Mundo de ficçãoIniciar sessãoNo dia seguinte, Elizabeth acordou ainda mais cansada do que quando fora dormir. A noite havia sido uma sucessão de pesadelos, sombras que sussurravam ameaças, mãos invisíveis puxando-a para longe de sua mãe, vozes frias exigindo que ela cumprisse algo que seu corpo e alma ainda não entendiam. Dormira mal, virando-se na cama como se fugisse de si mesma. O medo, porém, permanecia, perder a única pessoa que lhe restava neste mundo. Sua mãe.
Levantou-se com os olhos pesados e o corpo dormente, como se cada músculo carregasse o peso da decisão que teria de tomar. Fez sua higiene com movimentos mecânicos, escovou os dentes sem sentir o gosto da pasta, lavou o rosto com água gelada tentando espantar a névoa do sono e da ansiedade. Preparou seu café da manhã: pão torrado, um pouco de manteiga, e uma xícara fumegante de café preto, amargo como seus pensamentos. Sentou-se à mesa da cozinha, onde o silêncio era tão denso que parecia gritar. Foi então que pegou os papéis. A proposta indecente e milionária. A salvação disfarçada de contrato. O documento estava redigido com uma clareza quase cruel, sem letras miúdas, sem ambiguidades, como se o autor quisesse que cada palavra fosse entendida e sentida como um golpe ou uma promessa. Tudo estava enumerado, objetivo, irrevogável. 1° Este contrato é individual e intransferível. 2° Ao aceitar este contrato, a contratada terá até quatro meses para iniciar a gestação. 3° Não conseguindo conceber após este prazo, o contrato será rescindido sem indenização. 4° A contratada deverá passar por exames médicos prévios, comprovando plena capacidade reprodutiva e saúde física. 5° A contratada residirá, por um período de doze meses, em residência designada pelo contratante, sob total isolamento social. 6° A genitora da contratada será transferida para um hospital particular com todo o tratamento custeado pelo contratante. 7° A inseminação ocorrerá de forma natural, sem intervenção médica ou assistência reprodutiva. 8° A recusa da cláusula 7° implicará na rescisão imediata do contrato e devolução de quaisquer valores recebidos. 9° Alimentação, moradia, transporte e cuidados médicos serão integralmente custeados pelo contratante durante todo o período. 10° Durante os encontros destinados à concepção, a contratada usará venda nos olhos e não poderá identificar o contratante por voz, toque ou qualquer outro meio. 11° A contratada não poderá saber o sexo do bebê, assim como também não poderá ter nenhum contato com o mesmo após o nascimento. 12° Após o nascimento, a contratada retornará à sua vida anterior, sem obrigações adicionais. 13° O conteúdo deste contrato é confidencial e irrevogavelmente sigiloso. Qualquer violação sujeitará a contratada às penas civis e criminais cabíveis. 14° O valor total do contrato é de dois milhões de dólares americanos. 15° 50% do montante será depositado na conta da contratada após confirmação médica da gestação; os 50% restantes, após o nascimento bem-sucedido da criança. 16° A conta bancária será aberta exclusivamente em nome da contratada, sob supervisão jurídica do contratante. Elizabeth ficou paralisada. O valor era muito maior do que imaginava. Dois milhões de dólares. Não reais. Dólares. A mãe sendo tratada em hospital particular. Era dinheiro mais que suficiente para custear a vida da mãe, garantir segurança, dignidade e um futuro. Teria uma casa melhor, faria uma faculdade. Nunca mais precisaria se preocupar com contas, com dívidas, com o olhar de pena dos outros. Mas existia um ponto que a deixava desconfortável, Elizabeth era virgem e nunca teve nenhum contato anterior com homens. Nunca beijou ninguém. Nunca segurou a mão de um rapaz, nunca namorou. Sua mãe, Lúcia, sempre a protegera com ferocidade, afastando pretendentes, proibindo festas, vigiando cada saída. “Homens só querem uma coisa”, dizia, com os olhos cheios de cicatrizes antigas que nunca contara. Agora, Elizabeth teria que se entregar a um estranho. Um homem cujo rosto não veria, cuja voz não reconheceria, cujas intenções permaneceriam ocultas atrás de uma venda de seda. E se ele fosse violento? E se a machucasse? E se não respeitasse seu medo, sua dor, sua inocência? E se fosse apenas um fetiche disfarçado de contrato, para usá-la e depois descartá-la? Não sabia como seria isso, mas não poderia perder a oportunidade de salvar a sua mãe. Também não sabia como iria dizer a ela que ficaria longe por um ano, sem contar a verdade. Afinal ela estava proibida de falar sobre a gravidez. Se ela teria até quatro meses para engravidar e após a gravidez ela poderia voltar para casa, se engravidasse logo, voltaria mais cedo para casa. Antes de assinar, resolveu visitar a mãe no hospital, precisava se preparar e preparar a mãe para a separação temporária. Precisava vê-la. Precisava se despedir, mesmo que fingindo que era apenas uma viagem de trabalho. Quando entrou no quarto do hospital, encontrou a mãe adormecida. Lúcia parecia frágil demais para aquele mundo, seus longos cabelos negros, outrora seu orgulho, tinham sido raspados, deixando à mostra um couro cabeludo pálido, quase translúcido. Seus lábios, antes rosados e cheios, estavam ressecados, rachados, como se o próprio corpo estivesse se esvaziando. Ver a sua mãe daquela forma lhe cortava o coração, mas acreditava que tudo iria melhorar com o dinheiro que ganharia com a gravidez. - Vai ficar aí me olhando sem nem me dar um beijo, filha? - murmurou Lúcia, sem abrir os olhos, como se sentisse a presença dela na alma. - Oi, mãe, não queria te acordar. - Ah, meu anjo, você pode me acordar a qualquer hora. Minha vida inteira foi esperar por você. Elizabeth segurou sua mão, fina, fria, mas ainda familiar e beijou os nós dos dedos com carinho. Depois, inclinou-se e abraçou-a com delicadeza, como se temesse quebrá-la. - Você está com cara de preocupada - disse Lúcia, agora com os olhos abertos, fixos na filha. - - Está com problemas? - Não… na verdade, tive uma proposta. E preciso da sua opinião, mãe. - Proposta do quê, filha? Elizabeth hesitou. Mentir doía, mas a verdade mataria Lúcia antes do tempo. Então escolheu uma mentira piedosa. - De trabalho. Vou ganhar um dinheiro bom, o suficiente para pagar as contas e seu conforto. - Que trabalho vai te pagar tão bem assim? Não vai se prostituir Liz, eu te proíbo! - Claro que não mãe - respondeu de forma trêmula, tentando esconder a verdade, já que de certa forma ela iria sim se prostituir - É de babá. - Que bom filha e quem é a familia? - A senhora não conhece, eles não são daqui. - E como você os conheceu? - Fui indicada por uma amiga da escola, eles entraram em contato comigo. - Que bom, e qual é a parte que está te deixando preocupada? - Eles vão voltar para o estado deles e querem que eu fique lá por um ano. - Como assim filha? De onde eles são? Ela pensou em um estado que fosse longe de São Paulo, para que sua mãe não tentasse contato. - São de Brasília mãe, o bebê acabou de nascer e eles querem que eu fique até o primeiro aniversário do garoto. - Entendi, se você acredita que vai conseguir ficar longe durante um ano, vai filha. É o seu futuro. - O nosso futuro mãe. Você vai se curar com o dinheiro que vou ganhar. - Só tome cuidado - advertiu, apertando a mão dela. - Lembre-se do que eu sempre disse: os patrões, por mais educados que pareçam, sempre tentam atravessar a linha. - Mãe, eu não sou boba. Isso não vai acontecer! Lúcia riu baixinho, com aquela risada rouca que só vinha depois de tantas noites em claro. Riu da inocência da filha, uma inocência que ela própria cultivara com tanto zelo, sem imaginar que um dia seria justamente essa pureza o preço a ser pago. - Eu sei que a senhora está preocupada por eu me distanciar, mas vai ser rápido. - Vai meu anjo, não se preocupe comigo. Faça o que tem que ser feito. Você tem 18 anos, vai trabalhar, ganhar o seu dinheiro e conquistar o mundo. Eu na sua idade estava grávida de você. - Mãe, não fale assim, eu vou voltar para ficarmos juntas novamente. - Você é a surpresa mais feliz da minha vida! Aprendi muito sendo sua mãe. Espero que um dia, você possa encontrar um homem bom, que valorize a sua castidade, que se case com você e construa a sua família com muito amor. Elizabeth engoliu em seco. As palavras da mãe ecoaram dentro dela como um adeus disfarçado de bênção. Ela não tinha resposta. Só podia abaixar os olhos e apertar a mão daquela mulher que lhe dera tudo, inclusive a razão para entregar o que ainda lhe restava. - Mãe, eu preciso ir agora. Mas fique tranquila. Se eu aceitar, aviso a senhora antes de partir. - Está bem, filha. Te amo. Vai com Deus. - Também te amo, mãe. Beijou-lhe a testa, um beijo lento, cheio de carinho e saiu. No corredor do hospital, entre paredes brancas e o cheiro de antisséptico, as lágrimas finalmente caíram. Seria doloroso ficar um ano fora. Seria solitário. Seria uma mentira que carregaria nas costas como uma cruz. Mas faria isso, mesmo que sua alma sangrasse em silêncio, ela seria forte. Por sua mãe.






