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Capítulo 7 - Hora de sair da gaiola

Maria Rita 

A rodoviária da cidade nunca tinha me parecido tão grande e tão pequena ao mesmo tempo. Grande demais pra caber tudo o que eu tava sentindo no peito, pequena demais pra segurar meus sonhos por mais tempo. O chão de cimento batido ainda guardava marcas antigas, riscadas por malas arrastadas e passos apressados de gente que vinha e ia sem deixar rastro. O cheiro era uma mistura de café requentado, poeira da estrada e ansiedade, aquela ansiedade que só lugar de partida tem.

Eu tava ali, em pé, com uma bolsa simples pendurada no ombro e uma sacola de pano na mão, onde carregava o pouco que era meu. Dentro, tinha umas roupas dobradas com cuidado, a fotografia da minha mãe apertada entre duas camisetas e o envelope que tia Maricotinha tinha me entregado. Mais do que coisas, eu carregava coragem emprestada, daquelas que a gente nem sabe de onde vem, só sabe que precisa usar antes que acabe.

Suelieta estava na minha frente, me olhando com aquele olhar que misturava orgulho e tristeza. Ela tinha vindo comigo até ali sem reclamar, mesmo sabendo que o caminho de volta ia ser mais pesado pra ela do que pra mim. Quem fica também sente falta. Às vezes até mais do que quem vai.

— Então é isso mesmo, né, Maria Rita… — ela disse, ajeitando a alça da minha bolsa como se quisesse adiar o momento. — Ocê vai embora.

Assenti devagar, sentindo a garganta apertar.

— Vou — respondi. — Se eu ficar, eu morro aos pouquinho. Indo embora, pelo menos eu tento viver.

Ela soltou um suspiro fundo e abriu os braços.

— Vem cá.

Me joguei naquele abraço como quem se agarra numa tábua em rio cheio. Suelieta me apertou forte, sem medo de amassar, sem medo de chorar. O cheiro dela de sabão simples e sol me fez querer voltar no tempo, pra quando a maior preocupação da gente era saber quem ia ganhar a corrida até o rio.

— Eu vou sentir tanta saudade de ocê — ela disse, com a voz abafada no meu ombro.

— Eu também vou — respondi, sentindo as lágrimas escaparem. — Todo dia.

A gente se afastou um pouco, mas ainda segurando a mão uma da outra, como se soltar fosse tornar a despedida definitiva demais.

— Ocê vai pra cidade grande, arruma um bom trabalho — Suelieta falou, tentando soar animada. — Vai encontrar seu pai… vai ver que ele é gente boa. E se não for, paciência. Ocê já se virou sem ele até agora.

Soltei um meio riso, limpando o rosto com a ponta dos dedos.

— Vou tentar tudo isso — falei. — Mas, pra falar a verdade, Sueli… só de fugir do casamento com o Zé dos Porcos eu já tô feliz demais.

Ela fez uma careta.

— Ave-Maria, nem me fala naquele homem. — Balançou a cabeça. — Ocê imagina a cara da sua tia quando descobrir que ocê sumiu?

— Vai ficar uma arara — respondi, com um misto de medo e alívio. — Vai gritar, vai falar mal de mim pra cidade inteira. Mas… — respirei fundo — já passou da hora de eu parar de viver com medo da língua dos outros.

Suelieta sorriu, daquele sorriso bonito que sempre vinha quando ela concordava comigo de verdade.

— Tá mais do que na hora, Maria Rita. Ocê passou tempo demais presa nessa gaiola.

Olhei ao redor, pra aquele lugar simples, pras pessoas sentadas nos bancos duros esperando ônibus que talvez mudassem a vida delas também. Pensei na casa da tia, na barrica de banha, nos pedaços de porco como promessa de um futuro que eu nunca escolhi. Pensei na minha mãe, na coragem dela de ir embora um dia, mesmo pagando caro por isso.

— Pois é — falei, sentindo algo se firmar dentro de mim. — Chegou a hora de abrir a porta e voar. Mesmo sem saber direito pra onde.

Suelieta apertou minha mão.

— Ocê sempre foi mais corajosa do que pensa.

— E ocê sempre foi meu chão — respondi. — Por isso eu prometo: assim que eu me ajeitar, mando passagem pra ocê. A gente ainda vai dividir quarto apertado na cidade grande e rir disso tudo.

Ela riu, mas os olhos estavam marejados.

— Eu vou cobrar, viu?

— Pode cobrar.

O alto-falante da rodoviária chiou, anunciando a chegada do ônibus que ia me levar embora. Meu coração deu um pulo descompassado. Era agora. Não tinha mais como fingir que dava pra adiar.

— É o meu — falei, sentindo a voz tremer.

Suelieta respirou fundo e me puxou pra outro abraço, ainda mais apertado.

— Vai com Deus, Maria Rita. Não deixa ninguém te convencer de que ocê vale menos do que sonha.

— Nem ocê deixa essa cidade te apagar — respondi. — Ocê também merece mais.

Ela assentiu, emocionada.

— Vai lá antes que eu comece a chorar feito criança.

Peguei minha bolsa, dei mais um olhar pra ela, tentando gravar cada detalhe daquele rosto que fazia parte da minha história. Depois virei de costas e caminhei em direção ao ônibus, sentindo as pernas bambas, mas firmes o bastante pra continuar.

Subi os degraus, entreguei a passagem pro motorista e escolhi um banco perto da janela. De lá, vi Suelieta acenar, pequena, mas forte, como sempre foi. Levantei a mão e acenei de volta, segurando o choro até onde deu.

Quando o ônibus começou a se mover, a cidade foi ficando pra trás devagar. As casas simples, a igrejinha, a estrada de terra… tudo diminuindo, como se estivesse sendo guardado numa caixinha dentro de mim.

Encostei a testa no vidro e deixei as lágrimas caírem sem vergonha. Não era tristeza só. Era medo, saudade, esperança tudo misturado.

Não sabia o que me esperava na cidade grande. Não sabia se ia encontrar meu pai, se ia dar conta do trabalho, se ia me sentir sozinha demais. Mas uma coisa eu sabia com clareza que nunca tive antes: eu tinha escolhido.

E só isso já fazia todo o medo valer a pena.

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