Eu Não Fiquei Presa na Espera
O meu noivo, Flávio Marinho, tinha uma mania estranha: depois das nove da noite, ele simplesmente não atendia nenhuma ligação.
Mesmo na época em que eu e ele estávamos no auge da paixão, bastava o relógio bater nove horas e ele desligava a ligação na minha cara sem a menor piedade.
Teve uma noite em que cheguei muito tarde em casa. Eu percebi que alguém estava me seguindo, entrei em pânico e liguei para ele.
O que eu ouvi foi a voz dele, carregada de impaciência:
— Você pode, por favor, respeitar o meu horário de descanso? Tchau.
Naquela noite, eu terminei de prestar depoimento na delegacia sozinha, sem sequer ter o direito de culpá-lo por aquilo.
Mas, naquele dia, quando eu abri o computador dele, acabei vendo, por acaso, no histórico sincronizado de ligações, um registro de chamada que começava às nove da noite e só terminava às nove da manhã do dia seguinte.
Doze horas inteiras. Todas as noites. Durante cinco anos.
Eu conhecia a dona daquele número. Ela era aluna da mãe dele e também trabalhava como monitora dele.
Naquele instante, senti um vazio enorme no peito.
Fiquei sentada por muito tempo, até minhas pernas ficarem dormentes, antes de fechar o computador em silêncio. Depois, eu cancelei o nosso agendamento no cartório para oficializar o casamento.
Aquela ligação nunca tinha sido para mim. E eu já não queria atender.