A TRANSFERÊNCIA DE LUCIA

Na manhã seguinte, Elizabeth despertou com a voz aflita de Antônia ecoando pelo quarto.

Levantou-se às pressas, ainda atordoada pelo sono, tropeçando nas próprias pernas que pareciam não ter acordado junto com o resto do corpo.

Antônia estava parada à porta. Trazia o telefone nas mãos e um semblante sério demais para aquela hora da manhã.

- Elizabeth… é o Raul. Ele está na linha. Parece bravo. Quer falar com você imediatamente.

Sem compreender totalmente o que estava acontecendo, Liz pegou o telefone.

- Bom dia, senhor Raul.

Não houve cordialidade do outro lado.

- Não está sendo um bom dia, Elizabeth.

Ela fechou os olhos por um segundo.

- O que aconteceu?

- Sua mãe está se recusando a ser transferida. Está dizendo aos enfermeiros que está sendo sequestrada. Gritando. Acusando nossa equipe de rapto.

Liz sentiu o sangue fugir do rosto.

- Ah meu Deus! - disse ela com cara de espanto com a boca entreaberta.

- Você não a avisou?

O silêncio dela foi resposta suficiente.

Raul respirou fundo, impaciente.

- Estamos mobilizando uma ambulância particular, equipe médica especializada, autorização administrativa... isso não é uma brincadeira. Cada minuto de atraso é um problema.

- Eu sei - a voz dela saiu menor do que pretendia. - Eu vou resolver.

- Resolva rápido.

A ligação foi encerrada antes que ela pudesse dizer mais.

Por alguns segundos, Liz ficou parada no meio do quarto, o telefone ainda na mão, sentindo o peso das decisões que vinham tomando nos últimos dias. Decisões que não podiam voltar atrás. Elizabeth discou o número de seu celular, sua mãe logo atendeu, com a voz ofegante e nervosa.

- Alô?! Quem está falando?!

A voz de Lúcia estava trêmula.

- Mãe? Sou eu Elizabeth!

- Oi filha! Como você está? Já estou morrendo de saudades de ti.

- Eu estou bem mãe, muito bem.

- Filha! - o alívio foi imediato. - Estão tentando me tirar daqui. Disseram que vou para outro hospital. Eu não autorizei nada! Eu não quero ir! Isso não está certo! Estão querendo me levar à força. Eu acho que querem me raptar… ou coisa pior. Estou com medo, filha. Estou fraca…

Elizabeth começou a andar de um lado para o outro no quarto, como se o movimento ajudasse a organizar o caos dentro dela, pressionando os dedos contra a têmpora, tentando manter a voz firme.

- Mãe, escuta. Fui eu que autorizei.

Silêncio. Um silêncio pesado.

- Você? - a palavra saiu quase como um sussurro ferido. - Mas por quê?

- Porque eu consegui uma vaga em um hospital melhor.

- Melhor quanto, Elizabeth? - a voz da mãe agora tremia não de medo, mas de desconfiança. - Nós mal conseguimos pagar os remédios do mês passado.

A verdade queimava na garganta.

- Eu estou trabalhando para pessoas influentes. Eles ajudaram.

- Ajudaram? Ninguém ajuda assim, filha. Não desse jeito.

Liz apertou a ponte do nariz, sentindo a pressão aumentar.

- Confie em mim. É seguro. É o melhor para você.

- Como assim? E o que você teve que fazer para conseguir isso?

A pergunta atravessou como lâmina.

Ela demorou um segundo a mais do que deveria para responder.

- O casal que me contratou, eles têm muitos contatos e muito dinheiro, para que eu fique tranquila aqui, a senhora vai para um hospital melhor.

- Tem certeza filha?

- Tem um homem aí chamado Raul?

- Não sei, tem um homem lá fora, mal encarado, de terno, nervosinho.

- Sim, é ele mesmo - riu ao ouvir as palavras de sua mãe - vá até ele e passe o telefone por favor.

- Mas filha, nós não temos dinheiro para essa transferência!

- Fica tranquila mãe, eu estou resolvendo tudo isso, tá bom?! Só fica tranquila e vá com eles, logo nos falaremos mais tá?

- Tá bom filha, te amo.

Lúcia caminhou lentamente pelo quarto até a porta. Cada passo parecia um adeus à segurança precária que conhecia.

- O senhor é Raul?

- Sou, dona Lúcia.

- Minha filha quer falar com você.

- Espero que ela tenha te explicado tudo.

- Sim, ela me disse que a transferência é segura.

Raul estava com a expressão fechada. Seus olhos percorreram rapidamente o quarto, quando pegou o telefone com certo desdém pelo aparelho simples antes de levá-lo ao ouvido.

- Elizabeth.

- Ela vai cooperar. Já expliquei para ela, não vai mais causar problemas.

- Espero que sim. Estamos perdendo tempo.

- Obrigada novamente senhor Raul.

Houve um pequeno silêncio. Não de gentileza, mas de avaliação.

- Ela terá o melhor tratamento disponível. Você está cumprindo a sua parte. Nós estamos cumprindo a nossa.

A frase ficou suspensa no ar como um contrato invisível.

- Nós conversamos mais depois - ele completou.

A ligação foi encerrada.

Lúcia observou quando os profissionais começaram a organizar a maca. Sentia-se pequena, deslocada. Parte dela estava orgulhosa. A outra parte estava aterrorizada.

Olivia, a amiga de Liz apenas observava tudo o que acontecia. Como Elizabeth pediu a ela, estava todos os dias com Lúcia para que não se sentisse só.

Aproximou-se e segurou sua mão.

- Vai dar tudo certo, tia Lúcia.

- Minha filha está escondendo algo. Não é normal isso acontecer.

Olívia não respondeu.

A remoção foi rápida. Sirenes discretas cortaram a manhã enquanto a ambulância seguia rumo ao Hospital Sírio-Libanês.

Horas depois, Lúcia estava instalada em uma suíte ampla, silenciosa, com vista para a cidade. Equipamentos modernos. Enfermeiros atentos. Médicos renomados avaliando cada exame com precisão técnica.

Era outro mundo.

Ela tocou os lençóis macios com a ponta dos dedos.

- Minha filha fez isso por mim…

Mas seus olhos se encheram de lágrimas.

Porque nenhuma mãe acredita em milagres gratuitos.

Do outro lado do país, Elizabeth permanecia parada diante da janela do quarto luxuoso onde agora vivia, encarando o reflexo no vidro.

Ela havia conseguido.

Mas cada privilégio vinha com uma cobrança.

E o preço ainda não tinha sido totalmente apresentado.

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