Mundo de ficçãoIniciar sessãoDesci do ônibus com as pernas meio bambas, não sei se era do tempo sentada ou do susto de finalmente estar ali. São Paulo. Só de pensar o nome já parecia grande demais pra caber na boca. O terminal era um mundo inteiro funcionando ao mesmo tempo: gente andando apressada, gente falando alto, gente falando sozinha, mala batendo, anúncio ecoando, buzina de longe, cheiro de coisa frita misturado com fumaça e perfume caro.
Fiquei parada por uns segundos, segurando minha bolsa contra o peito, olhando tudo como quem chega num sonho meio bagunçado. Nunca na vida eu tinha visto tanta gente junta sem se conhecer. Na minha cidade, se passava três desconhecidos na rua, já era motivo de comentário na missa de domingo. Respirei fundo. — É aqui mesmo, Maria Rita — murmurei pra mim. — Agora não tem volta. Saí andando devagar, quase tropeçando nos próprios passos, porque parecia que tudo se mexia mais rápido do que eu. Os prédios eram altos demais, pareciam querer rasgar o céu. Os ônibus passavam roncando, soltando fumaça quente, e eu tive que me segurar pra não tapar o ouvido de susto. Na minha terra, o barulho mais alto do dia era o sino da igreja ou o caminhão de leite. Mesmo assim, eu tava encantada. Assustada, sim, mas encantada. Era como se o mundo tivesse aberto um livro enorme bem na minha frente e dissesse: “Escolhe uma página”. Comecei a andar pelo centro, seguindo a multidão, mas sem saber direito pra onde ia. As calçadas eram cheias, largas e estreitas ao mesmo tempo, cheias de gente diferente: homem de terno, moça de salto alto, vendedor gritando promoção, gente dormindo no chão embrulhada em cobertor velho. A cidade não escondia nada. Tudo ficava ali, escancarado. E eu, besta que só, fui dando boa tarde pra quem passava. — Boa tarde, moço. — Boa tarde, minha senhora. — Boa tarde, viu? Alguns me olhavam estranho, como se eu tivesse falado em outra língua. Outros nem viravam o rosto, passavam direto, com cara de quem tinha pressa até pra respirar. Teve uma moça que me respondeu com um sorriso rápido, desses que aparecem e somem num piscar de olho, e aquilo me deu um quentinho no peito, como se dissesse que nem tudo tava perdido. Mas também teve quem me olhasse de cima a baixo, com desprezo mesmo, como se eu tivesse trazido poeira da roça grudada na alma. Um homem de terno torceu o nariz quando dei boa tarde. Uma mulher apertou a bolsa contra o corpo, como se eu fosse perigo. Aquilo doeu um pouco, não vou mentir. Mas eu segui em frente. Minha mãe sempre dizia que a gente não podia carregar a grosseria dos outros nas costas, senão ficava pesada demais pra andar. Depois de tanto andar, minha barriga começou a reclamar. O café do ônibus já tinha ido embora fazia tempo. Foi aí que vi um boteco pequeno, espremido entre duas lojas grandes, com uma porta aberta e um balcão de metal meio gasto. Cheiro bom de fritura saiu de lá, me puxando pelo nariz. Entrei. O lugar era simples, mas vivo. Um rádio antigo tocava alguma coisa animada, tinha dois homens encostados no balcão discutindo futebol, e uma mulher mais velha limpava uma mesa com pano úmido. O atendente, um homem de avental manchado de óleo, me olhou curioso. — Boa tarde — falei, sorrindo. — O senhor tem coxinha? Ele deu uma risada curta. — Aqui tem de tudo um pouco, moça. Coxinha, risole, pastel… o que vai ser? — Uma coxinha e um café, por favor — respondi, aliviada por finalmente estar sentada. Sentei numa mesa perto da parede, apoiei a bolsa no colo e fiquei observando enquanto ele colocava a coxinha num pratinho de plástico e servia o café num copo americano. Quando dei a primeira mordida, quase fechei os olhos de tão boa que tava. Não era igual à coxinha da venda da dona Nair, mas tinha gosto de conforto. Talvez fosse fome. Talvez fosse alívio. Enquanto comia, fiquei escutando as conversas ao redor. Falavam rápido, engolindo palavra, reclamando de chefe, de trânsito, de política. Na minha cidade, o povo reclamava mais do tempo e do preço do feijão. Ali, parecia que o mundo inteiro era assunto. Criei coragem e chamei o atendente quando ele passou perto. — Moço… posso perguntar uma coisa? — Manda. — O senhor sabe se tem alguma hospedagem por aqui? Um lugar pra eu ficar uns dias? Ele me olhou de novo, agora com mais atenção. Depois soltou uma risada aberta, mas não foi de maldade. Foi surpresa mesmo. — Hospedagem aqui no centro? — Ele balançou a cabeça. — Moça, aqui o que mais tem é lugar caro. — É… eu tô procurando um lugar simples mesmo — falei. — Barato. Só pra dormir. Ele pensou um pouco, coçou o queixo. — Olha, tem um hotel ali duas ruas pra baixo. Não é lá essas coisas, não, viu? Mas é barato. Pra quem tá começando, quebra um galho. Meus olhos brilharam como se ele tivesse me dado um mapa do tesouro. — Nossa, obrigada, viu? Deus lhe pague. Ele sorriu, meio sem jeito. — Imagina. Seja bem-vinda a São Paulo. Terminei a coxinha com mais calma, tomando o café até a última gota. Paguei, agradeci de novo e saí do boteco com o coração um pouco mais leve. A cidade ainda era grande, barulhenta e estranha, mas agora tinha um endereço provisório me esperando. Segui a direção que ele tinha indicado, passando por mais prédios, mais gente, mais mundos diferentes. Continuei dando boa tarde, mesmo quando não respondiam. Aquilo era quem eu era. Não ia deixar na rodoviária. Enquanto caminhava, pensei na minha tia, na cara que ela ia fazer quando descobrisse que eu tinha fugido. Pensei no Zé dos Porcos, provavelmente se achando dono de um futuro que nunca foi dele. Pensei na Suelieta, talvez sentada na varanda, olhando a estrada vazia. Mas pensei também na minha mãe. Pensei nela andando por essas mesmas ruas anos atrás, jovem, cheia de esperança, mandando dinheiro pra casa enquanto o povo inventava história às escondidas. Talvez ela também tivesse se sentido pequena no meio de tudo isso. E mesmo assim ficou. — Se a senhora aguentou, mãe… — murmurei — eu também aguento. Quando vi a placa do hotel simples, com letras meio apagadas, senti um misto de medo e orgulho, mas entrei.






