Mundo de ficçãoIniciar sessãoElizabeth era de origem pobre, criada por uma mãe solteira que sustentava o lar como cozinheira, aprendeu cedo que o amor nem sempre é suficiente para vencer a dureza da vida. Quando a saúde da mãe se agravou e os custos médicos se tornaram inalcançáveis, Elizabeth foi empurrada a uma decisão extrema. Aos dezoito anos, ainda virgem, aceitou um contrato impensável: tornar-se barriga de aluguel de um homem que jamais conheceu, em troca de dois milhões de dólares. A concepção aconteceu de forma tradicional e profundamente estranha para alguém que nunca havia sido tocada intimamente. Uma criança foi gerada… e retirada de seus braços antes mesmo de existir para ela. Elizabeth nunca viu o bebe, nunca soube seu nome, apenas carregou a ausência. Com o dinheiro recebido, mudou-se para outro estado ao lado da mãe, acreditando que o sacrifício teria valido a pena. Mas o dinheiro não compra milagres. Um ano depois, apesar de tratamentos e cirurgia, sua mãe faleceu. Elizabeth ficou sozinha no mundo, independente por necessidade, carregando a culpa, o luto e a pergunta que jamais a abandonou: como estará a criança que eu gerei? Anos depois, ao retornar à cidade natal, Elizabeth aceita um trabalho como babá, a última alternativa para cuidar de um menino tão lindo quanto difícil, mimado, pirracento e emocionalmente carente, alguém que ninguém conseguiu compreender. O que parecia apenas um emprego provisório transformou-se em um reencontro silencioso com o passado. Alguns segredos não permanecem enterrados para sempre. E algumas verdades esperam anos pelo momento certo de serem reveladas.
Ler maisElizabeth cresceu seguindo sua mãe, Lúcia, por onde ia, eram apenas as duas desde o dia em que nasceu.
Sua mãe era mãe solteira, e tudo o que podia fazia para dar à filha a melhor educação e o maximo de conforto que conseguia oferecer. O pai de Liz era um completo desconhecido. Liz era fruto de uma noite de verão, quando Lúcia, recém-saída da adolescência, decidiu se entregar à liberdade efêmera de uma juventude. Cozinheira de mão cheia, Lúcia trabalhava como chef particular em casas de famílias abastadas da cidade. Não ultrapassava a porta da cozinha, muito menos tinha contato direto com os donos das residências. Seu trabalho era silencioso e meticuloso, preparava refeições elaboradas, organizava tudo em embalagens etiquetadas com instruções precisas, e deixava para as outras empregadas o papel de esquentar e servir conforme solicitado. Elizabeth acompanhava Lúcia nas jornadas de trabalho. Saia da escola e seguia para a casa onde sua mãe estaria. Não era todos os dias na mesma casa, mas sempre entre as mesmas famílias, velhas conhecidas do circuito social da elite local. Mas havia uma das casas que Liz nunca gostou de ir. Nos Matarazzo. Na mandao Matarazzo, Liz se sentia incomodada. Cada vez que entrava ali, tinha a nítida sensação de estar sendo observada, não com curiosidade, mas com vigilância. Era como se os olhos de alguém estivessem cravados nela, mesmo quando estava sozinha na cozinha ou folheando um livro velho na copa dos empregados. Essa era a única casa em que Lúcia tinha algum tipo de interação com a patroa. Anita Matarazzo, uma mulher elegante e reservada, com pouco mais de trinta anos, costumava aparecer na cozinha durante os dias de serviço. Sentava-se à mesa de mármore, provava os molhos diretamente da colher, dava ordens com voz suave, mas firme, e às vezes até ria, um riso curto, quase mecânico. Liz sabia que os Matarazzo tinham um filho, Theodoro, que estudava no exterior. Nunca o vira, mas ouvia comentários esporádicos de que o menino voltaria formado, seria engenheiro, como o pai queria, e também que vai assumir os negócios da família. Para ela, ele era apenas uma sombra distante, alguém que talvez nunca conhecesse. Com o passar dos anos, Lúcia começou a demonstrar sinais de cansaço extremo. Fraquezas repentinas, tonturas, desmaios breves que a deixavam pálida e ofegante. Os médicos ainda não tinham um diagnóstico claro, mas Elizabeth sabia, no fundo, que era algo grave. Aos dezessete anos, determinada a aliviar o fardo da mãe, Liz começou a trabalhar como babá freelancer. Por ser menor, não podia assinar carteira, mas aceitava serviços informais em casas conhecidas, sempre com referência da mãe. Com o tempo, também passou a ajudar e ate substituí-la nas cozinhas quando Lúcia não tinha forças, mantendo assim a renda mensal que sustentava as duas. Foi então que Anita anunciou que faria uma grande festa de boas-vindas para o retorno de Theodoro. Um evento requintado, com convidados ilustres, e um cardápio digno de gala. Lúcia foi encarregada de tudo e, apesar da saúde frágil, aceitou. O dinheiro que receberia seria muito bom. Elizabeth prometeu ajudá-la. Nos dias que antecederam a festa, as duas trabalharam lado a lado, testando receitas, ajustando temperos, preparando bases que seriam finalizadas na hora. Mesmo assim, Anita rondava a cozinha com mais frequência do que o habitual, seus olhos sempre pousando em Liz com uma intensidade que beirava o incômodo. No dia da festa, Anita pediu que usassem uniformes, dolmãs brancos impecáveis, com o brasão discretamente bordado no bolso, uma forma de marcar hierarquia, de separar quem servia de quem era servido. Durante a tarde, as duas trabalharam bem. Mas, à medida que os convidados chegavam e o ritmo da cozinha acelerava, Lúcia sentiu seu corpo fraquejar e desmaiou. Elizabeth a levou para um canto, fez com que se deitasse em um banco forrado com panos limpos, e assumiu sozinha o comando da cozinha. Graças ao trabalho adiantado, conseguiu manter tudo sob controle. Anita, ocupada com os convidados, não percebeu o incidente. E no fim da noite, quando os últimos pratos foram levados e os talheres recolhidos, chamou todos os funcionários que trabalharam na festa para dentro da sala principal, para agradecê-los e pagá-los pessoalmente. Foi ali então, sob a luz dourada dos lustres de cristal, da mansão, que Elizabeth viu Theodoro Matarazzo pela primeira vez. Ele estava de pé ao lado da mãe, vestindo um terno cinza-claro que realçava seus cabelos loiros volumosos e olhos verdes tão claros que pareciam translúcidos. Alto, porte atlético, postura ereta, mas com um sorriso tímido nos lábios, como se também se sentisse deslocado naquele mundo de aparências. Seus olhares se cruzaram. E, por um instante, o barulho da festa sumiu. Anita, atenta como sempre, notou. Ao entregar o envelope a Elizabeth, demorou um segundo a mais do que o necessário, e seus dedos roçaram levemente os da jovem, um toque gelado, calculado. - Bom trabalho - disse, com um sorriso que não chegava aos olhos. Naquela noite, Elizabeth não conseguiu dormir. Theo habitava seus pensamentos como um fantasma gentil, presente, mas intangível. Lúcia percebeu a mudança. A filha, antes relutante em ir à mansão dos Matarazzo, agora arrumava desculpas para estar lá. Chegava mais cedo, oferecia-se para limpar a cozinha depois do expediente, perguntava casualmente sobre o cardápio da semana seguinte. Preocupada, chamou-a para conversar: - Filha, eu não quero ser chata, mas devo te avisar sobre os perigos de envolvimento entre patrão e empregada. - Mãe, não exagera. Eu nem o conheço. Só acho ele bonito. Olhar não arranca pedaço. - Olhar não arranca pedaço, mas pode dar liberdade. E eu não quero problemas com a Anita. - Não entendo o que a senhora quer dizer... - Ele pode entender que você está disponível. Que pode se aproximar... e fazer o que quiser de você. - Não, mãe. Não tem nada disso. - Você ainda é menor, quase uma criança. Se afaste! - Mas eu nunca tive contato com ele! Não seja assim tão severa... - Existe um motivo para não conhecermos os donos das casas. E esse é o motivo: evitar justamente isso. Theodore acabou de voltar do exterior. Para ele, tudo é novidade. Brincar com uma empregada? Seria só mais uma distração. - Mãe, a senhora está indo longe demais. - O que mais acontece nesse mundo deles é usarem os empregados como acessórios. Como brinquedos descartáveis. Não quero isso para você. Nós não precisamos disso. Prometa que não vai se aproximar dele! Elizabeth suspirou, com os olhos marejados. - Está bem, mãe. Eu prometo. Mas promessas feitas com o coração dividido são frágeis. Theo continuava aparecendo, não fisicamente, mas em cada detalhe que lembrava dele, desde o perfume de sândalo que pairava no corredor quando Anita saía do escritório, até no modo como os empregados cochichavam sobre “o moço educado, diferente do pai”. Evitar Theo significaria abandonar a cozinha dos Matarazzo e, com isso, privar Lúcia de uma das fontes de renda estável. Mas cumprir a rotina significava caminhar diariamente sobre uma linha tênue entre dever e desejo, entre lealdade à mãe e atração pelo impossível. E também significava conviver com Anita cujos olhos, cada vez mais atentos, pareciam saber mais do que deveriam. Elizabeth conseguiria conviver com este duelo dentro de si?Elizabeth reconheceu o carro que a esperava na porta de sua casa. Era o mesmo carro que ela observou dias pela janela de sua sala. Um carro de luxo, elegante, com motorista à espera. O ar condicionado de dentro do veículo estava gelado e logo sua pele se arrepiou, junto com o bico de seus seios que estavam cobertos por uma fina blusinha de alça.Ela percebeu e ficou desconfortável, já que estava dentro de um carro junto com Raul e o motorista.Raul, de forma sutil, retirou seu blazer e deu a garota para se cobrir.- Está muito calor para desligar, suas vestes são mais leves que as nossas.- Eu entendo, obrigada pelo blazer.-Logo estaremos no aeroporto, você vai sentir calor novamente.- Aeroporto? Vamos de avião?- Sim, seu contratante disponibilizou o jatinho dele para locomovê-la.- Quando eu irei conhecê-lo?- Quando for o seu período fértil - Pensei que eu o conheceria antes.- Não se esqueça Elizabeth que estamos aqui para celebrar um contrato que tem a finalidade de gerar um
Na hora combinada a campainha tocou, Elizabeth já sabia quem era, Raul Spolaor o advogado.Ela abriu a porta e o convidou a entrar, como da outra vez, ele entrou fazendo cara de poucos amigos, desdenhando com o olhar a humildade da casa.- Sente - se por favor, quer um café?- Aceito, sem açúcar por favor.Ela trouxe o café para ele em uma caneca branca com a foto de sua mãe. Detalhe que não passou despercebido por Raul.- Então senhorita qual a sua resposta?- Eu tenho algumas dúvidas.- Diga, se for de meu conhecimento eu responderei - disse ele dando um gole no café que lhe pareceu delicioso, quente e forte.- Está escrito que tenho quatro meses para engravidar, se eu conseguir antes, posso voltar antes para casa ou preciso ficar os 12 meses lá?- Voltará assim que der a luz, se for antes, volta antes.- Poderei telefonar para minha mãe enquanto estiver confinada?- Você fala como se estivesse indo para a prisão.- Sim ou não?- Sim, mas não poderá dizer nada a ela.- Eu sei, eu en
No dia seguinte, Elizabeth acordou ainda mais cansada do que quando fora dormir. A noite havia sido uma sucessão de pesadelos, sombras que sussurravam ameaças, mãos invisíveis puxando-a para longe de sua mãe, vozes frias exigindo que ela cumprisse algo que seu corpo e alma ainda não entendiam. Dormira mal, virando-se na cama como se fugisse de si mesma. O medo, porém, permanecia, perder a única pessoa que lhe restava neste mundo. Sua mãe.Levantou-se com os olhos pesados e o corpo dormente, como se cada músculo carregasse o peso da decisão que teria de tomar. Fez sua higiene com movimentos mecânicos, escovou os dentes sem sentir o gosto da pasta, lavou o rosto com água gelada tentando espantar a névoa do sono e da ansiedade. Preparou seu café da manhã: pão torrado, um pouco de manteiga, e uma xícara fumegante de café preto, amargo como seus pensamentos. Sentou-se à mesa da cozinha, onde o silêncio era tão denso que parecia gritar.Foi então que pegou os papéis. A proposta indecente e
Cada vez que Elizabeth ia ajudar sua mãe, seus olhos à traíam, buscando por Theodoro em algum canto da mansão dos Matarazzo. Algumas vezes o encontrou entrando ou saindo da mansão, percebeu que os olhos dele pousaram em sua figura por um tempo prolongado. O que a deixava nervosa e tímida.Era quase como uma tortura tentar se concentrar nas tarefas. Ela temia que a mãe percebesse aquele brilho diferente nos seus olhos, aquela distração constante, como se sua alma estivesse sempre à espreita, esperando um gesto, um sorriso, uma palavra dele.Mas, por uma cruel peça do destino, tudo desmoronou num único instante.Sua mãe desmaiou no meio da cozinha dos Matarazzo, derrubando uma tigela de vidro que se estilhaçou no chão de mármore com um estrondo que ecoou por toda a ala residencial. O sangue que escorria do seu nariz, fino, escuro, quase negro, denunciou a todos a doença que Lúcia vinha escondendo com sorrisos forçados e remédios sem eficacia. A ambulância chegou minutos depois, sire
Elizabeth cresceu seguindo sua mãe, Lúcia, por onde ia, eram apenas as duas desde o dia em que nasceu. Sua mãe era mãe solteira, e tudo o que podia fazia para dar à filha a melhor educação e o maximo de conforto que conseguia oferecer. O pai de Liz era um completo desconhecido. Liz era fruto de uma noite de verão, quando Lúcia, recém-saída da adolescência, decidiu se entregar à liberdade efêmera de uma juventude. Cozinheira de mão cheia, Lúcia trabalhava como chef particular em casas de famílias abastadas da cidade. Não ultrapassava a porta da cozinha, muito menos tinha contato direto com os donos das residências. Seu trabalho era silencioso e meticuloso, preparava refeições elaboradas, organizava tudo em embalagens etiquetadas com instruções precisas, e deixava para as outras empregadas o papel de esquentar e servir conforme solicitado. Elizabeth acompanhava Lúcia nas jornadas de trabalho. Saia da escola e seguia para a casa onde sua mãe estaria. Não era todos os dias na mesma c





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