Capítulo 3: Só sobrou um lugar para ir

"Lorena"

Por coincidência, no momento em que o taxi parou em frente a casa da Leilane, ela estava saindo e enquanto o motorista tirava as malas do carro eu corri até ela.

- Lorena, querida, eu já soube o que aconteceu com você e você não imagina o quanto eu lamento. – Ela falou sem descer do carro. – Mas você chegou em má hora, eu estou atrasadíssima para um compromisso.

- Lei, eu sei que é inesperado, mas eu preciso da sua ajuda, eu preciso de um lugar para ficar por uns dias…

- Ai, amiga, eu adoraria te ajudar, mas eu não posso te receber agora. Vários cômodos da casa estão em reforma e está uma loucura, você nem imagina. Além do mais, pelo que eu soube, a sua situação não é do tipo que vai ser resolvida rápido, não é mesmo?! E você sabe, meu marido não gosta muito de visitas que passam muito tempo… olha, eu sinto muito mesmo, amiga. Mas agora eu tenho que ir. Me liga depois para me dar o seu novo endereço. Beijinho.

- Ah, você sente muito mesmo… - Eu murmurei enquanto ela saía com o carro dando um adeusinho com o braço para fora da janela. – Meu Deus! O que eu faço?

Eu olhei para o taxista que me esperava com a maquina de cartão nas mãos esperando pelo pagamento.

- Moço, o senhor vai ter que me levar a outro lugar. - Eu pedi desanimada e ele me olhou confuso, mas colocou as malas dentro do porta malas outra vez.

Dentro do carro, enquanto o motorista dirigia para o hotel que eu havia pedido, eu comecei a olhar os papéis que o oficial me entregou e só então eu percebi a gravidade da minha situação. Todas as minhas contas bancárias tinham ordem de bloqueio, inclusive a minha conta pessoal, a que eu mantinha para emergências.

Eu senti o ar me faltando outra vez, meu celular não estava comigo para verificar o aplicativo do banco, mas para a minha sorte tinha um naquela rua onde estávamos passando e eu pedi para o taxista parar. Eu fui até o caixa e meu cartão estava bloqueado, tentei o cartão de outra conta e estava bloqueado também. A minha situação era muito pior do que eu estava imaginando.

Antes de voltar para o táxi eu entrei na papelaria perto do banco e tentei comprar uma caneta e como eu suspeitava os meus cartões de crédito não passaram, nenhum deles. E assim a realidade me atingiu como um trem desgovernado, eu tinha uma montanha de dívidas e duzentos reais no bolso, dos quais a metade com certeza ficaria com o taxista.

Eu voltei para o táxi desanimada, sem saber o que fazer e quando entrei um papel caiu do meu bolso, era o endereço da Dalva. Era tudo o que eu tinha e ela disse que se pudesse me ajudaria. Não me mataria ouvir mais um não e eu não tinha outra alternativa. Passei o endere;o para o motorista que a essa altura já me olhava preocupado, mas teve a gentileza de apenas dirigir.

- O senhor pode me esperar um momento… - Eu comecei a pedir antes de sair do carro.

- Olha, moça, sinto muito mas não posso. Eu tenho um outro compromisso agora. Tenho que deixar a senhorita aqui. – Ele respondeu sem rodeios.

- Tudo bem. – Eu suspirei e olhei para o taxímetro, cento e quarenta e sete reais e trinta e oito centavos, quase tudo o que eu tinha.

Eu entreguei o dinheiro a ele e esperei o troco. Ele cobrou a corrida e depois tirou as malas do porta malas e me deixou ali na calçada daquele bairro que eu não conhecia. Eu olhei para o portão aberto a minha frente, peguei as minhas malas e entrei. Era um lugar muito simples, parecia uma vila dividida em apartamentos e muito mal cuidada, tinha várias portas com números, escadas que davam acesso a três andares, mas tudo parecia muito improvisado, nada projetado, como se tivesse apenas crescido sendo construído aos poucos.

No pátio a minha frente, algumas crianças brincavam com uma bola. Eu me aproximei de um deles e perguntei pela Dalva, ele me apontou uma porta no segundo andar e me avisou que ela não estava em casa. Eu dei de ombros, não tinha nada para fazer mesmo. Comecei a subir com as minhas três malas como se fizesse malabarismo. E na metade da escada eu já estava esgotada.

- Moradora nova? – Uma mulher jovem, com um vestido curto mais justo que Deus e uma maquiagem pesada demais para aquela hora da manhã parou ao meu lado.

- Eu vim ver uma pessoa. - Eu respondi tentando não ser grosseira.

- Pois parece que tá de mudança. Vou te ajudar. – A mulher pegou duas malas, uma em cada mão, e começou a subir a escada como se não fosse nada. Enquanto eu estava quase sem ar atrás dela. – Quem você veio ver, patricinha?

- Eu não sou patricinha. Vim falar com a Dalva.

- Ah, ela foi no mercadinho aqui perto, já deve tá voltando. Ela mora aqui. – Ela colocou as malas perto da porta para a qual apontou. – Eu sou a Marcelina, mas todo mundo me chama de Lina. – Ela ofereceu a mão com um grande sorriso, um de verdade, o primeiro naquele dia.

- É um prazer, Lina. Eu sou a Lorena. - Eu a cumprimentei retribuindo o sorriso.

- Lorena? – A voz da Dalva me fez olhar para trás.

- Dalva, você disse que se pudesse…

- Vamos entrar. – A Dalva passou na frente e abriu a porta.

A Lina me ajudou a colocar as malas para dentro. Era uma salinha pequena com um sofá de dois lugares, uma mesa redonda de quatro lugares e a cozinha conjugada. Havia uma porta que eu imaginava que fosse um quarto e a outra talvez um banheiro.

- Sentem-se, meninas. Eu vou passar um café, trouxe broinhas fresquinhas. – A Dalva ofereceu e colocou uma chaleira de água sobre uma das quatro bocas do fogão. Só então se sentou. - A sua amiga te virou as costas?

A pergunta dela foi direta, como se ela já soubesse que aquele seria o desfecho.

- Pois é, Dalva, como todos os outros.

- Não me surpreende. - Ela bufou. - Olha, Lorena, eu moro sozinha e como você vê, não tenho nenhum luxo. Eu posso te oferecer um teto e comida, pelo tempo que você precisar, mas você vai ter que dormir no sofá.

- Dalva… - meus olhos se encheram de lágrimas. - Isso é tudo o que eu preciso, só ate eu encontrar um trabalho.

- Pelo tempo que você precisar, Lorena. Você sempre foi tão boa comigo, porque eu não retribuiria um pouco?! - Ela deu dois tapinhas na minha mão e se levantou para pegar as broinhas.

- Olha, Lorena, lá onde eu trabalho estão precisando de garçonete, mas é para trabalhar a noite…

- Não, Lina, a Lorena não é como as moças daqui. Ela nem deve saber o que é um inferninho. – A Dalva retrucou.

- Ih, Dalva, é muito digno servir mesas. Ela não precisa dançar como as outras, nem fazer as outras coisas, só servir as mesas mesmo.

- Agradeço, Lina, mas eu vou procurar um emprego na minha área, eu tenho uma profissão.

- Ah, você é quem sabe, mas qualquer coisa me avisa, o gerente lá vai com a minha cara. - A Lina deu de ombros.

Enquanto eu tomava café com aquelas duas mulheres e explicava a minha situação, eu só pensava que eu precisava de um emprego rápido. Eu era uma ótima contadora, não seria difícil conseguir uma colocação. Essa seria a primeira coisa que eu faria.

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