Mundo de ficçãoIniciar sessãoO caminho até a casa da tia Maricotinha sempre me deu um aperto diferente no peito. Não era medo, exatamente. Era uma mistura de curiosidade com aquele respeito estranho que a gente sente por quem sabe mais da vida do que aparenta. A estrada que levava até lá era menos batida, com o mato crescendo mais alto dos dois lados, como se pouca gente tivesse coragem de ir até o fim. Diziam que era porque tia Maricotinha era esquisita. Eu achava que era porque ela enxergava demais.
Eu e Suelieta íamos lado a lado, em silêncio por boa parte do caminho. O sol já estava alto, queimando a nuca, e o pó grudava no suor das pernas. De vez em quando, Sueli chutava uma pedrinha só pra quebrar o silêncio. — Ocê tá bem? — ela perguntou, depois de um tempo. — Tô — respondi, sem muita convicção. — Ou pelo menos tô indo. Ela assentiu, como se entendesse exatamente o que aquilo significava. A casa da tia Maricotinha apareceu depois da curva do jatobá velho. Pequena, simples, mas bem cuidada. Tinha flores em lata reaproveitada na janela e uma sombra boa de um pé de acerola no quintal. Não parecia casa de gente esquisita. Parecia casa de quem aprendeu a viver do próprio jeito. Antes mesmo de a gente bater palma, a porta se abriu. — Eu tava esperando ocês — disse ela, com aquela voz firme, mas mansa ao mesmo tempo. Fiquei parada por um segundo, surpresa. — Esperando? — repeti. — Tava — confirmou, abrindo mais a porta. — Quando a fofoca corre solta na cidade, chega antes que visita. Entrem, minhas menina. Entramos. O interior da casa tinha cheiro de erva-cidreira e coisa limpa. Tudo simples, mas organizado com carinho. Tia Maricotinha era magra, cabelo já bem branco preso num coque baixo, olhos atentos que pareciam enxergar além do que a gente falava. — Sentem — disse, apontando pra mesa. — Vou buscar um suquinho pra refrescar essas ideia quente. Ela voltou logo com uma jarra de suco de caju e três copos de vidro. Serviu com calma, como se aquele gesto fosse parte importante da conversa que ainda ia acontecer. — Bebe, Maria Rita — falou, empurrando o copo na minha direção. — Ocê tá com a cara igual à da sua mãe quando vinha aqui cheia de pergunta. Meu coração deu um pulo. — A senhora… conhecia bem minha mãe, né? — perguntei, antes mesmo de pensar. Ela sorriu de canto, sentando-se à nossa frente. — Conhecia não. Conheço ainda. Aurora não some assim, não. Fica na gente. Suelieta ficou quieta, respeitosa. Eu levei o copo à boca, sentindo o gosto doce e azedinho do suco, e tomei coragem. — Tia Maricotinha… — comecei — a senhora sabe o que o povo fala da minha mãe. Ela ergueu uma sobrancelha. — Sei. Sempre soube. — Dizem que ela se perdeu na cidade grande — continuei, sentindo a voz apertar. — Que trabalhou em bordel. Que eu sou filha de algum cliente casado dela. As palavras saíram rápidas, como se eu precisasse jogá-las fora de mim de uma vez. — Minha tia Lourdes vive contando isso como se fosse verdade — acrescentei. — E o povo cochicha, olha torto… Eu cresci ouvindo essas coisa, mesmo sem ninguém nunca falar direto. Tia Maricotinha pousou o copo devagar sobre a mesa. O silêncio que veio depois não era pesado. Era atento. — Aurora foi pra cidade grande trabalhar — ela disse, firme. — Trabalhar de verdade. Em casa de família, em loja, onde dava. Lavava chão, passava roupa, fazia comida. Tudo o que aparecia. — Mas… — comecei. — Mas nada — ela me cortou, sem dureza. — Ela sempre mandou dinheiro pra cá. Todo mês. Nunca deixou faltar nada. Suelieta arregalou os olhos. — Todo mês mesmo? — perguntou. — Todo mês — confirmou tia Maricotinha. — Dinheiro suficiente pra sustentar a casa da Lourdes… e ainda sobrar. Senti algo estranho crescer dentro de mim. — Sobrar… como assim? Ela me olhou com cuidado, como quem mede se a pessoa já aguenta ouvir. — Sobrar o suficiente pra Vanessa estudar em colégio caro na cidade vizinha — disse. — Farda bonita, livro importado, tudo pago com o dinheiro da Aurora. Meu corpo inteiro gelou. — Vanessa… minha prima? — perguntei, incrédula. — Ela mesma — respondeu, sem rodeio. — Enquanto Aurora se matava de trabalhar, sua tia Lourdes usava o dinheiro pra bancar a filha e ainda espalhava mentira sobre a própria irmã. Minha cabeça começou a girar. — Mas… a tia sempre disse que minha mãe gastava tudo lá — murmurei. — Que não mandava quase nada. Tia Maricotinha soltou uma risada curta, sem humor. — Mentira bem contada — disse. — E repetida vira verdade na boca do povo. Senti um nó subir da garganta pro peito, misturado com raiva, tristeza e um tipo de alívio estranho. — Então… — minha voz saiu fraca — minha mãe não se perdeu? — Não — ela respondeu, olhando direto nos meus olhos. — Quem se perdeu foi quem ficou aqui com inveja. Suelieta levou a mão à boca. — Ave-Maria… — murmurou. — Então era tudo invenção? — Tudo — confirmou tia Maricotinha. — Sua tia Lourdes sempre teve inveja da Aurora. Porque Aurora teve coragem de sair, de tentar, de viver. Mesmo agora, depois de morta, a inveja não morreu. Senti as lágrimas escorrerem sem pedir licença. Não era só tristeza. Era como se, pela primeira vez, alguém estivesse limpando uma mancha que nunca foi minha. — Eu passei a vida inteira achando que tinha vergonha no meu sangue — falei, chorando. — Que eu era erro. Tia Maricotinha se levantou e veio até mim, segurando meu rosto com mãos firmes. — Ocê é filha de uma mulher trabalhadora e honesta — disse. — E isso ninguém tira de ocê. Respirei fundo, tentando guardar aquelas palavras dentro de mim como um tesouro. Foi Suelieta quem quebrou o momento, pigarreando. — Tia Maricotinha… — ela começou —, a gente veio aqui também por outra coisa. A expressão da tia mudou, atenta de novo. — Fala. — A tia Lourdes arranjou o casamento da Maria Rita — Sueli disse, direto. — Com o Zé dos Porcos. O copo que tia Maricotinha segurava bateu forte na mesa. — O quê?!






