Capítulo 4: É só servir as mesas

"Lorena"

Eu entrei no pátio da pequena vila onde a Dalva morava e me sentei no segundo degrau da escada. Eu nem tinha ânimo para subir. Eu estava procurando trabalho há uma semana e tudo o que eu recebi foram portas na cara. Aparentemente a minha derrocada financeira tinha se tornado um escândalo que correu no meio empresarial e eu não era confiável o suficiente para um cargo de contabilidade.

- Nossa, que cara de derrota é essa, Lorena? - A Marcelina se aproximou com a sua saia curta, jogando o cabelo cacheado de lado e estourando uma bola de chicletes. - Deu ruim na entrevista que você foi?

- Deu péssimo, Lina! - Eu afundei o rosto nas mãos. - Nem pude fazer a entrevista. Quando viram o meu nome já me dispensaram, porque ter uma contadora envolvida em uma fraude financeira espanta os clientes.

- Pior pra eles! Não fica chateada, Lorena, vai aparecer alguma coisa, às vezes demora mesmo, você não pode é desistir. - A Marcelina sempre tinha uma palavra positiva, mas eu precisava de um emprego.

- Eu preciso de um trabalho, Lina, não posso ser um fardo para a Dalvinha. Ela está sendo tão generosa, eu não quero abusar. Além do mais, eu preciso de um advogado também. - Eu desabafei.

- Olha, eu posso te emprestar uma grana. Eu tenho um dinheirinho assim para emergências e você tá na emergência. Você me paga quando der. E o advogado, eu posso te apresentar um e falar pra ele não te cobrar.

- E de onde você conhece um advogado? - Eu olhei para ela que riu.

- É o filho do Sr. Raimundo do duzentos e vinte. Ele não tem muita experiência, mas é esperto e é advogado. Eu falo com ele e ele nem vai te cobrar até você começar a trabalhar.

- Se ele vai trabalhar de graça, ele não é muito esperto. - Eu brinquei e ela riu.

- Lorena, você ainda não se deu conta? Por aqui a gente se ajuda, porque todo mundo aqui sabe o que é uma vida difícil. Anda, levanta essa cabeça, porque você não é herdeira e tem contas pra pagar. - Ela cutucou o meu ombro, me fazendo rir daquela situação caótica em que eu me encontrava.

No meio de todo o caos que a minha vida tinha se transformado eu encontrei apoio e gentileza no meio de pessoas que compartilhavam o pouco que tinham e ofereciam apoio, abrigo e amizade sem pedir nada em troca. Enquanto aqueles que eu chamava de amigos, me traíram, me roubaram, me viraram as costas e fingiram que nem me conheciam.

- Lina, aquela vaga de garçonete ainda existe?

- O quê, lá no "Infernal"? - Ela deu uma boa risada. - A Dalva me mata!

- É sério, Lina, eu preciso do trabalho, a Dalvinha sabe, e você disse que é só servir mesas. - Eu insisti.

- É só servir mesas com um vestido curto, salto alto, uma maquiagem pesada, uma peruca e chifres. E aguentar os clientes bêbados. - A Marcelina me encarou por um momento.

- É perfeito, Lina, ninguém nem vai saber que sou eu.

- É, não vai... tá bom! Mas já vou te avisar, é cansativo, a noite inteira... e não pode ficar de frescura.

- Eu não vou ficar. - Eu a encarei com esperança.

- Tá bem. Esteja pronta às cinco para irmos. Agora vamos, vamos jogar essa batata quente no colo da Dalva e ver o que ela diz. - A Marcelina ficou de pé e fez um gesto com a mão para que eu me levantasse.

Claro que a Dalva repetiu o dia todo que aquilo era uma péssima ideia, mas ela respeitava a minha decisão, mesmo não se importando em continuar me ajudando até que eu encontrasse algo que combinasse mais comigo, como ela disse. Mas eu não podia depender dela e não tinha nada demais em servir mesas.

Na boate, a Marcelina me apresentou ao gerente, que me avaliou de cima a baixo como se eu fosse um manequim em uma vitrine.

- Não sei não, Pandora, sua amiguinha aí parece fina demais. - O homem balançou a cabeça.

- Ué, e qual o problema? Você não vive dizendo que os clientes aqui são finos e não sei o quê? Então. Ah, vai, Barão, minha amiga tá precisando do trabalho. - A Lina insistiu e o homem me olhou mais uma vez e soltou um suspiro pesado.

- Não me façam me arrepender disso! - Ele avisou com o dedo em riste. - Você já sabe o salário, a boate não abre as segundas, portanto é a sua folga, as gorjetas são divididas no fim de cada noite, você chega as dezoito horas e vai embora só quando terminar. Você está em fase de experiência, tem que fazer tudo o que eu mandar, um escorregão e você está fora.

- Prometo que não vou escorregar. - Eu garanti, animada por ter um trabalho finalmente.

- Aqui você é a Scarlat. Nunca use o seu nome verdadeiro, isso mantém o mistério e o interesse dos clientes. Agora vai, a Pandora vai te mostrar tudo e ajudá-la a se arrumar. - O Barão nos dispensou com um gesto de mão como se fôssemos uma dor de cabeça.

Depois de me apresentar para todos os outros funcionários, a Lina me levou para o que elas chamavam de camarim, uma sala grande cheia de penteadeiras, roupas e adereços. Ela me explicou como funcionava tudo e me entregou a roupa e os sapatos. Depois que ela me maquiou, ela me ensinou a prender a peruca vermelho vibrante em degradê de pontas azuis na cabeça e finalizou com um arquinho com chifres.

Eu me olhei no espelho e não me reconheci. A pele do meu rosto foi coberta por uma base branca, nos olhos tinha uma pintura preta profunda que cobria toda a região dos olhos e sobrancelhas, estendendo-se em pontas agressivas em direção às temporas e às maçãs do rosto, como um "olho de gato demoníaco". As bordas do preto se fundiam a um esfumado vermelho vibrante que subia pela testa e descia pelas maçãs do rosto criando um efeito de máscara natural. Meus lábios tinham o centro vermelho e as pontas em preto intenso puxadas para cima como num sorriso debochado e um traço descia pelo meio do queixo. A ponta do nariz escurecida completava o visual de felino feral e um esfumado vermelho do pescoço ao colo completava tudo.

Mas o vestido me fez sentir outra pessoa definitivamente. Um estilo "dark burlesque" para dizer o mínimo. Era um corset de vinil preto que realçava a silhueta e colocava os meus peitos em evidência, com acabamentos em babados vermelhos no decote. A saia preta era curtíssima e volumosa de tule da mesma cor, com bordas em fita vermelha acetinada. Tudo isso era finalizado por um rabo vermelho de diabo preso à saia, meias arrastão pretas e uma bota de verniz preto de cano curto e salto alto e fino.

- Essas botas vão me matar. - Eu comentei, já pensando que os meus pés estariam em bolhas na manhã seguinte.

- Se mancar o Barão te mata antes. - A Lina riu. - Você está linda! Anda, vamos.

Eu me virei para a Marcelina que já estava pronta e usava uma saia tão curta quanto a minha, um cropped em tons de verde e preto, botas acima dos joelhos vermelha e uma peruca cacheada metade verde e metade vermelho vivo, com uma maquiagem chamativa e que também era quase uma máscara.

Os primeiros clientes já estavam chegando, as dançarinas já estavam no palco e eu peguei a minha bandeja e bloco de pedidos e fui atender a minha primeira mesa, pedindo aos céus para que nada desse errado.

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