Início / Romance / Babá por Acidente / Capítulo 5 - Tudo parece sob controle, menos o que importa.
Capítulo 5 - Tudo parece sob controle, menos o que importa.

Augusto Villar

Eu ainda estava preso em uma reunião que já tinha ultrapassado o tempo previsto quando o telefone vibrou sobre a mesa de vidro. O nome de dona Joana apareceu na tela, e eu soube, antes mesmo de atender, que alguma coisa tinha dado errado em casa.

Pedi licença aos diretores ao redor da mesa, levantei-me e fui até um canto mais reservado da sala.

— Dona Joana, o que houve agora? — perguntei, mantendo a voz baixa, mas já prevendo o teor da ligação.

Do outro lado da linha, a governanta pigarreou, daquele jeito cuidadoso que sempre fazia antes de dar más notícias.

— Não queria te incomodar no trabalho Augusto, mas achei melhor avisar… A Helena afugentou mais uma babá.

Fechei os olhos por um instante e soltei um suspiro lento, pesado. Encarei a parede de vidro à minha frente, observando a cidade lá embaixo, organizada, previsível tão diferente do que me esperava em casa.

— O que aconteceu desta vez? — perguntei, já cansado.

— Nada que já não tenha acontecido antes… — respondeu ela. — Birra, silêncio, depois grito. A moça não aguentou nem uma semana.

Helena tinha apenas oito anos, mas carregava uma dor que parecia grande demais para o corpo pequeno que tinha. Nossos pais haviam falecido quando ela tinha três. Desde então, eu assumi tudo: a empresa, a casa, e, principalmente, a responsabilidade de criá-la.

No começo, ela era doce. Tímida, mas carinhosa. Dormia agarrada à minha camisa, chorava baixinho quando acordava à noite. Com o tempo… algo se quebrou. Cada nova babá parecia uma invasora. Cada tentativa de aproximação terminava em rejeição.

— Quando eu chegar em casa, converso com ela — falei, já sabendo que aquela conversa teria pouco efeito. — Por enquanto, deixo a contratação de uma nova babá sob seus cuidados.

— Pode deixar, menino — respondeu dona Joana, com a paciência de quem já tinha visto de tudo.

Desliguei e permaneci parado por alguns segundos, encarando o telefone como se ele fosse o culpado de todos os meus problemas. Então voltei para a sala de reuniões, ajeitei a gravata e retomei o controle da situação como sempre fazia.

Negócios eu sabia administrar. Pessoas… nem tanto.

Quando finalmente a reunião terminou e os diretores começaram a se dispersar, Mário se aproximou. Meu assistente pessoal era eficiente demais para seu próprio bem e, às vezes, íntimo demais.

— Senhor, está tudo bem? — perguntou, com aquele ar de casualidade que ele sempre tinha.

— Apenas problemas em casa, Mário — respondi, seco, enquanto recolhia alguns documentos.

Ele me acompanhou até minha sala, ignorando claramente o aviso implícito de que o assunto estava encerrado.

— O senhor deveria se casar — disse, como se estivesse sugerindo trocar a marca do café. — Teria uma companheira para ajudar com a Helena. E com o senhor também. Seria bom ter alguém para ajudar em casa.

Revirei os olhos lentamente e parei de andar. Virei-me para encará-lo.

— Tenho cara de quem precisa de uma esposa? — perguntei, arqueando uma sobrancelha e ele engoliu em seco.

— Não é que o senhor precise… — ele se apressou em corrigir. — Mas seria bom ter mais alguém na casa. Alguém fixo. E, se o senhor não gosta de mulheres, pode ser um homem também. Hoje em dia…

Bati a mão na mesa com força suficiente para fazê-lo se calar na mesma hora.

— Acho que estou te dando ousadia demais — disse, com a voz baixa e controlada. — Me traga um café. E depois volte a trabalhar e não me venha mais com essas idéias malucas.

Mário assentiu rapidamente e saiu, quase tropeçando nos próprios pés.

Às vezes, eu realmente tinha vontade de demiti-lo. Mas ele era competente, organizado e antecipava problemas antes mesmo que eles surgissem. O jeito era ignorar as intromissões e seguir em frente. Que ousadia insinuar que talvez eu goste de homens.

Me sentei na cadeira, passei a mão pelo rosto e encarei a tela apagada do computador. A empresa ia bem. Os números eram impecáveis. As decisões, firmes. Tudo estava sob controle exceto a parte da minha vida que realmente importava.

Helena.

Peguei as chaves do carro mais cedo do que o habitual naquela noite. A ideia de mais uma babá entrando e saindo da nossa casa me irritava profundamente. Pessoas demais tentando ocupar um espaço que, no fundo, ninguém parecia conseguir preencher.

Enquanto dirigia pelas avenidas largas e iluminadas da cidade, pensei no quanto minha rotina era silenciosa. Casa, trabalho, trabalho, casa. Nenhuma distração. Nenhuma concessão. Talvez fosse por isso que Helena reagisse tão mal a qualquer tentativa de mudança. Ela era, de certa forma, o meu reflexo.

Quando estacionei em frente à mansão, vi as luzes da sala ainda acesas. Dona Joana provavelmente estava tentando convencer minha irmã a jantar.

Respirei fundo antes de entrar.

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