Peguei a chave do quarto na recepção com a mão meio trêmula. O homem atrás do balcão nem levantou muito a cabeça, só empurrou o papelzinho com o número do quarto escrito à caneta e disse num tom automático:— Segundo andar, final do corredor. Banheiro é coletivo, água quente só até às dez.Assenti com a cabeça, agradeci baixinho, porque agradecer é costume que não se perde e segurei firme a chave, como se ela fosse mais que um pedaço de metal velho. Era a prova de que, pelo menos por aquela noite, eu tinha onde pousar a cabeça.Subi a escada devagar, contando os degraus sem perceber. Cada passo ecoava num rangido antigo, como se o prédio reclamasse do meu peso e da minha coragem ao mesmo tempo. O corredor era comprido, com uma lâmpada amarelada piscando no meio, parede descascada e portas todas iguais, marrons, sem nome, sem história aparente.Passei por algumas delas imaginando quem dormia ali. Gente como eu, pensei. Gente que veio de longe, fugindo ou buscando. Talvez as duas coisa
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