Mundo de ficçãoIniciar sessãoUma santa de dia. Uma pecadora à noite. E um predador caçando as duas. Lorena Valente vive uma vida dupla para sobreviver. Na boate Infernal, ela é Scarlat: a anfitriã enigmática que cheira a absinto e fumaça, ditando as regras para homens poderosos. Érick Albelini, um bilionário implacável, tentou comprá-la com um beijo e um maço de notas. Ela devolveu o dinheiro. Ele jurou caçá-la. Por um erro do destino, Lorena acaba contratada como babá na mansão Albelini. Agora, sob o disfarce de uma mulher doce que cheira a açúcar mascavo e coco, ela vive no coração do domínio do seu predador. Érick sente o rastro do veneno sob a doçura da babá. Ele não sabe quem ela é, mas seu corpo reconhece algo familiar na mulher que o incendiou. No jogo entre a rendição e a farsa, Lorena terá que decidir: continuar fugindo ou queimar de vez no inferno de Érick Albelini?
Ler mais"Lorena"
Eu estiquei o braço, tateando o lençol macio de muitos fios que eu ainda não tinha terminado de pagar e encontrei apenas o vazio. O lado esquerdo da cama estava frio, o apartamento silencioso e eu achei estranho o meu noivo não estar ali ao meu lado, ele não costumava acordar antes de mim.
- Cadu? - Eu chamei com a voz ainda sonolenta, mas não ouvi nenhuma resposta.
Eu me levantei, dei uma olhada no banheiro da suíte e estava vazio, então eu vesti o robe que estava aos pés da cama e saí do quarto. Ao chegar a cozinha e encontrar a Dalva passando o café eu já sabia que o Cadu não estava em casa.
- Bom dia, Dalvinha. Você viu o Cadu hoje?
- Bom dia, Lorena. Eu não o vi, mas o carro dele está na garagem. Posso servir o seu café?
- Que estranho... pode servir, Dalvinha. - Eu respondi e nesse exato momento a campainha tocou. - Deixa que eu abro, Dalvinha, deve ser o Cadu, com certeza deu uma saída rápida e esqueceu as chaves.
Eu fui em direção à porta e enquanto atravessava a sala a campainha tocou mais duas vezes, dois toques insistentes. Eu me apressei a abrir a porta de uma vez, com um sorriso e pronta para dar um beijo de bom dia no meu noivo, mas não era ele. Do outro lado um homem de meia idade usando um terno cinza e uma expressão cansada segurava uma pasta de couro.
- Lorena Valente? - A voz dele parecia quase acusadora e eu tive um sobressalto, naquele momento uma sensação ruim atravessou o meu peito.
- Sim? - Eu o encarava com certa curiosidade, tanto por ele chegar ao apartamento sem ser anunciado, quanto por ele saber o meu nome completo.
- Sou oficial de justiça. Tenho aqui uma ordem de despejo imediato para este imóvel, além de uma notificação de penhora de bens como garantia de dívidas contraídas pela senhora e pela sua empresa...
- Dívidas? - Eu estava completamente atordoada.
- Sim, dívidas. A senhora tem um total de mais de dois milhões e meio em dívidas, está tudo detalhado aqui. As prestações deste apartamento já não são pagas há quase um ano, bem como vários credores. - O homem a minha frente explicou de forma geral e eu senti como se me faltasse o ar.
- Quase um ano? - Eu cambaleei para trás, era como se o chão tivesse sumido sob meus pés e as paredes estivessem desabando sobre mim. - Isso é um erro. Meu noivo e sócio... o Carlos Eduardo, ele cuida das finanças, ele faz as transferências, paga as contas...
- Senhora, me desculpe, mas o documento aqui é claro. A senhora não possui sócios e as dívidas se acumulam há muito tempo.
O homem me olhou como se destruir a minha vida não fosse nada demais, como se fosse só mais um diazinho tedioso da vida dele. Eu olhava para ele em choque, não era possível que o negócio que o Cadu e eu contruímos com tanto esforço e que ele me dizia que vinha dando tão certo estivesse em dificuldades e ele não tivesse me contado.
- Senhora, eu lamento. Mas a senhora precisa assinar este documento e a senhora tem duas horas para recolher os seus pertences pessoais e sair. E... por pertences pessoais eu quero dizer apenas roupas, sapatos e produtos de higiene pessoal. Jóias e demais itens de valor comercial estão inclusos na ordem de penhora. - Ele acabou de cravar o punhal no meu peito.
O oficial de jusiça estendeu os papéis em minha direção, mas as minhas mãos tremiam tanto que eu não consegui pegar. A Dalva surgiu atrás de mim, me amparando pelos ombros para que eu não caísse. E foi nesse momento que o meu celular vibrou sobre o aparador, onde eu tinha deixado antes de abrir a porta, com uma notificação de mensagem.
A Dalva pegou o aparelho e me entregou. Eu olhei para a tela do aparelho, um modelo novo que o Cadu havia me dado um mês antes, o lançamento do ano daquela marca cara. Eu olhei para a tela grande e brilhante, uma mensagem da Vivi, minha melhor amiga desde a faculdade e o nosso braço direito na empresa.
Inclusive, foi ela quem sugeriu, seis meses antes, que eu me afastasse um pouco da empresa para cuidar dos detalhes do meu casamento que estava marcado para dali a três meses, pois eu estava muito sobrecarregada. E, incentivada pelo Cadu, eu tinha achado uma ótima ideia.
Eu desbloqueei o aparelho na esperança de que fosse uma explicação, ajuda ou qualquer coisa que me tirasse daquele pesadelo. Mas não, não era nada disso.
Era uma foto.
Uma foto do Cadu e da Vivi, no saguão do aeroporto internacional, pelo menos era o que dizia a placa que apareceu na foto. Eles estavam se beijando, a mão dela estava esticada em direção a câmera, exibindo um anel de noivado com um diamante enorme, enquanto o Cadu a abraçava pela cintura. Não tinha legenda, não precisava. A última pedra do meu mundo ruindo caiu sobre mim.
Eu senti o gosto amargo da bile subindo a boca. O mundo ao meu redor, tudo o que eu havia trabalhado para construir desde a faculdade, o apartamento amplo em local privilegiado, a empresa que eu criei e onde eu investi tudo o que eu tinha aceitando o Cadu como sócio, os planos de casamento, a vida que eu achei que tinha construído sólida, estava tudo desmoronado, como um castelo de cartas soprado por um furacão.
- Lorena... respira fundo. - A voz da Dalva era um sussurro, chegando a mim como alguma demonstração de solidariedade.
Eu olhei para ela, a única pessoa que havia sobrado no meu mundo, mas que também iria embora, afinal, como eu, endividada, iria pagá-la? As lágrimas finalmente transbordaram, quentes e grossas, como uma represa se rompendo violentamente. Eu estava sem casa, sem noivo, sem amiga, sem empresa e com o nome enterrado em dívidas que eu não tinha ideia de como pagaria.
- Eu perdi tudo, Dalva! Tudo! - Eu solucei e caí de joelhos ali, diante da Dalva e daquele oficial de justiça que eu nem sabia o nome, mas estava ali impassível assistindo a minha ruína.
A Dalva se abaixou e me abraçou, trazendo o conforto que podia, mas que não era suficiente para a dor que eu sentia naquele momento.
- É agora que você não pode se abater, menina! Você precisa se acalmar e se levantar, a gente precisa arrumar as suas coisas. Eu já vi como as pessoas são despejadas, se você não sair eles mandam a polícia e você é jogada na rua como um saco de lixo. - A Dalva me informou e eu a encarei assustada.
- Olha, senhora, eu vejo que tudo isso é inesperado para a senhora. Meu conselho é que a senhora siga a orientação dela, porque eu preciso garantir que a senhora saia em até duas horas ou eu tenho mesmo que chamar a polícia. Eu também estou aqui para garantir que a senhora não retire nenhum objeto de valor e para apreender o seu celular. Mas o melhor que eu posso fazer pela senhora e recomendar que procure um advogado e um lugar para ficar.
O oficial de justiça pela primeira vez pareceu um pouco mais humano, mas isso não minimizava a dor que eu estava sentindo naquele momento, contudo ele tinha razão, eu precisava de um advogado e um lugar para ficar.
"Lorena"O Érick fechou e trancou a porta atrás de mim e me prendeu contra ela. Sua boca capturou a minha num beijo que não pediu permissão, nem passagem, simplesmente abriu caminho e pegou o que queria. Era impossível resistir a ele e eu nem queria. Eu queria que ele me quisesse tanto a ponto de nem se lembrar da existência da Scarlat. Mas isso não ia acontecer com um beijo atrás da porta, por melhor que ele fosse.- Eu quero te jogar naquela cama e arrancar esse vestido... mas eu não tenho o tempo que eu gostaria agora. - Ele falou afastando os lábios dos meus o mínimo necessário.- Érick... - Eu coloquei a mão no peito dele para que ele prestasse atenção. Eu tentei manter a voz firme, fingindo uma calma que não passava da superfície. - Eu adoraria continuar também, mas pelo que eu entendi você precisa ir para o escritório e... eu quero pedir permissão para sair. Meu advogado ligou. Faço como aquele dia, vou falar com ele e depois pego a Alice na escola.Ele se afastou apenas o sufi
"Lorena""Eu só não quero nenhum de vocês perto dela." As palavras do Érick ecoavam em minha mente, a defesa apaixonada que ele fez da outra... a outra que também era eu. Mas ele não sabia, assim como não sabia porque não queria os outros perto dela. O sentimento de posse dele sobre ela era pingava em cada palavra. E aquelas palavras foram como chicotadas em mim.O Andrey não era como Érick. O Érick buscava uma conexão, uma fuga, o Andrey era só um conquistador, ele buscava um troféu, um objeto de exibição. Se ele pressionasse o Barão com dinheiro suficiente, o segredo da capetinha cairia por terra. E se ele descobrisse que a intocável Scarlat era a babá do melhor amigo... eu não estaria apenas desempregada. Eu estaria morta para o mundo de Érick.Eu fechei os olhos e, por um segundo, não era a babá da Alice que estava ali. Era a mulher de peruca escarlate, sentindo o hálito do Érick no pescoço enquanto ele despejava notas de cem no seu decote. Eu me sentei na cama e ergui a cabeça, v
"Lorena"Na manhã seguinte, a realidade voltou a bater à minha porta. Eu levei a Alice para a escola e o trajeto de volta foi um monólogo interno de coragem. Eu não podia mais carregar a mentira da Scarlat. Eu não podia mais olhar para o Érick sem dizer a verdade. Eu precisava contar para o Érick. Agora. Antes que o "nós" que construímos no domingo se tornasse apenas mais uma lembrança dolorosa.- Eu vou contar. Agora. - Eu falei para mim mesma, decidida, assim que saí do carro de volta à mansão.Eu procurei por ele no escritório e no jardim. Mas ele não estava. No entanto, o carro dele estava na garagem. Eu fui direto para o quarto dele. Bati, mas não esperei a resposta, abri a porta devagar e entrei. Eu o encontrei saindo do banho, com aquela toalha enrolada na cintura e gotas de água ainda escorrendo pelo peito. O sorriso que ele abriu para mim ao me ver ali foi como se tivesse acendido estrelas no céu. O impacto visual me fez esquecer metade do meu discurso ensaiado.- Lô? - Ele f
"Lorena"Quando a noite de domingo chegou, havia uma suavidade naquela casa que eu não sentia antes. A Alice, exausta do piquenique e de correr pelo jardim, tentou bravamente manter os olhos abertos durante o jantar, mas o Érick precisou carregá-la até o quarto.- Lolô, você ainda tem medo do quarto novo? - Ela perguntou no momento em que eu abri a porta do quarto dela. - Porque se você tiver, eu durmo lá com você de novo.Eu olhei para o Érick, que me observava sobre o ombro dela com um sorriso enviesado. Ele estava claramente torcendo para que a minha resposta desencorajasse a Alice, mas eu não resistia a minha menina.- Sabe o que é, meu amor? Acho que o medo foi embora hoje, junto com o pôr do sol. - Eu respondi, acariciando o cabelo dela. - Mas, se você quiser, podemos dormir juntas só mais esta noite, só para garantir que o medo não vai voltar e que o quarto agora é meu.A Alice comemorou com um sorriso e desceu do colo do pai.- Vou pegar o meu pijama, Lolô! - Ela falou coçando





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