A vida dupla da babá: Santa de dia, Scarlat à noite
A vida dupla da babá: Santa de dia, Scarlat à noite
Por: Maria Anita
Capítulo 1: Tudo perdido

"Lorena"

Eu estiquei o braço, tateando o lençol macio de muitos fios que eu ainda não tinha terminado de pagar e encontrei apenas o vazio. O lado esquerdo da cama estava frio, o apartamento silencioso e eu achei estranho o meu noivo não estar ali ao meu lado, ele não costumava acordar antes de mim.

- Cadu? - Eu chamei com a voz ainda sonolenta, mas não ouvi nenhuma resposta.

Eu me levantei, dei uma olhada no banheiro da suíte e estava vazio, então eu vesti o robe que estava aos pés da cama e saí do quarto. Ao chegar a cozinha e encontrar a Dalva passando o café eu já sabia que o Cadu não estava em casa.

- Bom dia, Dalvinha. Você viu o Cadu hoje?

- Bom dia, Lorena. Eu não o vi, mas o carro dele está na garagem. Posso servir o seu café?

- Que estranho... pode servir, Dalvinha. - Eu respondi e nesse exato momento a campainha tocou. - Deixa que eu abro, Dalvinha, deve ser o Cadu, com certeza deu uma saída rápida e esqueceu as chaves.

Eu fui em direção à porta e enquanto atravessava a sala a campainha tocou mais duas vezes, dois toques insistentes. Eu me apressei a abrir a porta de uma vez, com um sorriso e pronta para dar um beijo de bom dia no meu noivo, mas não era ele. Do outro lado um homem de meia idade usando um terno cinza e uma expressão cansada segurava uma pasta de couro.

- Lorena Valente? - A voz dele parecia quase acusadora e eu tive um sobressalto, naquele momento uma sensação ruim atravessou o meu peito.

- Sim? - Eu o encarava com certa curiosidade, tanto por ele chegar ao apartamento sem ser anunciado, quanto por ele saber o meu nome completo.

- Sou oficial de justiça. Tenho aqui uma ordem de despejo imediato para este imóvel, além de uma notificação de penhora de bens como garantia de dívidas contraídas pela senhora e pela sua empresa...

- Dívidas? - Eu estava completamente atordoada.

- Sim, dívidas. A senhora tem um total de mais de dois milhões e meio em dívidas, está tudo detalhado aqui. As prestações deste apartamento já não são pagas há quase um ano, bem como vários credores. - O homem a minha frente explicou de forma geral e eu senti como se me faltasse o ar.

- Quase um ano? - Eu cambaleei para trás, era como se o chão tivesse sumido sob meus pés e as paredes estivessem desabando sobre mim. - Isso é um erro. Meu noivo e sócio... o Carlos Eduardo, ele cuida das finanças, ele faz as transferências, paga as contas...

- Senhora, me desculpe, mas o documento aqui é claro. A senhora não possui sócios e as dívidas se acumulam há muito tempo.

O homem me olhou como se destruir a minha vida não fosse nada demais, como se fosse só mais um diazinho tedioso da vida dele. Eu olhava para ele em choque, não era possível que o negócio que o Cadu e eu contruímos com tanto esforço e que ele me dizia que vinha dando tão certo estivesse em dificuldades e ele não tivesse me contado.

- Senhora, eu lamento. Mas a senhora precisa assinar este documento e a senhora tem duas horas para recolher os seus pertences pessoais e sair. E... por pertences pessoais eu quero dizer apenas roupas, sapatos e produtos de higiene pessoal. Jóias e demais itens de valor comercial estão inclusos na ordem de penhora. - Ele acabou de cravar o punhal no meu peito.

O oficial de jusiça estendeu os papéis em minha direção, mas as minhas mãos tremiam tanto que eu não consegui pegar. A Dalva surgiu atrás de mim, me amparando pelos ombros para que eu não caísse. E foi nesse momento que o meu celular vibrou sobre o aparador, onde eu tinha deixado antes de abrir a porta, com uma notificação de mensagem.

A Dalva pegou o aparelho e me entregou. Eu olhei para a tela do aparelho, um modelo novo que o Cadu havia me dado um mês antes, o lançamento do ano daquela marca cara. Eu olhei para a tela grande e brilhante, uma mensagem da Vivi, minha melhor amiga desde a faculdade e o nosso braço direito na empresa.

Inclusive, foi ela quem sugeriu, seis meses antes, que eu me afastasse um pouco da empresa para cuidar dos detalhes do meu casamento que estava marcado para dali a três meses, pois eu estava muito sobrecarregada. E, incentivada pelo Cadu, eu tinha achado uma ótima ideia.

Eu desbloqueei o aparelho na esperança de que fosse uma explicação, ajuda ou qualquer coisa que me tirasse daquele pesadelo. Mas não, não era nada disso.

Era uma foto.

Uma foto do Cadu e da Vivi, no saguão do aeroporto internacional, pelo menos era o que dizia a placa que apareceu na foto. Eles estavam se beijando, a mão dela estava esticada em direção a câmera, exibindo um anel de noivado com um diamante enorme, enquanto o Cadu a abraçava pela cintura. Não tinha legenda, não precisava. A última pedra do meu mundo ruindo caiu sobre mim.

Eu senti o gosto amargo da bile subindo a boca. O mundo ao meu redor, tudo o que eu havia trabalhado para construir desde a faculdade, o apartamento amplo em local privilegiado, a empresa que eu criei e onde eu investi tudo o que eu tinha aceitando o Cadu como sócio, os planos de casamento, a vida que eu achei que tinha construído sólida, estava tudo desmoronado, como um castelo de cartas soprado por um furacão.

- Lorena... respira fundo. - A voz da Dalva era um sussurro, chegando a mim como alguma demonstração de solidariedade.

Eu olhei para ela, a única pessoa que havia sobrado no meu mundo, mas que também iria embora, afinal, como eu, endividada, iria pagá-la? As lágrimas finalmente transbordaram, quentes e grossas, como uma represa se rompendo violentamente. Eu estava sem casa, sem noivo, sem amiga, sem empresa e com o nome enterrado em dívidas que eu não tinha ideia de como pagaria.

- Eu perdi tudo, Dalva! Tudo! - Eu solucei e caí de joelhos ali, diante da Dalva e daquele oficial de justiça que eu nem sabia o nome, mas estava ali impassível assistindo a minha ruína.

A Dalva se abaixou e me abraçou, trazendo o conforto que podia, mas que não era suficiente para a dor que eu sentia naquele momento.

- É agora que você não pode se abater, menina! Você precisa se acalmar e se levantar, a gente precisa arrumar as suas coisas. Eu já vi como as pessoas são despejadas, se você não sair eles mandam a polícia e você é jogada na rua como um saco de lixo. - A Dalva me informou e eu a encarei assustada.

- Olha, senhora, eu vejo que tudo isso é inesperado para a senhora. Meu conselho é que a senhora siga a orientação dela, porque eu preciso garantir que a senhora saia em até duas horas ou eu tenho mesmo que chamar a polícia. Eu também estou aqui para garantir que a senhora não retire nenhum objeto de valor e para apreender o seu celular. Mas o melhor que eu posso fazer pela senhora e recomendar que procure um advogado e um lugar para ficar.

O oficial de justiça pela primeira vez pareceu um pouco mais humano, mas isso não minimizava a dor que eu estava sentindo naquele momento, contudo ele tinha razão, eu precisava de um advogado e um lugar para ficar.

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