Saí da cozinha com o peito apertado e a cabeça zunindo, como se tivesse um enxame de abelha fazendo ninho ali dentro. O sol ainda nem tinha esquentado direito o terreiro, mas eu já me sentia cansada feito fim de dia. Atravessei o quintal de chinelo arrastando no chão, desviando das galinhas, sem nem ligar pro pó subindo na barra da saia. A mangueira velha balançava devagar com o vento, e eu pensei que até ela parecia saber que alguma coisa tinha desandado de vez.
Não fui pro quarto. Se entrasse ali, talvez desabasse em cima da cama e não levantasse mais. Fui direto pra estrada de terra, aquela que levava pra casa da Suelieta. Meus pés sabiam o caminho sozinhos, de tanto ir e vir desde menina. A casa dela ficava a uns quinze minutos andando, passando pelo armazém do seu Nicanor, pela igrejinha branca de porta azul e pela venda onde o povo sempre se juntava pra falar da vida alheia.
Enquanto caminhava, as palavras da tia Lourdes rodavam na minha cabeça sem parar: casamento arranjado, Zé dos Porcos, destino seguro. Seguro pra quem? Pra mim não era, disso eu tinha certeza. Cada passo que eu dava parecia me afastar um pouco daquela cozinha apertada e me aproximar da única pessoa que sempre me escutava sem julgar.
Suelieta. Minha amiga desde que a gente se entendia por gente. Crescemos juntas, correndo descalça pelo pasto, tomando banho de rio escondido e dividindo sonhos que nunca couberam direito naquela cidade pequena. Se tinha alguém que ia me entender, era ela.
Cheguei na frente da casa dela ofegante, não tanto pelo caminho, mas pelo peso que eu carregava no peito. A casa era simples, de parede caiada e varanda baixa, com um banco de madeira sempre ocupado por alguém. Dessa vez, Suelieta estava lá, sentada no batente da porta, descascando milho num balaio, o cabelo preso de qualquer jeito e o vestido florido meio desbotado.
— Uai, Maria Rita? — ela estranhou assim que me viu. — Que que ocê tá fazendo aqui essa hora? Aconteceu alguma coisa?
Eu nem respondi direito. Sentei no chão da varanda, encostei as costas na parede e abracei os joelhos, tentando juntar os pedaços de mim antes de falar.
— Sueli… — comecei, com a voz embargada. — Deu ruim.
Ela largou o milho na hora, limpou as mãos no pano do ombro e se aproximou, sentando ao meu lado.
— Ruim quanto? — perguntou, já preocupada. — Ruim de derrubar cerca ou ruim de desabar telhado?
Soltei um meio riso sem graça, mas logo a vontade de chorar voltou com força.
— Ruim de acabar com a vida da gente, eu acho.
Suelieta franziu a testa.
— Fala direito, menina. Tá me dando gastura já.
Respirei fundo, olhando pro terreiro dela, pras galinhas ciscando, pra aquele cenário que sempre foi tão igual ao meu. Tudo parecia normal demais pra notícia que eu carregava.
— Minha tia… — comecei devagar. — Minha tia arranjou meu casamento.
Ela ficou parada por um segundo, como se não tivesse entendido.
— Arranjou o quê?
— Meu casamento — repeti. — Tá marcado pro mês que vem.
— Ocê tá brincando comigo, né? — ela perguntou, abrindo um sorriso nervoso, esperando que eu dissesse que era mentira.
Balancei a cabeça, sentindo os olhos encherem de água.
— Não tô, não.
O sorriso dela sumiu na hora.
— E… com quem? — perguntou, cautelosa.
Engoli seco antes de dizer o nome.
— Com o Zé dos Porcos.
O silêncio que se fez ali foi tão pesado quanto o da cozinha de casa. Suelieta arregalou os olhos, levou a mão à boca e depois soltou de uma vez:
— Ave-Maria, Maria Rita! Ocê não pode casar com aquele velho, não!
— Pois é — murmurei. — Mas é isso que ela quer.
— Quer nada! — Suelieta se levantou de um pulo, começando a andar de um lado pro outro da varanda. — Aquele homem tem idade pra ser quase avô seu! Vive fedendo a cachaça e sangue de porco! O povo morre de medo dele!
— Eu sei — respondi, com a voz baixa. — Todo mundo sabe.
Ela parou na minha frente, me encarando com seriedade.
— E ocê? O que que ocê quer?
A pergunta era simples, mas parecia que ninguém tinha feito ela ainda daquele jeito. Levantei o rosto pra Suelieta, sentindo uma firmeza nascer dentro de mim junto com as palavras.
— Eu não quero casar com ele. De jeito nenhum.
— Graças a Deus — ela soltou, aliviada. — Já tava achando que ocê tinha ficado doida.
— O problema é que eu não sei o que fazer — continuei. — Minha tia diz que eu não tenho escolha. Fica jogando na minha cara que eu não tenho pai, que minha mãe morreu, que eu dependo dela pra tudo.
Suelieta sentou de novo ao meu lado, mais calma agora.
— E ocê vai aceitar isso assim, não vai?
Balancei a cabeça com força.
— Não. Eu prefiro ir embora.
Ela me olhou surpresa.
— Ir embora? Pra onde, criatura?
— Não sei — respondi, sincera. — Só sei que ficar aqui e casar com ele eu não fico. Não consigo. Parece que só de pensar eu já vou perdendo o ar.
Suelieta ficou quieta por um tempo, olhando pro nada, como se estivesse montando um quebra-cabeça na cabeça. Eu sabia que quando ela ficava assim era porque vinha ideia.
— Maria Rita — ela disse por fim —, ocê já pensou em falar com tia Maricotinha?
Levantei as sobrancelhas, surpresa.
— Tia Maricotinha?
— Ela mesma.
Fiquei em silêncio, pensando. Tia Maricotinha era conhecida na cidade inteira. Irmã mais velha da minha mãe, morava sozinha num casebre mais afastado, perto da estrada que levava pra fora do município. Diziam que ela era meio esquisita, meio sabida demais. Já tinha trabalhado na cidade grande, visto coisa que o povo daqui só conhecia por conversa.
— E que que ela pode fazer? — perguntei, desconfiada.
Suelieta sorriu de canto.
— Se tem alguém que não engole essas ideia de casamento arranjado e moral de interior, é ela. Além do mais, ela sempre teve um carinho danado por ocê, mesmo de longe.
— Minha tia Lourdes não fala com ela faz anos — lembrei. — Diz que Maricotinha botou ideia errada na cabeça da minha mãe.
— Pois é — Suelieta respondeu. — E ocê viu no que deu seguir só a cabeça da sua tia Lourdes.
Aquilo doeu, mas eu sabia que tinha verdade ali.
— Mas será que ela vai me ajudar? — perguntei, insegura.
— Pior do que tá não fica — Suelieta disse, dando de ombros. — E, olha, Maria Rita… — Ela segurou minha mão. — Ocê não nasceu pra viver presa aqui, não. Todo mundo sabe disso, só finge que não vê.
Senti um nó se formar na garganta. Aquela frase parecia abraçar todos os sentimentos que eu nunca consegui colocar em palavra.
— Eu tenho medo — confessei. — Medo de ir embora, medo de ficar. Parece que qualquer escolha machuca.
— Machuca mesmo — ela concordou. — Mas tem dor que passa e tem dor que fica pra sempre. Casar com o Zé dos Porcos é daquelas que fica.
Soltei um suspiro longo, sentindo um pouco do peso sair dos ombros só de falar.
— Então ocê acha que a gente devia ir falar com tia Maricotinha? — perguntei.
— Acho não — ela respondeu, decidida. — Tenho certeza.
— Hoje? — questionei.
— Hoje — confirmou. — Antes que sua tia Lourdes invente de espalhar isso pra cidade inteira e o povo comece a te tratar como propriedade do Zé.
A ideia me deu um arrepio.
— Tá — concordei, levantando devagar. — Então vamos.
Suelieta abriu um sorriso animado, daquele jeito que sempre tinha quando a gente se metia em alguma encrenca.
— Eu sabia que ocê não ia amarelar.
— Não é coragem, não — respondi. — É desespero mesmo.
Ela riu.
— Às vezes é a mesma coisa.
A gente se despediu rápido da mãe dela, que nem estranhou muito, naquela cidade, duas moças andando juntas sempre dava em conversa, mas ninguém perguntava demais. Seguimos pela estrada, agora juntas, com o sol já subindo mais forte e a poeira grudando no tornozelo.
Enquanto caminhava, senti que aquela conversa com Suelieta tinha acendido alguma coisa dentro de mim. Não era certeza ainda, nem plano direito, mas era esperança. Pequena, tremida, mas viva. E naquele momento, era tudo que eu tinha.
Talvez tia Maricotinha não resolvesse tudo. Talvez não tivesse milagre nenhum esperando por mim no fim daquela estrada. Mas uma coisa eu sabia com clareza: eu não ia aceitar que decidissem minha vida por mim sem luta.