Capítulo 10: O engano

"Lorena"

Eu peguei o envelope dentro da minha bolsa mais uma vez. Aquilo estava rodando na minha cabeça há uma semana. Eu corri os dedos sobre a caligrafia perfeita dele no guardanapo, onde o papel quase rasgou e uma pequena mancha de sangue dava o tom da escrita, a mensagem que eu já havia decorado dizia:

"Eu não pago pelo seu tempo, Scarlat... eu pago para que você nunca se esqueça de que agora me pertence. Quer me desafiar? Faça isso pessoalmente. Eu não aceito devoluções."

Aquelas palavras eram como correntes e toda vez que eu tocava o papel eu tremia. Ele não queria apenas uma "uma dose do veneno", ele queria um troféu. E o "faça isso pessoalmente" martelava na minha cabeça como um convite para o desastre.

Eu havia convencido o Barão a não me mandar para aquele camarote na semana anterior, dizendo que seria vantajoso deixar aqueles homens sentirem a minha falta e depois gastarem mais na boate e também para não despertar o ciúme das outras meninas, o que seria um problema. Eu passei a noite contando o estoque, mas pelo menos não dei de cara com aquele arrogante. Contudo, eu sabia que não poderia fugir dele para sempre.

Por que aquele homem não podia simplesmente me deixar em paz? No fim das contas ele teve o que queria, por que não pegava o rico dinheirinho dele de volta e me esquecia?

- Duelando com esse envelope de novo, Lorena? - A Dalva questionou assim que chegou à pequena sala.

- Eu nunca me senti tão humilhada, Dalvinha! Ele me tratou como uma prostituta! - Eu me queixei mais uma vez.

- Sabe, eu concordo com a Lina, esse homem j**a dinheiro pelos ares, talvez ele tenha sido apenas generoso sem pensar que te ofenderia. Gente rica não acha que dinheiro ofende, Lorena.

Claro que eu tinha contado tudo para a Dalva e para a Lina, elas eram as duas únicas amigas que eu tinha e as únicas pessoas que me estenderam a mão. E quando eu cheguei em casa depois da noite que eu passei com aquele homem, eu estava tomada pela fúria, quase arrancando os cabelos e as duas me ouviram pacientemente.

- Pelo menos ele não acha que eu sou uma prostituta barata.

Eu dei um sorriso amargo, minha dignidade havia sido estilhaçada pelo golpe que o meu ex noivo e a minha ex amiga me deram e os cacos foram varridos do mapa pelo cavalheiro arrogante, lindo e gostoso, da boate.

- Levanta a cabeça, Lorena. Você é melhor que isso. Agora me diz, está confiante para a entrevista de hoje? - A Dalva perguntou com um sorriso afetuoso.

- Não muito. - Eu suspirei desanimada. - É uma empresa enorme, Dalva, seria um sonho conseguir esse trabalho, mas depois de tantas portas fechadas, eu estou desanimando mesmo. Porém, mesmo que eu consiga, eu vou continuar servindo as mesas na boate, as gorjetas lá são muito boas e eu preciso juntar todo o dinheiro que eu puder. Pelo que o advogado me disse as dívidas não param de crescer. Eu acho que eu nunca vou conseguir sair disso, Dalva.

- Coragem, Lorena! Eu te conheço o suficiente para saber que você não fica por aí se fazendo de coitadinha. As coisas vão dar certo para você e você vai conseguir provar a sua inocência.

A Dalva estava sempre disposta a me apoiar e isso tinha sido a única coisa boa no meio do desastre que atingiu a minha vida. Eu joguei o envelope dentro da minha mala, a fechei e coloquei embaixo do sofá. Depois fui até a Dalva e dei um abraço nela.

- Obrigada, Dalvinha, por não me deixar desistir. Agora eu vou indo para a minha entrevista, cruze os dedos.

Eu levei uma hora e meia para atravessar a cidade e chegar naquele prédio luxuoso que abrigava um dos maiores conglomerados empresariais do país. Ter conseguido aquela entrevista já tinha sido uma grande sorte. Eu me aproximei da recepcionista que estava se desdobrando entre atender a quatro homens de terno diante dela, dois telefones tocando insistentemente e uma quantidade ofensiva de papéis e pastas sobre a sua mesa.

- Senhorita, nós temos horários marcados, quando irão nos atender? - Um dos homens perguntou de forma beligerante.

- Senhores, sentem-se! Vocês estão todos aqui para uma entrevista de emprego, o Sr. Beaumont irá atendê-los, assim que possível! - A recepcionista falou entre desligar um telefone e atender o outro.

Eu me dei conta de que estava concorrendo com todos aqueles homens em seus ternos pretos imponentes. Eu olhei para a minha camisa de seda pérola e a minha calça alfaiataria vinho e pensei que deveria ter escolhido o talleur preto de saia para a ocasião e talvez ter feito um coque ao invés de deixar os cabelos soltos.

- Ah, você deve ter vindo para a entrevista com o Sr. Albelini. - A recepcionista nem esperou que eu me apresentasse. - Ele teve um imprevisto, quem vai falar com você é a assistente dele. Nesta pasta estão todas as informações do cargo. Siga por este corredor, última porta à direita. - A Recepcionista despejou tudo aquilo e quando levantou o olhar para mim ainda me apressou: - Vai, você está atrasada!

Eu disparei pelo corredor e não tive tempo de abrir a pasta para olhar as tais informações, a porta pela qual eu deveria entrar estava aberta e dava para uma ampla sala decorada com extremo bom gosto. Uma senhora que deveria ter quase o dobro da minha idade e parecia a imagem da eficiência estava atrás da mesa e sequer levantou os olhos para mim.

- Sente-se! - A voz dela era clara sem ser demasiado alta.

- Bom dia! - Eu me aproximei e me sentei em frente a ela.

- Você está atradasa, o Sr. Albelini não tolera atrasos, então fique atenta aos horários. Ele gostaria de ter estado aqui para lhe passar as instruções pessoalmente, mas teve uma emergência e me deixou responsável por encaminhá-la. Na pasta que você recebeu estão todas as condições do cargo e se você concordar, você começa imediatamente. Tem um motorista esperando para levá-la até a residência.

- Espera, um motorista? - Eu a encarei sem entender nada.

- Sim! Você leu o conteúdo da pasta? - Ele me encarou como se eu fosse estúpida.

- Me desculpe, eu acabei de recebê-la e...

- Ah, você terá tempo no trajeto até a casa. Não acredito que você vá recusar o trabalho, afinal o Sr. Albelini vai pagar uma pequena fortuna para você cuidar da filha dele. - Quando ela disse "pequena fortuna" e "cuidar da filha" eu abri a pasta e rapidamente li o conteúdo.

Eu havia sido direcionada para a entrevista errada. E eu nem sabia que uma babá ganhava aquele salário exorbitante. Era mais do que o cargo de contador naquela empresa. Eu olhei para a mulher a minha frente chocada.

- Sim, ele é generoso, mas igualmente exigente, então não falhe. - A mulher me alertou. - Agora pode ir, o motorista vai encontrá-la na recepção. - Eu estava imóvel e de queixo caído diante da mulher. - Anda, vai! - Ela falou mais alto e eu pulei da cadeira.

Eu atravessei o corredor pensando em desfazer o equívoco com a recepcionista antes de ser acusada de trapaça, mas no momento em que eu cheguei à recepção eu congelei, o homem com cara de poucos amigos diante de mim era o loiro amigo do homem da boate.

- Sr. Beaumont, me desculpe... é que isso aqui está uma loucura essa semana... - A recepcionista tentava se justificar.

- Eu mandei que você desmarcasse a entrevista com a Lorena Valente na semana passada! - O loiro encarou a recepcionista parecendo bem irritado. E estava falando de mim. - Você vai se livrar dela assim que ela chegar e não vai me fazer perder tempo!

- Sim, senhor! - A moça abaixou a cabeça e pegou a pasta que ele sacudia na frente dela.

- Na verdade, não é o primeiro erro que você comete, no próximo você será demitida! Essa recepção está caótica desde que você começou aqui. - Ele a avisou e ergueu os olhos para mim.

Ele me observou por um tempo maior que o necessário para dizer qualquer coisa ou dar as costas. O suor frio escorreu pela minha nuca.

Será que o disfarce da Scarlat era tão frágil assim ou o cheiro de absinto ainda estava impregnado na minha pele? Eu só usava aquele perfume na boate por insistência da Marcelina, que me convenceu que eu precisava ser marcante. Mas agora, sob o olhar atento daquele homem, eu sentia que ser marcante era péssima ideia. Eu estava colapsando!

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