Mundo de ficçãoIniciar sessãoTia Maricotinha gritou, a voz ecoando pela casa.
Eu estremeci. — Isso mesmo — completei, limpando o rosto. — Pro mês que vem. Ela ficou de pé de novo, andando pela sala como bicho preso. — Aquela mulher enlouqueceu de vez! — exclamou. — Dar a filha da Aurora pra aquele bruto?! — Eu disse que não quero — falei. — Mas ela diz que eu não tenho escolha. Tia Maricotinha parou na minha frente, o olhar sério. — Ocê tem escolha, sim. — Tenho? — perguntei, quase sem acreditar. — Tem — ela afirmou. — E mais do que imagina. Suelieta sorriu de canto. — Eu falei pra ela que a senhora ia saber o que fazer. Tia Maricotinha respirou fundo, se acalmando aos poucos. — Primeiro — disse — ocê precisa parar de acreditar nessas mentira que te contaram a vida inteira. Ocê não deve nada a essa cidade. Meu coração bateu mais forte. — Segundo — continuou — sua mãe deixou mais coisa pra ocê do que culpa. Deixou coragem. Ela foi até um armário velho e puxou uma gaveta. Voltou com um envelope amarelado. — Aurora me pediu pra guardar isso — explicou. — Disse que era pra te entregar se um dia ocê precisasse sair daqui. Minhas mãos tremiam quando peguei o envelope. — O que é? — perguntei. — Um empurrão — ela respondeu. — Não resolve tudo, mas abre estrada. Olhei pra Suelieta, que me encarava com os olhos brilhando. — Eu não sei nem por onde começar — confessei. Tia Maricotinha pousou a mão no meu ombro. — Começa acreditando que sua vida não pertence a ninguém além de ocê. Tia Maricotinha ficou em silêncio por alguns segundos depois daquilo. O barulho do relógio de parede marcava o tempo com um tic-tac nervoso, como se também estivesse ansioso com o que vinha a seguir. Ela passou a mão no avental, respirou fundo e apontou com o queixo pra cadeira. — Ocês esperem um cadinho aí. E saiu pelo corredor estreito, aquele corredor antigo que rangia no assoalho e guardava cheiro de madeira velha, sabão de cinza e lembrança. Eu e Suelieta ficamos quietas, uma olhando pra outra, como se qualquer palavra fosse capaz de quebrar alguma coisa invisível. — Rita… — Suelieta sussurrou — ocê tá sentindo isso também? — Tô — respondi baixinho. — Parece que o mundo tá virando do avesso. Ela segurou minha mão por cima da mesa. A mão dela tava quente, firme, daquele jeito de amizade que não precisa de promessa nenhuma. A gente ficou assim até ouvir o passo de tia Maricotinha voltando, mais lento dessa vez. Ela apareceu na porta da sala segurando um envelope menor, mais gasto ainda que o outro. Dentro, dava pra ver a beiradinha de uma fotografia antiga. Ela fechou a porta atrás de si, como quem precisava de privacidade até das paredes. — Maria Rita — disse meu nome inteiro, com aquela voz que misturava carinho e seriedade — tem coisa que eu devia ter contado antes… mas promessa é promessa. Meu estômago deu um nó. Ela sentou na minha frente e tirou a fotografia de dentro do envelope com cuidado, como se fosse frágil demais. Depois, empurrou devagar na minha direção. Peguei com os dedos trêmulos. Era uma foto desbotada, meio amarelada pelo tempo. Uma mulher jovem, sorrindo largo, cabelo preso de qualquer jeito, vestida com um vestido simples… minha mãe. Aurora. Ao lado dela, um homem alto, moreno claro, sorriso tímido, braço envolto no ombro dela. Atrás, um letreiro que eu não conhecia, coisa de cidade grande. No canto de trás, escrito à caneta azul já quase apagada, tinha uma frase: “Eu e Maurício Sousa Outubro de 2004” Meu peito apertou. — Outubro de 2004… — murmurei. — Mas isso é… um ano antes de eu nascer. Levantei o olhar devagar pra tia Maricotinha. — Quem é esse homem? Ela não desviou os olhos. Nem tentou adoçar a verdade. — Esse, Maria Rita… é seu pai. Senti como se o chão tivesse sumido debaixo dos meus pés. Meu coração começou a bater tão forte que parecia querer escapar pela boca. — Meu… pai? — repeti, sem reconhecer a própria voz. — É — ela confirmou. — Maurício Sousa. Homem da cidade grande. Trabalhoso, cheio de ideia, desses que nunca param quietos. Sua mãe conheceu ele quando foi trabalhar fora. Se apaixonaram. — Mas… — engoli em seco — por que ele nunca apareceu? Tia Maricotinha suspirou pesado. — Porque a vida nem sempre segue o rumo que a gente quer, fia. Aurora voltou grávida porque brigou com ele. Orgulho dos dois lados. Ela achou que dava conta sozinha. E deu… do jeito dela. Suelieta levou a mão à boca, emocionada. — A tia Aurora era braba — disse ela. — Sempre foi. — Era — concordou tia Maricotinha. — E te puxou nisso. Olhei de novo pra foto. O homem ali parecia… normal. Não tinha cara de mistério, nem de abandono. Só parecia alguém que eu podia ter conhecido. Alguém que devia saber que eu existia. — Sua mãe deixou um dinheiro guardado — continuou tia Maricotinha. — Não é fortuna, mas dá pra ocê começar. Alugar um canto, comer, respirar sem dever favor pra ninguém. — E o que a senhora acha que eu devo fazer? — perguntei, mesmo já sentindo a resposta dentro de mim. Ela segurou minhas mãos com firmeza. — Acho que ocê tem que pegar esse dinheiro, essa coragem que herdou, e ir pra cidade grande. Refazer sua vida. Encontrar seu pai… ou pelo menos encontrar a si mesma. As lágrimas escorreram sem pedir licença. — Eu tenho medo — confessei. — Eu sei — ela respondeu. — Mas medo não é motivo pra ficar. Às vez, é motivo pra ir. Suelieta se levantou e me abraçou por trás, forte. — Ocê não vai sozinha — disse. — Nem que seja em pensamento. Ficamos ali mais um tempo, chorando, respirando, tentando entender como a vida inteira podia mudar em uma tarde. Quando finalmente nos despedimos de tia Maricotinha, o céu já tava ficando alaranjado, o sol descendo atrás das montanhas, pintando tudo de uma melancolia bonita. O caminho de terra parecia mais longo do que nunca. — Eu vou sentir tanta falta de ocê — Suelieta disse, chutando uma pedrinha no caminho. — Eu também — respondi. — Mas prometo que assim que eu me ajeitar… mando passagem pra ocê. A gente ainda vai rir disso tudo na cidade grande. Ela parou de andar e me puxou pra um abraço apertado, daqueles que quase quebram costela. — Vai com Deus, Maria Rita. E não deixa ninguém te diminuir. — Nem ocê — falei, sorrindo entre lágrimas. — Nunca. Nos soltamos devagar, como quem não queria que o momento acabasse, e seguimos cada uma pro seu lado. Quando cheguei em casa, a lamparina já tava acesa. Minha tia estava sentada à mesa, braços cruzados, expressão fechada como tempo de chuva braba. — Onde ocê tava até essa hora, menina? — ralhou assim que me viu. — Casa não é pensão! Respirei fundo, cansada demais pra brigar, mas algo dentro de mim já não aceitava calar tão fácil. — A Vanessa passa noite inteira fora e a senhora não fala nada — respondi, com a voz firme. — Por que comigo é diferente? Ela levantou num pulo. — Não compara! — gritou. — Vanessa é estudada, é moça livre! Tem futuro! — E eu não tenho, não? — perguntei, sentindo o nó voltar à garganta. Ela me olhou de cima a baixo, com desprezo que doeu mais que tapa. — Ocê não tem pai. Nem mãe. Não tem estudo. Não tem nome pra sustentar. Tem é que agradecer que arrumei casamento pra ocê. Virou-se e foi até o canto da cozinha, puxando a tampa de uma barrica grande. O cheiro forte de banha tomou o ar. Dentro, pedaços de porco cuidadosamente cortados. — Zé dos Porcos mandou — disse ela. — Pra selar o compromisso. Homem direito, trabalhador. Ocê devia se orgulhar. Olhei pra aquilo tudo em silêncio. A barrica, a carne, o futuro que queriam empurrar goela abaixo. Senti algo diferente. Não era medo. Nem tristeza. Era decisão. — Boa noite, tia — falei apenas. — Vou dormir. Ela ainda resmungou alguma coisa, mas eu já tava no meu quarto, fechando a porta devagar. Sentei na cama dura, com a fotografia apertada contra o peito.






