Mundo de ficçãoIniciar sessãoSarah está cansada de sobreviver. Entre a faculdade de Direito, as contas acumuladas e os turnos exaustivos em um bar de Chicago, ela vê o futuro escapar por entre os dedos. Desesperada por uma saída, toma uma decisão que deveria ser apenas temporária: criar uma nova identidade. O plano era simples: ser outra pessoa, não se envolver e não se apaixonar. Thiago passou anos transformando a própria vida em trabalho, disciplina e distância emocional. Depois de perder aquilo que acreditava ser seu futuro, convenceu a si mesmo de que algumas portas deveriam permanecer fechadas. Até conhecê-la. O que começa como curiosidade rapidamente se transforma em algo muito mais perigoso. Porque Sarah esconde segredos. E Thiago não consegue parar de querer descobri-los. Entre desejo, mentiras e uma conexão impossível de ignorar, os dois mergulham em uma obsessão que atravessa todas as barreiras que construíram para se proteger. Mas quando a verdade finalmente vier à tona, eles terão que descobrir se estavam apaixonados um pelo outro... ou pelas versões que escolheram mostrar ao mundo. Porque algumas pessoas entram na nossa vida para mudar tudo. Outras entram para se tornar impossíveis de esquecer.
Ler maisJá passava da meia-noite. As luzes do quarto permaneciam acesas, o chá sobre a mesa havia esfriado há horas e a chuva fina contra a janela transformava os reflexos da cidade em manchas coloridas.
Sarah deveria ter ido dormir. Mas, como acontecia cada vez com mais frequência, a conversa privada na plataforma Nyx continuava prendendo sua atenção de uma forma difícil de explicar.
Talvez porque John fosse uma das poucas pessoas capazes de fazê-la esquecer a passagem do tempo.
Havia pouco mais de uma semana que ele aparecia em suas transmissões. Assistia. Observava. Permanecia.
Depois surgia no chat privado. E, de alguma forma irritante, sempre enxergava além do que ela pretendia mostrar. Conversar com ele nunca era simples. Depois de alguns minutos de conversa, Sarah resolveu testar o terreno:“Você passa muito tempo analisando as pessoas.”
A resposta de John piscou na tela quase de imediato:
“Faz parte do trabalho.”
Instigada, ela insistiu:
“E o que você acha que sabe sobre mim?”
A réplica dele demorou o suficiente para deixá-la arrepender-se da pergunta. Quando apareceu, veio curta:
“Menos do que gostaria.”
Os dedos dela permaneceram suspensos sobre o teclado.
Antes que pudesse formular uma reação, a linha de texto dele continuou:“Você faz uma coisa que me intriga.”
Ela leu a mensagem duas vezes, prendendo a respiração, antes de responder:
“Isso parece o começo de uma acusação.”
“Você continua se mantendo distante, evitando algo.”
“E o que você acha que estou evitando?”
“Você sempre muda de assunto quando percebe que a conversa está tomando um rumo mais interessante.”
“Isso foi deliberadamente vago”, rebateu ela.
“Foi.”
“Covarde.”
A resposta dele a pegou desprevenida:
“Samantha. Você prende a respiração quando fica desconfortável?”
Sarah encarou a tela, sentindo o impacto do contraste entre o codinome da persona que havia criado e a realidade cruel que ele desmontava sobre ela.
“Como exatamente você acha que conseguiria saber disso?”
“Porque você fica previsível quando eu te pego desprevenida.”
“Isso é impossível.”
“Não é.”
“Então me explica.”
“Você está mordendo o lábio agora, não está?”
Sarah soltou o lábio inferior no mesmo segundo e revirou os olhos para a parede vazia do quarto.
“Você é insuportável e arrogante.”
“Isso eu já ouvi antes.”
“E se eu disser que você está errado?”
A resposta demorou mais do que as anteriores.
“Pela sua resposta, arrisco afirmar que não estou.”
Ela não respondeu.
Curiosamente, aquele silêncio foi mais íntimo do que qualquer coisa que haviam dito naquela noite.Quando finalmente fechou a conversa, percebeu que já passava de uma da manhã.
Mesmo assim, demorou muito mais do que deveria para parar de pensar nele.Três semanas antes.
Era início de setembro, e o outono já coloria as ruas de Chicago.
Pelas janelas do bar onde trabalhava, Sarah observava as folhas douradas sendo arrastadas pelo vento enquanto as luzes da cidade se espalhavam pela madrugada.Já passava das duas quando seu turno finalmente terminou.
O trajeto de volta para o West Side foi o borrão de sempre: o ar frio chocando-se contra o rosto na saída, o vagão do metrô quase vazio com sua iluminação pálida e o balanço incômodo nos trilhos.
Quando saltou na estação de Austin, a Chicago dos cartões-postais de vidro e luz havia desaparecido por completo, substituída por concreto gasto, mercados com grades nas janelas e o silêncio desconfiado da madrugada.
Ela caminhava rápido por hábito, não por pressa.
O loft onde morava era antigo e cansado. Lá dentro, apenas o necessário: geladeira, fogão, uma mesa de estudos e a cama encostada na parede.
No chão, logo abaixo da porta, os envelopes empurrados por baixo da madeira a esperavam. Ela não precisava abrir os papéis para saber do que se tratava.
Largou-os na mesa junto com a bolsa e tomou um banho rápido.
A água quente não relaxava de verdade, só ajudava a continuar funcionando.Quando saiu, pensou apenas no próximo compromisso.
Vestiu uma roupa simples, organizou os materiais da universidade e conferiu o horário.O tempo nunca era suficiente.
Deitou sem cerimônia na cama estreita.
O teto parecia perto demais. E, em algum momento entre o cansaço e o sono, ela simplesmente apagou.✦ ✦ ✦
Sarah abriu os olhos devagar e encarou o teto antes de se levantar.
Ainda sentia os efeitos da noite anterior no corpo, mas não tinha a opção de continuar ali.Na cozinha, Sarah engoliu um café forte mais pela necessidade do que pelo gosto, prendeu os cabelos loiros em um rabo de cavalo e encarou o espelho. Os olhos verde-avelã, levemente avermelhados, e as olheiras profundas denunciavam o preço daquela rotina.
No caminho até o metrô, o celular vibrou com a primeira notificação do dia.
Assunto: PENDÊNCIA FINANCEIRA
Ela não precisou abrir para saber do que se tratava.
Era apenas a confirmação do que os envelopes da noite anterior já haviam dito de outra forma.Logo em seguida, como se adivinhasse o início do caos, uma mensagem de Peter surgiu na tela:
“Se eu descobrir que você esqueceu de comer de novo, vou pessoalmente te dar na cara.”
Sarah finalmente sorriu. O amigo tinha o estranho talento de transformar preocupação em ameaça.
Ela respondeu rápido:
“Se eu morrer, pelo menos economizo aluguel.”
A resposta veio no mesmo instante.
“Jesus Cristo, Sarah.”
Ela soltou uma pequena risada antes de guardar o celular e continuar andando.
O caminho até a estação parecia sempre igual. As mesmas calçadas, os mesmos postes, os mesmos rostos passando sem realmente se notar.
Enquanto o trem seguia seu trajeto, ela abriu a mochila e revisou rapidamente o conteúdo da prova.Em algum momento, desbloqueou o celular outra vez e abriu o aplicativo do banco.
Saldo insuficiente. Fatura atrasada. Mensalidade pendente. Ela observou os números por tempo demais antes de bloquear a tela novamente.Depois veio a troca de linha.
O ônibus.
Mais alguns quarteirões caminhando entre os prédios de Hyde Park.
Quando finalmente avistou o campus da Faculdade de Direito da Universidade de Chicago, parecia que já estava acordada havia um dia inteiro.
No caminho, cruzou com grupos de estudantes conversando alto demais sobre viagens, carros, estágios e apartamentos pagos pelos pais.
— Você vai pra Aspen no recesso?
— Minha mãe quer ir pra Europa de novo.
As risadas vinham fáceis.
Sarah atravessou o grupo sem diminuir o passo.
Frequentavam o mesmo curso, mas claramente não viviam no mesmo mundo.Mais uma prova. Mais um dia tentando sobreviver naquele lugar.
As salas já começavam a encher quando ela entrou. Conversas se espalhavam em pequenos grupos, sempre o contraste gritante contra a realidade dela.Sarah ocupou uma cadeira no fundo da sala e retirou os materiais da mochila sem chamar atenção.
Perto dela, duas garotas conversavam enquanto organizavam os notebooks.— Meu pai surtou quando eu falei que talvez recusasse o estágio da Lockwood.
— Você tá maluca? Eles pagam muito.
— Eu sei. Mas eu queria Nova York…
Na frente da sala, um rapaz comentava animado:
— Kane Group abriu processo seletivo de novo.
— Dizem que é impossível entrar sem indicação.
— Imagina trabalhar direto com o Kane…
As vozes continuavam se misturando enquanto os números do aplicativo do banco permaneciam presos na mente de Sarah.
Ela respirou fundo.
A porta da sala se abriu e o professor apareceu carregando uma pilha grossa de provas. As conversas diminuíram aos poucos.— Espero que tenham estudado — disse enquanto organizava os papéis. — Porque Direito Empresarial não costuma ter pena de ninguém.
Algumas risadas nervosas surgiram pela sala.
As provas começaram a ser distribuídas.
Quando a folha parou diante dela, sentiu o aperto no peito voltar.Nunca era só uma prova.
Era mais um passo tentando atravessar um mundo que parecia ter sido feito para pessoas completamente diferentes dela.A prova terminou com uma atmosfera ainda mais opressiva do que quando havia começado.
Sarah deixou a sala, isolada em seus pensamentos, guardando os materiais com cuidado automático, como se ainda estivesse tentando manter algum controle sobre o dia. No corredor da universidade, alguém a chamou pelo nome.— Senhorita Whitmore.
Ela parou.
Um homem mais velho, funcionário administrativo do setor acadêmico, se aproximou com um sorriso treinado. Educado demais para ser espontâneo.— Precisamos conversar sobre sua situação.
Ela já sabia antes mesmo dele continuar.
Ele conferiu algumas páginas na prancheta que carregava, como se buscasse um tom neutro para a informação.— Sua bolsa parcial está em risco. Você está acumulando atraso há alguns meses. Se não regularizar pelo menos parte do valor até o fim do mês, o comitê pode suspender o benefício.
Por um instante, nenhum dos dois falou. Ela apenas assentiu, sem interromper.
Ele fechou a prancheta.— É uma situação delicada… especialmente para alguém como você.
Ela levantou os olhos.
— Como eu?
Ele sorriu de leve, como se tivesse sido mal interpretado.
— Jovem, inteligente, bonita… Tem gente que tem mais facilidade nesse tipo de coisa, sabe? Apoio, ajuda. Só estou dizendo que seria uma pena você perder isso por falta de… oportunidades certas.
Sarah não respondeu.
O recado era claro. Ela apenas fez um leve aceno com a cabeça.— Eu vou resolver.
E seguiu andando.
Pela terceira vez naquele dia, o celular vibrou no bolso. Ela não teve coragem de descobrir o que era.
O corredor da universidade continuou cheio de vozes ao redor dela.
Nenhuma realmente a alcançava.O relógio na parede do escritório já passava das nove quando Thiago empurrou a cadeira para trás, massageando a têmpora. Precisava de café, ou de qualquer coisa que mantivesse sua mente funcionando por mais uma hora. Ele abriu a porta da sala. Na antessala, apenas a luminária permanecia acesa, projetando um facho dourado sobre a pilha de documentos. Sarah estava lá, inclinada sobre a mesa, com os óculos de leitura na ponta do nariz e os dedos deslizando pelo teclado.Thiago parou a poucos metros dela, encostando-se na parede, os braços cruzados contra o peito, observando-a por alguns segundos antes de se fazer notar.— Você não tem vida fora daqui? — ele perguntou, a voz grave fazendo-a se sobressaltar.Sarah ergueu o rosto de supetão, piscando algumas vezes antes de soltar uma risada curta.— Pelo visto, você também não tem.Thiago a encarou, medindo o cansaço evidente sob a expressão desafiadora dela.— Então vamos embora.Ele voltou para a sala, fechou o notebook, recolheu-o e ves
Segunda-feira chegou com a pontualidade implacável de um relógio suíço.O escritório já fervilhava de atividade quando Sarah cruzou a portaria, com o tailleur impecável e a mente focada no relatório de fusão que precisava estar na mesa do chefe até o meio-dia.Ela cumprimentou os colegas com um aceno rápido e subiu para o andar executivo, abrindo documentos antes mesmo de tirar o casaco.Thiago chegou um pouco mais tarde que o habitual.Atravessou o escritório com passos firmes. A expressão estava mais tensa que o normal, a mandíbula marcada e olheiras discretas denunciavam uma noite mal dormida.Passou pela mesa de Sarah sem desacelerar e depositou um copo térmico ao lado do teclado.— Bom dia, Senhor Kane.— Bom dia — murmurou, com a voz rouca.E entrou na própria sala.Sarah piscou, paralisada com os dedos sobre o teclado.Esticou a mão e puxou o copo para perto. Ao abrir a tampa, o cheiro doce e inconfundível subiu — café com leite, baunilha e canela. Exatamente do jeito que pedia
Sarah evitou falar com Peter. Sabia que ele estava passando o fim de semana em uma viagem romântica com o namorado.Passou o sábado inteiro enterrada sob o edredom, deixando as horas passarem sem fazer esforço para acompanhá-las.Foi o toque estridente do celular, já no final da tarde, que quebrou o transe. O nome de Amanda piscava na tela. Com a convivência forçada no último andar da Kane Group, as duas haviam desenvolvido uma afinidade genuína.— Ei, Sarah. Vamos tomar uns drinks hoje? — a voz de Amanda veio animada.Sarah soltou um suspiro pesado, afundando o rosto no travesseiro.— Ai, não sei, Amanda… Não estou muito legal hoje.— Mais um motivo para encher a cara — Amanda rebateu sem margem para drama. — Te encontro no The Violet Hour em uma hora. Sem desculpas.A relutância durou pouco. A perspectiva de ficar remoendo o fim com Thomas era pior do que qualquer esforço social. Ela se arrumou, buscando recuperar algo de sua própria identidade, e tomou um táxi para Wicker Park.O T
Passaram-se algumas semanas, e a rotina na Kane Group consolidou-se como um relógio de precisão. Em uma tarde de terça-feira, enquanto o refeitório fervilhava com o barulho de xícaras e o burburinho de prazos, Sarah estava em um canto, tentando ignorar a conversa na mesa ao lado.— A Jennifer tentou de novo? — uma das associadas perguntou, com um riso abafado. — Tentou — respondeu a outra, com um tom de quem trazia notícias de guerra. — E? — Chamou o Kane pra beber depois do expediente.Sarah sentiu a respiração travar, mesmo que fingisse ler um relatório.— O que ele respondeu? — “Qual o prazo da campanha?” — A associada imitou o tom seco e impessoal. Risadas contidas ecoaram pela mesa. — Ela insistiu. “Sexta-feira?”— “Tenho compliance.”— Juro. Ele nem se deu conta de que ela estava dando em cima dele.Durante anos, Sarah convencera-se de que Thiago era o tipo de homem que colecionava mulheres. Era a única explicação que tornava suportável o desaparecimento dele depois daquela










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