Babá por Acidente

Babá por Acidente PT

Romance
Última actualización: 2026-01-15
S.R.Silva  Recién actualizado
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Resumen
Índice

Maria Rita nunca sonhou com luxo, muito menos com um casamento arranjado com o homem mais temido de sua cidade. Fugindo do interior apenas com coragem e um jeito caipira impossível de disfarçar, ela acaba na cidade grande por acidente e por ironia do destino, dentro da mansão de um CEO bilionário, frio e controlador, que criou muralhas ao redor do próprio coração depois de perder os pais. Contratada como babá de uma menina órfã que não aceita ninguém, Maria Rita conquista o que ninguém conseguiu: um sorriso, um abraço e, sem perceber, começa a bagunçar a ordem perfeita da casa e da vida de Augusto Villar.

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Capítulo 1

Capítulo 1  — O dia em que a notícia caiu feito pedra em poço fundo

Maria Rita dos Anjos

O cheiro de café passado na hora ainda se espalhava pela cozinha quando tia Lourdes pigarreou do outro lado da mesa. A chaleira chiava baixo no fogão a lenha, como se também estivesse querendo dar opinião naquele assunto que ainda nem tinha sido dito, mas que eu senti no corpo antes mesmo de ouvir. Era sempre assim: quando a tia limpava a garganta daquele jeito, vinha coisa grande atrás. Coisa que mudava o rumo da vida da gente sem pedir licença.

Eu estava sentada no banco de madeira, com o cotovelo apoiado na mesa cheia de marcas antigas, descascadas pelo tempo e por tantas histórias vividas ali. Rodava a colher dentro da caneca esmaltada, olhando o café fazer redemoinho, como se aquilo pudesse me hipnotizar e me tirar dali. O galo do vizinho cantou fora de hora, e uma galinha passou correndo pela porta aberta, levantando poeira do quintal.

— Maria Rita — tia Lourdes disse, com a voz mais firme do que de costume —, preciso conversar com ocê.

Levantei os olhos devagar, já com o coração meio apertado, daquele jeito que fica quando a gente sabe que não vem coisa boa. A tia estava sentada de frente pra mim, as mãos cruzadas sobre a mesa, o rosto sério demais pra uma manhã que costumava ser simples.

— Fala, tia… — respondi, tentando parecer tranquila, mas sentindo o estômago embrulhar.

Ela respirou fundo, como quem cria coragem, e soltou a frase de uma vez, sem rodeio, sem enfeite, do jeito que notícia ruim costuma chegar no interior:

— Arranjei seu casamento.

A colher bateu no fundo da caneca com um estalo seco. Por um segundo, achei que tinha escutado errado. Fiquei olhando pra ela, esperando o resto da frase, alguma explicação, uma risada dizendo que era brincadeira. Mas não veio nada disso. Só o silêncio pesado da cozinha e o barulho distante de um carro passando devagar pela estrada de terra.

— Como é que é? — perguntei, meio sem voz.

— Isso mesmo que ocê ouviu, Maria Rita. Seu casamento tá arranjado. — Ela se ajeitou na cadeira, como se estivesse falando da coisa mais normal do mundo. — E não é qualquer casamento, não. É coisa boa pra ocê.

Meu coração começou a bater forte, descompassado. Senti um calor subir pelo rosto, as mãos suando.

— Arranjado…? — repeti, ainda tentando entender. — Mas… tia, ninguém falou nada disso comigo.

— Agora tô falando — respondeu, firme. — E é pro seu bem.

Engoli seco.

— E… com quem seria esse casamento? — perguntei, já desconfiada, mas ainda rezando por dentro pra não ser quem eu imaginava.

A tia desviou o olhar por um instante, levantou-se pra apagar o fogo da chaleira, como se precisasse daquele tempo a mais antes de dizer o nome.

— Com o Zé dos Porcos.

Se antes meu coração batia forte, agora parecia que tinha parado de vez. O mundo deu uma girada lenta, igual quando a gente levanta rápido demais da cama. Zé dos Porcos. Todo mundo na região conhecia. Não precisava nem explicar quem era. Homem mais velho, bruto, com as mãos sempre sujas de sangue de porco, fama de carrancudo e de beber mais do que devia. Ninguém nunca tinha ouvido falar de casamento por amor vindo daquele lado.

— Não — eu disse, me levantando de supetão, quase derrubando o banco. — Não, tia. Isso não. Com ele, não.

— Senta, Maria Rita — ela ordenou, apontando pro banco. — Para de fazer escândalo.

— Eu não vou casar com esse homem! — Minha voz saiu mais alta do que eu pretendia, ecoando pela cozinha pequena. — Eu não quero! Eu não escolhi isso!

Ela cruzou os braços, o olhar endurecendo.

— Querer ou não querer não muda as coisa, minha filha. A vida não é feita só do que a gente quer.

— Mas é a minha vida! — retruquei, sentindo os olhos arderem. — Eu não gosto dele, nem conheço direito! Eu nem… — Minha voz falhou. — Eu nem penso em casar agora.

A tia soltou um suspiro pesado, daqueles que carregam anos de cansaço e de costume.

— Ocê já tá em idade, Maria Rita. E mais: ocê não pode escolher muito, não.

Essa frase bateu mais forte do que qualquer grito.

— Como assim não posso escolher? — perguntei, sentindo um nó se formar na garganta.

Ela me encarou de frente, sem suavizar as palavras:

— Ocê é órfã de mãe. E pai… ninguém nem sabe quem é.

Senti como se alguém tivesse jogado água fria em cima de mim. Aquela história, que sempre rondou minha vida como um sussurro maldoso, agora vinha à tona daquele jeito, dita em voz alta, sem cuidado.

— Sua mãe foi pra cidade grande e voltou grávida — continuou tia Lourdes, como se estivesse narrando um fato distante, e não a minha origem. — Nunca disse quem era o pai. Criou ocê sozinha até onde deu, e depois… — Ela parou, pigarreou de novo. — Depois Deus levou ela cedo demais.

Baixei a cabeça. Eu sabia de tudo aquilo. Sempre soube. Mas ouvir assim, jogado na mesa como argumento, doía diferente.

— E desde então — ela prosseguiu —, quem assumiu ocê fui eu. Dei casa, comida, nome limpo. E agora é minha obrigação arrumar um destino seguro pra ocê.

— Destino seguro não é isso — murmurei. — Casar com alguém que eu tenho medo não é segurança.

— Medo passa — respondeu, seca. — Fome não. Solidão não.

— Mas eu posso trabalhar, tia! — falei, levantando os olhos. — Posso arrumar serviço na cidade, na casa de alguém. Eu ajudo aqui, sempre ajudei!

Ela deu uma risadinha curta, sem humor.

— Cidade pequena não é lugar pra moça sozinha, Maria Rita. O povo fala. E ocê sabe disso. Já fala demais só por causa da história da sua mãe.

Aquelas palavras me atingiram como agulhadas. Eu conhecia cada cochicho, cada olhar atravessado na missa, cada comentário maldoso na fila da venda. Mas nunca achei que minha própria tia usaria isso contra mim.

— Então eu tenho que pagar pelo que minha mãe fez? — perguntei, a voz tremendo. — Tenho que casar com um homem que eu não quero só pra calar a boca dos outros?

— Não é castigo — ela disse. — É solução.

— Pra quem? — perguntei. — Pra mim não é.

O silêncio voltou a tomar conta da cozinha. Lá fora, o vento mexia as folhas da mangueira, e eu pensei em como aquele quintal tinha sido o meu mundo inteiro até ali. Simples, apertado, mas meu. E agora parecia pequeno demais pra caber o medo que crescia dentro de mim.

— O Zé é trabalhador — tia Lourdes insistiu. — Tem dinheiro, tem terra, tem criação. Ocê não vai passar necessidade.

— Mas vou passar tristeza — respondi. — E isso também mata aos poucos.

Ela se levantou de novo, começou a juntar as coisas da mesa, como se aquela conversa já estivesse encerrada.

— O casamento tá marcado pro mês que vem — anunciou, sem olhar pra mim. — E pronto.

Senti o chão sumir debaixo dos meus pés.

— Mês que vem…? — repeti, quase num sussurro.

— É. E ocê trate de se conformar. Melhor pra todo mundo.

Meu peito apertou tanto que parecia que eu não conseguia puxar o ar direito. Olhei em volta, praquelas paredes simples, praquele fogão antigo, pra tudo que sempre fez parte da minha vida, e pela primeira vez senti que aquilo não era abrigo. Era prisão.

— Eu não vou — falei, com uma coragem que nem eu sabia de onde vinha. — Eu não vou casar com ele, tia.

Ela parou o que estava fazendo e me encarou, surpresa com o tom.

— Não fala bobagem, menina.

— Não é bobagem. — Endireitei os ombros. — Eu prefiro ir embora do que casar com o Zé dos Porcos.

O nome saiu da minha boca com gosto amargo.

— Ir embora pra onde? — ela perguntou, quase debochando. — Ocê não tem nada, Maria Rita. Nem dinheiro, nem estudo, nem parente fora daqui.

Respirei fundo, sentindo o coração martelar no peito.

— Então eu arranjo — respondi. — Mas eu não fico.

Ela me olhou por um longo momento, como se estivesse tentando medir até onde ia minha teimosia. Depois balançou a cabeça, cansada.

— Ocê sempre foi igual à sua mãe — disse, por fim. — Cabeça dura. Achando que a cidade grande é solução pra tudo.

Aquela frase acendeu algo dentro de mim. Talvez fosse medo. Talvez fosse esperança. Talvez fosse só desespero.

— Talvez seja — respondi. — Mas eu não vou descobrir ficando aqui.

Peguei minha caneca ainda cheia de café, dei um gole que desceu queimando, e deixei em cima da mesa. Saí da cozinha com as pernas trêmulas, mas com uma certeza martelando forte: se eu ficasse, minha vida já estava decidida. E não era a vida que eu queria viver.

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