Mundo de ficçãoIniciar sessãoCada vez que Elizabeth ia ajudar sua mãe, seus olhos à traíam, buscando por Theodoro em algum canto da mansão dos Matarazzo.
Algumas vezes o encontrou entrando ou saindo da mansão, percebeu que os olhos dele pousaram em sua figura por um tempo prolongado. O que a deixava nervosa e tímida. Era quase como uma tortura tentar se concentrar nas tarefas. Ela temia que a mãe percebesse aquele brilho diferente nos seus olhos, aquela distração constante, como se sua alma estivesse sempre à espreita, esperando um gesto, um sorriso, uma palavra dele. Mas, por uma cruel peça do destino, tudo desmoronou num único instante. Sua mãe desmaiou no meio da cozinha dos Matarazzo, derrubando uma tigela de vidro que se estilhaçou no chão de mármore com um estrondo que ecoou por toda a ala residencial. O sangue que escorria do seu nariz, fino, escuro, quase negro, denunciou a todos a doença que Lúcia vinha escondendo com sorrisos forçados e remédios sem eficacia. A ambulância chegou minutos depois, sirenes cortando o silêncio da tarde, e Lúcia foi levada ao hospital mais próximo, pálida como cera, os lábios entreabertos em um sussurro inaudível. Anita, dona da casa, observava tudo de longe, com os braços cruzados e os olhos apertados, como se testemunhasse um incômodo inevitável. Não chorou. Não perguntou. Apenas esperou, impassível, até que os médicos voltassem com notícias. Liz estava apavorada. Sua mãe nunca se mostrou tão frágil. Mas agora, deitada numa cama de hospital com tubos ligados ao corpo, parecia uma folha prestes a ser levada pelo vento. E o segredo que as duas guardavam com tanto cuidado agora era de conhecimento público. Os médicos demoraram horas. Quando finalmente retornaram, Liz e Anita estavam sentadas em bancos duros do corredor, sob luzes fluorescentes que tornava tudo ainda mais frio. - A quanto tempo sua mãe está com câncer? Por que ela nunca se tratou? - O médico perguntou de forma fria e distante. Anita olhou para Liz, mas não disse nada. Seu silêncio era pesado, carregado de julgamento, como se a filha também fosse cúmplice da negligência. - Não sabíamos... - Liz respondeu, a voz trêmula. - Nunca tivemos o diagnóstico. - E também não trataram? - Não sabíamos o que era. Minha mãe apenas tomava remédios para diminuir a dor... O médico suspirou, cansado. - Ela precisa iniciar quimioterapia imediatamente, e depois a radioterapia, mas infelizmente não será suficiente. Haverá necessidade de um transplante. - Onde é o câncer da minha mãe, doutor? - No fígado. O tratamento tem que ser rápido. Caso contrário, poderá entrar em metástase e se espalhar pelo corpo. Após a notícia devastadora, o médico saiu, deixando as duas sozinhas no corredor branco e impessoal, onde o cheiro de antisséptico parecia sufocar qualquer esperança. Foi então que Anita se pronunciou. Suas palavras, que poderiam ter sido de conforto, saíram cruéis, afiadas como lâminas. - Bem, já que sua mãe está doente e não pode mais trabalhar, eu terei que encontrar outra cozinheira para minha casa. - Eu posso assumir o lugar da minha mãe! - Liz implorou, levantando-se de um salto. - Todos esses anos estive junto dela, sei de tudo: temperos, horários, preferências da família... - Não. Você ainda é menor de idade. Não quero riscos com a lei. - Senhora, me conhece! Me viu crescer! Sabe que nunca traria problemas! - Você não, mas a justiça sim. Não posso fazer nada a não ser dispensar vocês. Sem se despedir, Anita virou as costas e desapareceu pelo corredor, os saltos altos marcando cada passo com indiferença. Elizabeth, que já estava despedaçada pela doença da mãe, agora se sentia afundar ainda mais. E, como se o mundo conspirasse contra ela, a notícia se espalhou rápido. As outras famílias para quem Lúcia trabalhava, os Delmoro, os Cavalcanti, os Silveira, fecharam as portas sem sequer ouvir suas súplicas. “Já contratamos outra”, diziam. “Sentimos muito, mas não podemos.” Desesperada, Liz começou a aceitar qualquer trabalho temporário, babá em finais de semana, garçonete em festas de casamento, entregadora de panfletos em eventos corporativos. Dormia pouco, comia mal, e com muito custo conseguiu se manter sozinha. O câncer de sua mãe progredia, e os tratamentos oferecidos pelo SUS eram insuficientes. O transplante era a única chance, mas teria que aguardar a fila, e Liz não era doadora compatível. Em poucos meses, completou 18 anos. Finalmente maior de idade, entregou currículos em dezenas de lugares: restaurantes, lojas, escritórios. Foi chamada para entrevistas, vestiu-se com o melhor que tinha, sorriu com força, mas sempre ouvia o mesmo: “Infelizmente, não desta vez.” Então, com o orgulho ferido e a esperança esgarçada, resolveu voltar ao ponto de partida. Visitou, uma a uma, as casas onde sua mãe havia servido com dedicação por anos. Todas já tinham substitutas. Até na mansão dos Matarazzo, onde tudo começou a desmoronar. Anita a recebeu na cozinha, ouviu tudo o que a garota tinha a falar, mas a sua resposta era a mesma das outras. - Sinto muito, Elizabeth. Já tenho alguém. Já coloquei outra cozinheira no lugar de sua mãe. A garota voltou para casa sob uma chuva fina, os sapatos encharcados, os olhos secos de tanto chorar. Sentia-se presa em um beco sem saída. Os bicos não durariam para sempre, precisava de um emprego. Quando chegou em casa, viu um carro desconhecido parado do outro lado da rua, estranhou já que ali era um bairro humilde, e um carro daquele porte não era de nenhum dos seus vizinhos. Dois dias depois, uma batida firme na porta a fez saltar do sofá. Do outro lado um advogado, de terno e bem alinhado, na casa dos 40 anos, com cara de poucos amigos, postura rígida, cabelos negros bem aparados e olhos que pareciam ter visto muitos segredos, trazia para ela uma proposta, algo totalmente fora de sua imaginação, mas que poderia salvar a vida de sua mãe e mudar o seu destino. - Elizabeth Alves? - Sim... e quem é você? - Raul Spolaor. Sou advogado. Tenho uma proposta de um cliente para você. - Proposta? Quem é esse seu cliente? - Posso entrar? Ou conversaremos sobre coisas importantes e íntimas na sua porta? Ela hesitou, se sentiu desconfortavel. Um homem desconhecido, em sua casa modesta, trazendo promessas vagas... era perigoso. Mas o desespero falava mais alto que o medo. Afastou-se, abrindo caminho. Ele entrou sem cerimônia, sentou-se na única poltrona decente e aguardou que ela se acomodasse à sua frente. Liz esfregava as mãos, nervosa, os olhos fixos nele como se tentasse decifrar alguma pista em seu rosto impassível. - Então, senhor Raul, qual é a proposta? - Meu cliente faz a você uma proposta de barriga de aluguel. Ele deseja um herdeiro. Você precisa de dinheiro. Um acordo justo, legal, assinado e protocolado. - Um... filho? Eu? - Não. Uma barriga. Você não terá nenhum vínculo com a criança após o nascimento. Nenhum contato. Nenhum direito. Nem obrigação. - Por quê... por que ele quer a mim para gerar o filho dele? - Ele tem os próprios motivos. - E quanto ele pensa em me pagar pelo filho dele? - Dois milhões. Acho que é o suficiente para o tratamento da sua mãe... e para viverem bem, não é? Liz empalideceu. - Como você sabe sobre a minha mãe? Quem é o seu cliente? - Não direi. É confidencial. Ela se levantou, andando de um lado para o outro da sala minúscula, como se o movimento pudesse dissipar o peso daquelas palavras. Dois milhões. A cura da mãe. Uma vida inteira de segurança. Em troca de nove meses. De um corpo que não seria mais só seu. De um bebê que carregaria dentro de si, sentiria crescer, mas jamais poderia chamar de seu. Quem poderia ser o homem a lhe fazer tal proposta? Raul também se levantou, vendo a indecisão de Liz, colocando os papéis sobre a mesa de centro, uma pilha grossa, com capa plastificada e letras miúdas que pareciam zombar de sua inocência. - Aqui está uma cópia do contrato e as cláusulas a serem cumpridas. Leia atentamente. Se estiver de acordo, assine onde está o seu nome e rubrique todas as páginas. - E como te darei a resposta? - Amanhã, às sete da noite, estarei aqui. Tenha a minha resposta. Ele se virou e saiu sem se despedir, sem olhar para trás. A porta se fechou com um clique suave, mas o eco pareceu durar uma eternidade. Deixando Elizabeth confusa e angustiada. Elizabeth ficou parada no meio da sala, os papéis tremendo em suas mãos. Começou a chorar baixinho, sem soluços, apenas lágrimas quentes escorrendo pelo rosto. Não tinha coragem de abrir o contrato. Sabia, no fundo, que não era tão simples quanto parecia. Colocou os papéis em cima da pequena mesa de centro. Decidiu tomar um banho quente, comer algo, qualquer coisa e tentar dormir. Precisava de uma mente clara. Porque aquela decisão não era só sobre dinheiro. Era sobre quem ela era. E quem estaria disposta a se tornar, era uma decisão tão séria que não poderia ser tomada às pressas. Naquela noite, o sono não veio. E, ao amanhecer, Elizabeth ainda não sabia se diria sim ou se preferiria ver sua mãe morrer com dignidade, em vez de vender seu próprio corpo como mercadoria. Mas o relógio corria. E a vida, muitas vezes, não espera por escolhas perfeitas, só por escolhas necessárias. Diante das duas opções, qual será a melhor escolha?






