninguém conseguiu: um sorriso, um abraço e, sem perceber, começa a bagunçar a ordem perfeita da casa e da vida de Augusto Villar.
Leer másMaria Rita A rodoviária da cidade nunca tinha me parecido tão grande e tão pequena ao mesmo tempo. Grande demais pra caber tudo o que eu tava sentindo no peito, pequena demais pra segurar meus sonhos por mais tempo. O chão de cimento batido ainda guardava marcas antigas, riscadas por malas arrastadas e passos apressados de gente que vinha e ia sem deixar rastro. O cheiro era uma mistura de café requentado, poeira da estrada e ansiedade, aquela ansiedade que só lugar de partida tem.Eu tava ali, em pé, com uma bolsa simples pendurada no ombro e uma sacola de pano na mão, onde carregava o pouco que era meu. Dentro, tinha umas roupas dobradas com cuidado, a fotografia da minha mãe apertada entre duas camisetas e o envelope que tia Maricotinha tinha me entregado. Mais do que coisas, eu carregava coragem emprestada, daquelas que a gente nem sabe de onde vem, só sabe que precisa usar antes que acabe.Suelieta estava na minha frente, me olhando com aquele olhar que misturava orgulho e trist
Entrei em casa com o cuidado automático de quem já espera barulho, mesmo desejando o contrário. A porta pesada da mansão se fechou atrás de mim com um som oco, e por alguns segundos só ouvi o eco dos meus próprios passos no mármore do hall. O cheiro de comida vinha da cozinha, mas misturado a ele havia outro aroma conhecido: tensão.Não precisei andar muito para ouvir a birra.— Eu não quero! Já falei que não quero! — a voz de Helena cortou o silêncio da casa, aguda, carregada de raiva e cansaço.Dona Joana estava parada a poucos passos dela, mãos juntas à frente do corpo, expressão firme, porém cansada. Helena, sentada no chão da sala, tinha os braços cruzados com força, o rosto vermelho e os olhos faiscando numa mistura perigosa de orgulho e dor.Respirei fundo antes de me aproximar.— O que está acontecendo aqui? — perguntei, mantendo a voz baixa, controlada.Helena me lançou um olhar rápido, quase desafiador, e voltou a encarar o chão como se eu não estivesse ali. Dona Joana foi q
Augusto Villar Eu ainda estava preso em uma reunião que já tinha ultrapassado o tempo previsto quando o telefone vibrou sobre a mesa de vidro. O nome de dona Joana apareceu na tela, e eu soube, antes mesmo de atender, que alguma coisa tinha dado errado em casa.Pedi licença aos diretores ao redor da mesa, levantei-me e fui até um canto mais reservado da sala.— Dona Joana, o que houve agora? — perguntei, mantendo a voz baixa, mas já prevendo o teor da ligação.Do outro lado da linha, a governanta pigarreou, daquele jeito cuidadoso que sempre fazia antes de dar más notícias.— Não queria te incomodar no trabalho Augusto, mas achei melhor avisar… A Helena afugentou mais uma babá.Fechei os olhos por um instante e soltei um suspiro lento, pesado. Encarei a parede de vidro à minha frente, observando a cidade lá embaixo, organizada, previsível tão diferente do que me esperava em casa.— O que aconteceu desta vez? — perguntei, já cansado.— Nada que já não tenha acontecido antes… — respond
Tia Maricotinha gritou, a voz ecoando pela casa.Eu estremeci.— Isso mesmo — completei, limpando o rosto. — Pro mês que vem.Ela ficou de pé de novo, andando pela sala como bicho preso.— Aquela mulher enlouqueceu de vez! — exclamou. — Dar a filha da Aurora pra aquele bruto?!— Eu disse que não quero — falei. — Mas ela diz que eu não tenho escolha.Tia Maricotinha parou na minha frente, o olhar sério.— Ocê tem escolha, sim.— Tenho? — perguntei, quase sem acreditar.— Tem — ela afirmou. — E mais do que imagina.Suelieta sorriu de canto.— Eu falei pra ela que a senhora ia saber o que fazer.Tia Maricotinha respirou fundo, se acalmando aos poucos.— Primeiro — disse — ocê precisa parar de acreditar nessas mentira que te contaram a vida inteira. Ocê não deve nada a essa cidade.Meu coração bateu mais forte.— Segundo — continuou — sua mãe deixou mais coisa pra ocê do que culpa. Deixou coragem.Ela foi até um armário velho e puxou uma gaveta. Voltou com um envelope amarelado.— Aurora
O caminho até a casa da tia Maricotinha sempre me deu um aperto diferente no peito. Não era medo, exatamente. Era uma mistura de curiosidade com aquele respeito estranho que a gente sente por quem sabe mais da vida do que aparenta. A estrada que levava até lá era menos batida, com o mato crescendo mais alto dos dois lados, como se pouca gente tivesse coragem de ir até o fim. Diziam que era porque tia Maricotinha era esquisita. Eu achava que era porque ela enxergava demais.Eu e Suelieta íamos lado a lado, em silêncio por boa parte do caminho. O sol já estava alto, queimando a nuca, e o pó grudava no suor das pernas. De vez em quando, Sueli chutava uma pedrinha só pra quebrar o silêncio.— Ocê tá bem? — ela perguntou, depois de um tempo.— Tô — respondi, sem muita convicção. — Ou pelo menos tô indo.Ela assentiu, como se entendesse exatamente o que aquilo significava.A casa da tia Maricotinha apareceu depois da curva do jatobá velho. Pequena, simples, mas bem cuidada. Tinha flores em
Saí da cozinha com o peito apertado e a cabeça zunindo, como se tivesse um enxame de abelha fazendo ninho ali dentro. O sol ainda nem tinha esquentado direito o terreiro, mas eu já me sentia cansada feito fim de dia. Atravessei o quintal de chinelo arrastando no chão, desviando das galinhas, sem nem ligar pro pó subindo na barra da saia. A mangueira velha balançava devagar com o vento, e eu pensei que até ela parecia saber que alguma coisa tinha desandado de vez.Não fui pro quarto. Se entrasse ali, talvez desabasse em cima da cama e não levantasse mais. Fui direto pra estrada de terra, aquela que levava pra casa da Suelieta. Meus pés sabiam o caminho sozinhos, de tanto ir e vir desde menina. A casa dela ficava a uns quinze minutos andando, passando pelo armazém do seu Nicanor, pela igrejinha branca de porta azul e pela venda onde o povo sempre se juntava pra falar da vida alheia.Enquanto caminhava, as palavras da tia Lourdes rodavam na minha cabeça sem parar: casamento arranjado, Zé
Último capítulo