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Capítulo 6 - O que não cabe em silêncio

Entrei em casa com o cuidado automático de quem já espera barulho, mesmo desejando o contrário. A porta pesada da mansão se fechou atrás de mim com um som oco, e por alguns segundos só ouvi o eco dos meus próprios passos no mármore do hall. O cheiro de comida vinha da cozinha, mas misturado a ele havia outro aroma conhecido: tensão.

Não precisei andar muito para ouvir a birra.

— Eu não quero! Já falei que não quero! — a voz de Helena cortou o silêncio da casa, aguda, carregada de raiva e cansaço.

Dona Joana estava parada a poucos passos dela, mãos juntas à frente do corpo, expressão firme, porém cansada. Helena, sentada no chão da sala, tinha os braços cruzados com força, o rosto vermelho e os olhos faiscando numa mistura perigosa de orgulho e dor.

Respirei fundo antes de me aproximar.

— O que está acontecendo aqui? — perguntei, mantendo a voz baixa, controlada.

Helena me lançou um olhar rápido, quase desafiador, e voltou a encarar o chão como se eu não estivesse ali. Dona Joana foi quem respondeu.

— A moça tentou fazê-la almoçar, Augusto. Helena não quis nem chegar perto da mesa. Depois disse que não precisava de babá nenhuma e jogou a comida nela. 

— Porque eu não preciso! — ela gritou, levantando-se de um pulo. — Aquela mulher era ridícula!

Ergui uma sobrancelha, cruzando os braços.

— Ridícula como? — perguntei.

— Falava comigo como se eu fosse bebê — ela rebateu. — Só fingia que se importava quando você tava por perto. Depois nem ligava pra mim!

Havia exagero ali, eu sabia. Mas também havia verdade. Crianças percebem mais do que adultos gostam de admitir.

— Helena — falei com firmeza — sentar no chão e gritar não vai resolver nada.

— Não resolve mesmo! — ela respondeu, os olhos brilhando de raiva. — Nada resolve nessa casa!

Dona Joana pigarreou, desconfortável.

— Vou deixar vocês conversarem — disse ela, com cuidado. — Depois tento de novo com o jantar.

Assenti, agradecido. Assim que ficamos sozinhos, o silêncio se espalhou pela sala, pesado, quase palpável. Helena ficou parada perto do sofá, braços cruzados, tentando parecer maior do que realmente era.

— Sobe comigo — pedi. — Vamos conversar no seu quarto.

— Não quero — respondeu de imediato.

— Helena — chamei, mais sério. — Não é um pedido.

Ela bufou, mas acabou subindo as escadas na minha frente, pisando forte em cada degrau, como se quisesse que a casa inteira sentisse sua raiva. Entrei no quarto logo atrás dela. O ambiente ainda guardava traços de infância: bonecas alinhadas numa prateleira, desenhos colados na parede, uma colcha colorida sobre a cama grande demais para o corpo pequeno que a ocupava.

— Fala logo o que você quer — disse ela, sentando na ponta da cama.

Apoiei-me na cômoda, observando-a com atenção.

— Eu quero entender por que você acha que pode se virar sozinha.

Ela deu de ombros.

— Porque eu posso. Já sou grande.

— Você tem oito anos — lembrei, sem dureza. — Ainda precisa de ajuda.

— Não! — ela gritou. — Quando eu precisava de ajuda onde o pai e a mãe estavam? 

As palavras vieram como um golpe inesperado.

Fiquei imóvel por um segundo.

— Helena… — comecei, escolhendo cada palavra com cuidado — o que aconteceu com eles não foi culpa de ninguém.

— Foi sim! — ela rebateu, os olhos marejados agora. — Se eles não tivessem ido viajar naquele dia, se não tivessem entrado naquele carro…

— Chega — interrompi, firme, aproximando-me. — Eles não tiveram culpa. Nem você. Nem eu.

Ela desviou o rosto, o queixo tremendo.

— Eu odeio quando todo mundo vai embora — murmurou. 

Ali estava a verdade. Não na birra, não no grito. Mas naquele medo cru, exposto sem defesa.

Sentei-me à frente dela, abaixando até ficar na mesma altura.

— Eu não vou embora — disse, com convicção. — Nunca fui. Nunca vou.

Uma lágrima solitária escapou do canto do olho dela, descendo devagar pelo rosto. Sem pensar, estendi a mão e a sequei com o polegar, gesto simples, quase esquecido, mas carregado de tudo que eu não sabia dizer.

Ela não se afastou.

— Às vezes parece que você tá sempre ocupado demais — ela confessou, a voz baixa. — E que se eu precisar de você… você não vai ter tempo.

Meu peito apertou.

— Eu erro — admiti. — Muito. Mas você é a coisa mais importante da minha vida, Helena. Mesmo quando eu não sei demonstrar direito.

Ela me encarou por alguns segundos, avaliando minhas palavras como quem tenta decidir se vale a pena acreditar. Então, de repente, se jogou contra mim, me abraçando com força, o rosto escondido no meu peito.

Envolvi-a com os braços, sentindo o corpo pequeno tremer.

— Eu sinto falta deles — ela sussurrou.

— Eu também — respondi, fechando os olhos. — Todos os dias.

Ficamos assim por um tempo, até a respiração dela se acalmar. Quando se afastou um pouco, enxugou o rosto com a manga do pijama.

— Você promete que a próxima babá não vai ser estranha? — perguntou, desconfiada.

Um canto do meu rosto se moveu num quase sorriso.

— Prometo tentar — respondi. — Dona Joana vai encontrar alguém bom. Alguém que não finja se importar. Alguém que fique.

— E se eu não gostar? — insistiu.

— Aí a gente conversa — disse. — Sem grito, sem birra e sem jogar comida no rosto de ninguém. 

Ela pensou por um instante e assentiu, relutante.

— Tá.

Levantei-me e estendi a mão pra ela.

— Agora vamos jantar?

— Só se você for comigo — respondeu.

— Sempre — garanti.

Enquanto descíamos juntos as escadas, tive a estranha sensação de que algo estava prestes a mudar.

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